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19 Outubro 2019

Na avaliação de Constance Michelson, psicanalista e escritora, “os colonizadores da nova imagem do futuro não trazem consigo uma teoria do mundo, são principalmente engenheiros, homens pragmáticos e focados em soluções técnicas”.

Contudo, “existe o corpo e sua presença nos obriga ao polivalente, à ambiguidade, a resistir à estreiteza da linguagem técnica capitalista”, escreve.

O artigo é publicado por La Tercera, 11-10-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Quem é o maldito amo? É quem domina a imagem do mundo.

O futuro não é mais imaginado como as utopias do século passado, tampouco um em que os carros voam. O futuro se parece bastante com o presente: humanos máquinas, estéticas fluidas, vidas cada vez mais longas. A utopia é que o imaterial do virtual e a técnica nos permitam poupar o incômodo da carne, traduzindo a experiência para uma linguagem artificial. O corpo incomoda.

O escritor Alessandro Baricco, em The game, volta com um argumento habitual: não teria sido a revolução digital que nos mudou, mas, ao contrário, uma decisão prévia. A de uma geração em fuga, que fugiu do século XX, cujos horrores foram o produto de um projeto de futuro baseado em ideias, que terminaram em ideologias obcecadas com as fronteiras e a demarcação de limites. Dessa decisão, nasceu uma invenção-chave, a web, cumprindo o sonho de um mundo sem muros, um espaço aberto de livre circulação e livre da linearidade das instituições políticas tradicionais.

A lógica da web é a que permitiu, mais rápido que outras revoluções, derrubar os sacerdotes de todos os ministérios. A relação entre pessoas e coisas requer cada vez menos mediação, o que modifica as relações de autoridade e poder.

Contudo, isso não se cumpriu para todos. Alguns continuam sendo mais corpo que incomoda, por exemplo, os imigrantes pobres. Existe um mundo de pessoas que transitam livremente entre a vida material e a virtual, mas cercadas por cadáveres flutuando no mar, corpos sem permissão para transitar.

Um fato a considerar é que os colonizadores da nova imagem do futuro não trazem consigo uma teoria do mundo, são principalmente engenheiros, homens pragmáticos e focados em soluções técnicas (sem calcular os custos sociais dela). É fácil verificar que não são as humanidades as disciplinas que aparecem nas capas das revistas do poder: a nova elite é masculina, técnica e racional. E, nessa altura, já vão traindo o espírito inicial do mundo livre virtual. Segundo Baricco, em 2011, o uso de aplicativos ultrapassou a web, retornando à lógica da propriedade e, como vemos, ao grande desejo de monopólio.

O que não mudou em relação ao século anterior é a fantasia masculina, sempre fálica, como uma prótese da fragilidade humana (o transumanismo é uma disputa com os limites da vida e da morte). Não se trata de alguma superioridade moral feminina, mas simplesmente que o feminino tem uma relação mais orgânica com a vulnerabilidade: não a oculta, nem deve dissimulá-la através de provas de potência.

Permitam-me uma breve digressão sobre a diferença entre fantasia e imaginação. A primeira é para cima, vertical, por isso pode se tornar megalomaníaca. A imaginação, ao contrário, é para baixo, requer outros corpos, é um “o que fazer” com o dado. Atrevo-me a dizer que esta revolução tem muito mais de fantasia do que imaginação. Pode prescindir-se do corpo. Porque seu suporte é o digital, ou seja, a tradução das informações em sequências de dois números 0 e 1, “on e off”, sim e não.

Conhecido? Ainda que a imagem do mundo seja fluida e múltipla, a subjetividade está colonizada pela lógica binária.

A filósofa Fina Birulés advertiu esta contradição: há um entusiasmo em relação ao múltiplo e não-binário, mas ao mesmo tempo uma febre pelo eu que faz definições e classificações decisivamente binárias. O fato de que nos dias de hoje a forma seja o pano de fundo de vários debates que se tornam “on off”, sim ou não, tem a ver com essa contradição.

De qualquer forma, existe o corpo e sua presença nos obriga ao polivalente, à ambiguidade, a resistir à estreiteza da linguagem técnica capitalista. Como poderia uma máquina imitar a ambiguidade do humor ou o erotismo, o duplo sentido, as mentiras piedosas? Como em outras histórias, acredito que será o erro que nos salvará das fantasias maníacas.

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