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18 Junho 2019

O capitalismo de vigilância (Shoshana Zuboff, The Age of Capitalism Surveillance) não perdoa aqueles que em nome da verdade e das liberdades individuais revelaram seus mais truculentos segredos. Julian Assange, Edward Snowden e Chelsea Manning são as figuras mais recentes no triângulo daqueles perseguidos pelos impérios coloniais.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 17-06-2019. A tradução é do Cepat.

Um deles, Assange, está em uma prisão em Londres à espera de extradição para os Estados Unidos, porque, através WikiLeaks protagonizou o maior vazamento da história sobre as inconfessáveis intimidades dos Estados Unidos.

Outro, Snowden, vive exilado e escondido na Rússia, após ter revelado o modo como a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA, sigla em inglês) espionava todo o planeta, incluindo chefes de Estado e empresas.

A terceira, Manning, foi condenada a 35 anos de prisão (tribunal militar) por fornecer a Assange, entre centenas de milhares de documentos, o famoso vídeo Collateral Murder ("assassinato colateral"), que mostra como um helicóptero americano mata um grupo de civis, durante a última invasão ao Iraque (2003). E não são os únicos.

Existem dezenas de perseguidos digitais. O ex-presidente equatoriano Rafael Correa paga, em seu exílio belga, o asilo que proporcionou a Assange quando entrou na embaixada do Equador em Londres, onde permaneceu por sete anos antes da polícia britânica prendê-lo, quando o atual presidente do Equador, Lenin Moreno, o entregou covardemente.

Vanessa Rodel e sua filha Keana estão no exílio no Canadá. Ambas fazem parte do grupo de sete pessoas conhecidas como "os anjos da guarda" que, em Hong Kong, protegeram Snowden durante sua estadia. E o advogado canadense defensor dos direitos humanos, Robert Tibbo, advogado de Snowden e dos "anjos da guarda", vive exilado e escondido em um país europeu.

Aí está, em sua crueldade seca, o que o Ocidente faz quando alguém abre a tampa de seus esgotos. E nada o impede. O presidente da Bolívia, Evo Morales, poderia dizer em primeira mão como a Europa o perseguiu quando, em junho de 2013, no retorno de uma viagem à Rússia, França e Portugal negaram o espaço aéreo a seu avião. Os pseudo-socialistas franceses e os portugueses suspeitavam que Evo Morales trazia Snowden escondido em seu avião. É por isso que o forçaram a pousar em Viena e fizeram uma revista por 14 horas.

Assange, Snowden e Manning foram respectivamente desqualificados e descaracterizados pela mesma imprensa que, antes, havia feito deles heróis modernos. Manning foi vendido como traidor e anormal porque mudou de sexo. Snowden, como um renegado contrário à pátria, e sobre Assange foram tecidos os relatos mais obscenos que se possa imaginar. Os meios de comunicação que antes tinham feito dele um imperador do novo jornalismo de dados, ampliaram a narrativa do pelotão de fuzilamento destilada pelas agências de desinformação: era louco, viciado em drogas, estuprador, um agente do Brexit, depois um aliado de Trump e da direita alternativa americana e, acima de tudo, um agente do presidente russo Vladimir Putin.

Esse jornal golpista que é o El País da Espanha iniciou uma maluca desconstrução do mito de Assange, que o próprio jornal havia apontado. Ficaram ofendidos porque Assange contribuiu para instalar a posição e as artimanhas do movimento de independência catalão. É paradoxal que hoje Assange tenha seu melhor apoio em países emergentes e não nas nações ricas, cujos jornais (The New York Times, Le Monde, El País, Der Spiegel) incompreensivelmente beneficiou, quando entregou os fundos da diplomacia estadunidense para esses jornais especulassem à vontade nossas realidades. Só muito depois forneceu a informação aos países interessados que estavam geograficamente fora da esfera Ocidental.

O mais cínico é que os Estados Unidos e seus aliados imputam a Assange, Manning e Snowden os mesmos crimes que seus serviços secretos e empresas globalizadas cometem com toda a impunidade: extrair dados. Haveria assim um roubo legal assumido pelo Google, Apple, Facebook e Amazon, e outro proscrito quando os cidadãos são os que ingressam nas entranhas de um sistema criminoso para trazer à tona o lixo de suas tripas. Lamentavelmente, existe em torno desses crimes de roubo de dados e espionagem a mesma tolerância que com os crimes de colarinho branco.

A sociedade civil não reage, não exige, não luta, não bate o pé, não milita, pois os especialistas da Cambridge Analytica, que roubaram dados e espionaram milhões de contas no Facebook (também fizeram isso na Argentina, quando trabalharam na campanha do Presidente Macri) não estão na cadeia. São ladrões, mas impunes. Assange, ao contrário, tem sobre ele todos os chicotes de punição e séculos de prisão o aguardam nos Estados Unidos.

Infelizmente, também as correntes progressistas do mundo levaram muito tempo para perceber que a vida nuclear de nossas democracias é jogada justamente na Internet e não apenas nas ruas. A esquerda não entendeu Assange, nem as redes sociais. A direita, ao contrário, entendeu e tirou disso um proveito imenso.

É profundo e comicamente incongruente constatar que todos os algoritmos são de direita. Parece que algoritmos progressistas capazes de procurar o inimigo e o neutralizar nos territórios que controla, e partir dos quais nos manipula, não existem. Não existe um "algoritmo Che", existem apenas os outros e, ao mesmo tempo, um vastíssimo e manso rebanho de usuários que, apesar de terem conhecimento, continuam presos a seus torturadores digitais.

Enquanto as esquerdas mundiais celebravam o fim da hegemonia da imprensa do sistema e o advento dos blogs e dos jornais digitais, as direitas se ocuparam dos algoritmos. Os primeiros permaneciam cativos de seus antagonismos de café, os outros organizavam a governabilidade do mundo ao seu capricho.

Julian Assange é o inimigo número um dos tecnoimpérios (China e Estados Unidos) porque, assim como Snowden e Manning, trabalhou como o fantasma que contou a verdade do conto. É preciso voltar a ler seus ensaios para avaliar o quanto se adiantou ao capitalismo espião e violador que nos governa.

Nossos rostos são fotografados, nossas ruas mapeadas, nossos desejos compilados, nossas mensagens e e-mails escaneados, nossos consumos repertoriados e nossas ideias manipuladas. Tudo isso converge em Assange: é, em sua tragédia pessoal, o violador do império. Por isso, não o perdoam, nem perdoarão. Quanto mais o castigarem e perseguirem, quanto mais sofrimentos lhe infligirem, quanto mais o ferirem e desfigurarem, mais satisfeitos estarão os criminosos digitais, os privados e os estatais. Seu sofrimento é a mensagem que nos transmitem.

Seu suplício é, como na Idade Média, um espetáculo punitivo (Michel Foucault, Vigiar e Punir). Uma enorme zona de nossas democracias desapareceu com o destino de Assange e Snowden. Nosso silêncio tem se prolongado muito. Mas, deixaram uma pegada, as provas irrefutáveis de como se ativam os mecanismos do mal e quem são os que os gerenciam. Se continuarmos dormindo com o brinquedo tecnológico como canção de ninar, o sonho se aproximará cada vez mais do pesadelo final.

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