Inteligência artificial aumenta o caos climático. Artigo de Silvia Ribeiro

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17 Julho 2019

“As grandes empresas de plataformas digitais, como Amazon, Microsoft e Google, buscam fazer com que parte da energia que utilizam provenha de fontes renováveis, mas isso não chega nem perto do crescimento exponencial da demanda que provocam”, problematiza Silvia Ribeiro, pesquisadora do Grupo ETC, em artigo publicado por Alai, 09-07-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Todos os dias ouvimos o canto dos supostos benefícios e promessas que os sistemas de inteligência artificial podem ter, mas com pouca ou nenhuma visão crítica sobre seus impactos sociais, econômicos e políticos. No entanto, existe muita preocupação com o uso comercial e político de dados pessoais, o aumento da discriminação e do racismo, a substituição de empregos, o desenvolvimento de armas e robôs assassinos, entre outros aspectos da aplicação da inteligência artificial. Agora, se acrescenta que esses sistemas também têm um enorme impacto ambiental e climático, devido à alta demanda de energia e às emissões de gases do efeito estufa que isso acarreta.

Um estudo realizado por Emma Strubell, A. Ganesh e A. McCallum, da Universidade de Massachusetts Amherst (junho de 2019), estimou os impactos do uso de energia e das emissões de carbono de alguns desses sistemas. Encontraram que em sistemas que emulam redes neurais, o treinamento de um único sistema de inteligência artificial gera até 5 vezes mais emissões de carbono que um carro médio dos Estados Unidos ao longo de sua vida útil, incluindo fabricação e uso de combustível.

Concentraram-se em quatro modelos de inteligência artificial com aprendizado profundo para processamento de linguagem natural (PLN), que estão entre os mais usados: Transformer, ELMo, BERT e GPT-2. Todos aumentaram notadamente suas capacidades nos últimos dois anos. O GPT-2 da OpenAI, financiado pelo empresário Elon Musk, gerou polêmica devido à sua capacidade de inventar e completar frases, gerando massivamente notícias falsas credíveis. Musk anunciou que o sistema não terá uma fonte aberta, supostamente para impedir seu uso indiscriminado - e, no processo, manter seu monopólio.

O cálculo de impacto utilizado para o estudo é baseado no gasto energético dos equipamentos para processamento, eletricidade e ferramentas associadas para treinamento de sistemas de inteligência artificial. Strubel explicou à revista New Scientist que para processar algo tão complexo quanto a linguagem, é necessário processar uma imensa quantidade de dados. Um enfoque comum é ler bilhões de textos, para ver o significado das palavras e como se constroem as frases. Isso requer enorme capacidade de processamento, armazenamento e energia. Não quer dizer que entenda o que lê, mas, no final, pode imitar nosso uso da linguagem.

O estudo faz uma comparação com outras fontes de emissões de carbono. No caso de um automóvel, que emite uma média de 57 toneladas de CO2 durante sua vida útil. O treinamento de uma unidade de inteligência artificial capaz de decifrar e manejar a linguagem poderia emitir até 284 toneladas de carbono, cinco vezes mais. Isso significa cerca de 315 vezes as emissões de um voo de costa a costa dos Estados Unidos e 56 vezes o consumo médio de energia de um ser humano em toda a sua vida.

As grandes empresas de plataformas digitais, como Amazon, Microsoft e Google, buscam fazer com que parte da energia que utilizam provenha de fontes renováveis, mas isso não chega nem perto do crescimento exponencial da demanda que provocam.

Sendo grave, este é apenas um dos exemplos da demanda monstruosa por energia para o desenvolvimento da era digital, que se soma a outros impactos desta aos quais geralmente não fazem associação: a desapropriação e o acúmulo de materiais e recursos que são escassos, a poluição ambiental causada pela produção e pelo lixo, o agravamento da mudança climática, além do impacto na saúde, tanto diretos pela radiação eletromagnética das redes de telefonia e internet, quanto os derivados de outras formas de poluição nessa indústria.

O uso da inteligência artificial também é extremamente problemático em outros planos, porque ao se basear em algoritmos determinados pelas metas comerciais dos desenvolvedores e seu contexto econômico e cultural, repetem esquemas discriminatórios e racistas. Por exemplo, estão sendo usados sistemas de inteligência artificial em instituições bancárias - para avaliação de créditos, empréstimos, investimentos - e instituições judiciais, para administrar sentenças, locais de detenção, etc. Em ambos os casos, foi demonstrado que o sistema é discriminatório e racista: por exemplo, se a pessoa "avaliada" é negra ou latina nos Estados Unidos, o sistema avalia automaticamente como menos confiável e mais perigosa, supostamente baseado na porcentagem histórica de pessoas presas e/ou condenadas. Como esta já é uma base racista e discriminatória, a inteligência artificial a reafirma e a aumenta.

Assim como em grandes plataformas digitais, a regulamentação e a supervisão independentes são inexistentes e estão fortemente enviesadas a favor das poderosas empresas que deveriam ser controladas. Faz-se necessário muito mais debate e ação social sobre as implicações dessas tecnologias que afetam a todas e todos. A este respeito, congratulamos a criação recente de duas publicações que são colaboração de várias organizações sociais e ativistas: a revista digital latino-americana Internet Ciudadana e o portal Bot Populi sobre justiça digital, que, por enquanto, são maioritariamente em inglês

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