O abuso das mídias sociais no debate político: qual a verdade sobre a pós-verdade?

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18 Janeiro 2017

“Em um futuro próximo, é possível que a disputa sobre a política da pós-verdade leve a uma exame aprofundado do papel das mídias sociais em ajudar os cidadãos a escolher entre mensagens emocionalmente cômodas e verdades racionalmente incômodas. Mas o problema de fundo parece ser muito mais substancial e, em alguns aspectos, um pouco mais inquietante.”

A opinião é do padre italiano Carlo Maria Polvani, em artigo publicado no jornal L’Osservatore Romano, 11-01-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No L’Osservatore Romano do dia 6 de janeiro, o embaixador Antonio Zanardi Landi assinalou, com indiscutível perspicácia, a tendência ao abuso das mídias sociais na esfera política, advertindo que instrumentos como Facebook, Twitter ou Instagram corriam o risco de se transformar em perigosos fatores de “desafeição e de paralisia do debate público e do funcionamento das democracias”. Sem nunca nomeá-la diretamente, o ilustre diplomata, com agradável delicadeza, jogou uma luz sobre a controvérsia em torno da chamada post-truth politics (“política da pós-verdade”), que investiu sobre o mundo anglo-saxônico depois dos resultados surpreendentes (pelo menos de acordo com as pesquisas de intenções de voto do dia anterior) do referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia e das últimas eleições presidenciais estadunidenses.

Para alguns dos seus detratores, a política da pós-verdade é uma teoria construída por um grupo de intelectuais progressistas para tentar justificar o seu fracasso em detectar a constituição de movimentos de fundo da opinião pública que levaram à afirmação da Brexit e à vitória do presidente eleito Donald J. Trump. Para muitos dos seus partidários, ela representa uma nova, eficaz e preocupante forma de comunicação que mudou as regras das campanhas eleitorais.

A controvérsia, assim, se acendeu tanto – pense-se no editorial de William Davies no New York Times do dia 25 de junho passado: The Age of Post-Truth Politics – que a palavra post-truth foi escolhida, há um mês, como “palavra ano” pelos Oxford Dictionaries, e não faltaram aqueles que, invocando exemplos de sociedades distópicas imaginárias como “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley (1894-1963) ou “1984” de George Orwell (1903-1950), remeteram a política da pós-verdade a uma tentativa de manipulação da opinião pública em larga escala.

Na realidade, também não são muitos aqueles que se atrevem a comparar a post-truth politics com exemplos assustadores reais desse fenômeno, como a große Lüge (o povo crê mais facilmente em uma grande mentira do que uma pequena, defendia Adolf Hitler no Mein Kampf) ou a disinformatsia (o sistema de “desinformação” aperfeiçoado pelo Diretório Político do Estado, antecessor do KGB).

De fato, o termo post-truth, na sua acepção atual, foi usado pela primeira vez pelo escritor Stojan Steve Tešić (1942-1996), na mais antiga revista semanal político-cultural estadunidense, The Nation. Em um artigo de 1992, o dramaturgo sérvio-estadunidense, considerando a opinião pública estadunidense injustificadamente insensível ao escândalo do Irangate que tinha atingido o governo Reagan e superficialmente entusiasmada com os sucessos da operação Desert Storm decidida pelo governo de George Bush pai, escreveu: “Como povo, decidimos, livremente, que queremos viver em um mundo de pós-verdade”.

A essência da política da pós-verdade pareceria se originar do pensamento filosófico de Harry Gordon Frankfurt (1929-). Na última década, esse especialista do racionalismo do século XVII analisou cuidadosamente o papel da propagação das mentiras e da difusão dos boatos nos debates políticos e sociais. A sua análise, depois, foi enriquecida com as propostas do escritor Ralph Keyes (1945-), do jornalista Eric Altemann (1960-), dos cientistas políticos Colin Crouch (1944-) e Dominique Moïsi (1946-), além de ter sido popularizada pelo blogueiro David Roberts na revista ecologista online Grist.

Hoje, por política da pós-verdade, entende-se uma cultura política em que as discussão são caracterizadas pelas emoções, a despeito dos fatos e das ideias, e em que os pontos centrais do debate são estabelecidos e veiculados graças ao martelamento incessante de elementos retóricos nos novos meios de comunicação. Pense-se neste exemplo teórico.

Durante uma campanha eleitoral, um candidato propõe uma lei de anistia para os migrantes ilegais presentes no território nacional há pelo menos cinco anos. O seu adversário político, ao invés de combater o projeto na imprensa e nos fóruns políticos, invocando argumentos ideológicos (por exemplo, a instalação de uma cultura do indulto que favorecerá a imigração ilegal) ou factuais (por exemplo, o projeto de lei não prevê o pagamento de impostos em atraso sobre rendimentos do trabalho ilegal), concentra-se, ao contrário, por meio das mídias sociais, em divulgar mensagens de alto efeito emocional (por exemplo, milhares de postos de trabalho serão perdidos por cidadãos honestos, no caso de regularização dos ilegais).

Quando o candidato em favor da anistia contrapõe que os empregos daqueles que serão regularizados não poderiam, contudo, ser destinados a não imigrantes e até mesmo modifica o seu projeto de lei para incluir um pagamento postergado dos impostos sobre o rendimento daqueles que serão regularizados, o seu oponente, alheio a replicar às novas contra-propostas, continuará reiterando incessantemente nas mídias sociais o perigo da perda de milhares de postos de trabalho.

A eficácia da política da pós-verdade se verifica na emergência de uma preocupação obsessiva na opinião pública sobre o suposto risco da perda dos postos de trabalho que torna impossível ou mesmo vã qualquer discussão racional sobre os benefícios e sobre as desvantagens do projeto de lei em exame.

As características da post-truth politics, portanto, são tanto de ordem técnica – porque dependem de mudanças midiáticas epocais, como o fato de que a metade dos jovens de hoje encontram nas mídias sociais a fonte primária, senão exclusiva, das próprias informações –, quanto de natureza substancial – não se trata nem de refutar a verdade com outra verdade, nem para contrastá-la com uma não verdade, mas de colocar as ideias e os fatos em segundo plano em relação a um ponto focal emocional cujo nexo causal com a realidade não foi necessariamente demonstrado.

Esses sinais distintivos da post-truth politics podem, por si sós, justificar que ela seja considerada uma categoria inédita de formação das opiniões? Só o tempo dirá se a política da pós-verdade é uma mudança duradoura ou uma adaptação temporária diante da emergência de novos meios de comunicação de massa.

Por enquanto, as características da post-truth politics são interessantes por duas razões. Primeiro, elas explicariam por que o deslocamento de opiniões durante as campanhas eleitorais tornou-se tão difícil de evidenciar nas democracias ocidentais (ao menos, usando os modelos estatísticos atualmente em vigor na mensuração das tendências demoscópicas). Além disso, elas ilustrariam por que potências estrangeiras considerariam possível tentar influenciar as eleições de outras nações mediante o uso dos meios de comunicação (ao menos, de acordo com o que foi afirmado pelo diretor da National Intelligence, James Robert Clapper, em referência à suposta tentativa de condicionamento das últimas eleições presidenciais estadunidenses pela Federação Russa).

Em um futuro próximo, portanto, é possível que a disputa sobre a política da pós-verdade leve a uma exame aprofundado do papel das mídias sociais em ajudar os cidadãos a escolher entre mensagens emocionalmente cômodas e verdades racionalmente incômodas. Mas o problema de fundo parece ser muito mais substancial e, em alguns aspectos, um pouco mais inquietante.

Na “República” (III, 414D), Platão apresenta o mito da nobre mentira (gennáion pséudos): uma lenda criada pelas elites que assegura a harmonia social, pois desenvolve o senso cívico nos cidadãos e o de responsabilidade nos governantes. Sem tomar posição sobre a necessidade e sobre a moralidade de tal projeto paidêutico – ambas brilhantemente examinadas por um dos filósofos mais influentes do movimento neoconservador estadunidense, Leo Strauss (1989-1973) – parece legítimo se perguntar: a razão última pela qual os governantes sempre buscam meios, mais ou menos éticos, para convencer os cidadãos é, talvez, a descrita por Orwell no citado “1984”: “Que, para o homem, há apenas uma alternativa: ou seja, escolher entre a liberdade e a felicidade, e a maioria dos homens, entre as duas, prefere a felicidade”?

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