Da Revolução Industrial à Digital, o que nos guia nas “coisas novas”?

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02 Julho 2019

O mais desafiador é o chamado para evangelizar não apenas no espaço da mídia digital, mas no próprio espaço. Leão XIII não procurou apenas atender às necessidades espirituais dos trabalhadores; ele criticou as injustiças estruturais que os prejudicavam. Toda inovação sofre de um ponto cego que o Evangelho pode ajudar a aliviar.

Felizmente, da liderança visionária de Leão XIII a Francisco, os católicos têm 128 anos de bons hábitos construindo maneiras de aplicar o Evangelho aos desafios de nossos tempos. É algo que podemos fazer com mais fidelidade e destreza, se tivermos a coragem de confiar que Jesus ainda está lá, não apenas entre os "menores", mas também entre os "novos".

O artigo é de Don Clemmer, jornalista e ex-funcionário da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, publicado por National Catholic Reporter, 29-06-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Nos anos que se seguiram à sua promulgação em 15 de maio de 1891, o Vaticano comemorou o notável aniversário da Rerum Novarum, do papa Leão XIII, a encíclica que lançou o moderno ensino social católico. Nisso se inclui os escritos papais para marcar o 40º aniversário (Pio XI — respondendo à Grande Depressão — em 1931), o 70º aniversário (João XXIII em 1961) e o centenário (João Paulo II em 1991). Embora não seja surpresa que o 128º aniversário, neste ano, não tenha provocado uma nova encíclica, é notável que tenha ocorrido entre 17 e 18 de maio uma conferência do Vaticano sobre Inteligência Artificial e Robótica. Esses tópicos podem não ser o que muitas pessoas associam ao ensino social católico, mas talvez fossem a maneira perfeita, se não intencional, de observar a semana de aniversário.

Isso ocorre porque a igreja, quase inconscientemente, adotou a memória de Leão XIII, modelada na melhor forma de abordar as "coisas novas", uma frase que é uma tradução justa do título da encíclica. Uma questão nevrálgica na vida da igreja é "Como lidamos com os mais recentes desenvolvimentos na sociedade sem nos tornarmos reacionários ou perdermos a essência do Evangelho?". Leão XIII teve de enfrentar a Revolução Industrial, e as décadas mais recentes viram exponencialmente mais novidades.

Embora exemplos dessa novidade hoje incluam questões como mudança climática e aceitação mais ampla da comunidade LGBTQ+, o foco do Vaticano em IA, robótica e a emergente tecnologia digital são úteis, em geral, para articular exatamente o que os bons hábitos da Rerum Novarum implicam e como eles guiam a resposta da igreja.

Primeiro, ao longo do século XX, ficou claro que as "coisas novas" de Leão XIII também são o que o papa João XXIII - frequentemente em referência à sua visão para o Concílio Vaticano II - chamou de "sinais dos tempos". Ao aplicar a verdade eterna aos desafios de seus dias, Leão forneceu um modelo que João expandiu a respeito de como a Igreja aborda toda a nossa missão. Mas não apenas João expandiu os sinais dos tempos do trabalho e capital de Leão para uma visão geopolítica de solidariedade e paz, ele também modelou mais claramente do que qualquer um a postura evangélica apropriada a novas coisas: serenidade profética e alegre, não amedrontada, confiante de que o Espírito Santo está nos guiando.

Essa lição é importante porque há muito sobre o mundo da tecnologia digital que parece tudo menos sereno: o tom vicioso dos debates nas mídias sociais, a disseminação de desinformação, a proliferação de todo tipo de conteúdo desumanizador, e assim por diante. Mas se a Igreja lê essas coisas como sinais dos tempos, tudo deve ser visto com uma lente maior. Como se vê, o conhecimento acumulado do mundo acessível a um clique, na verdade, pode ser usado para o bem.

Mesmo antes de João XXIII, os Papas estavam lidando com a nova tecnologia de comunicação dessa maneira. Pio XII dedicou uma encíclica, Miranda Prorsus, para os filmes, rádio e TV em 1957. E Pio XI mergulhou a igreja diretamente nas mídias com a fundação da Rádio Vaticano em 1931.

O último exemplo levanta o segundo hábito de Rerum Novarum, de que toda "coisa nova" é também um campo missionário, uma oportunidade para o Evangelho se infiltrar mais profundamente na cultura. Aqui, vemos há anos, católicos leigos, sacerdotes e até mesmo bispos seguindo este exemplo e correndo para evangelizar pela mídia digital.

Onde isso se torna mais desafiador é o chamado para evangelizar não apenas no espaço da mídia digital, mas no próprio espaço. Leão XIII não procurou apenas atender às necessidades espirituais dos trabalhadores; ele criticou as injustiças estruturais que os prejudicavam. Toda inovação sofre de um ponto cego que o Evangelho pode ajudar a aliviar.

De certa forma, as preocupações originais de Leão se mostraram tristemente duradouras. Não só a velocidade e a conveniência da Internet criaram outra economia em que os trabalhadores se encontram mastigados nos dentes de uma máquina (falam da necessidade de um "Sínodo da Amazônia"...), mas os consumidores têm pouca escolha, além de também serem varridos. Uma Rerum Novarum do futuro próximo poderia ser uma resposta ao modelo de negócios em que a pessoa humana é mercantilizada através do compartilhamento e venda de dados pessoais. Esse processo obscurecido para a maioria de nós e enterrado na linguagem dos acordos de usuário e no código de cookies, se desenrola em grande escala e com detalhes granulares assustadores.

Tanto nos dias de Leão XIII como agora, uma evangelização de sistemas é guiada pela questão: "Esse sistema tem a dignidade da pessoa humana no seu centro?". Mas o ensinamento do papa Francisco vai ainda mais longe, lembrando que temos o que poderia ser chamado de opção preferencial pelas periferias. Isso não apenas ressoa autenticamente com a decisão de Leão, de colocar a igreja do lado dos trabalhadores, como também remonta a Mateus 25 e Jesus se identificando com os marginalizados.

Cada "coisa nova" é uma oportunidade para colocar esse princípio em prática também, como pode ser visto na resposta da Igreja à poluição ambiental e à mudança climática, citando consistentemente o sofrimento dos mais pobres do mundo, que menos contribuem para esses problemas e ainda veem suas casas mais afetadas.

Da mesma forma, a igreja aborda a novidade do mundo digital com perguntas de pessoas que não têm acesso às oportunidades que a internet oferece, aquelas cujos trabalhos estão entre os primeiros ameaçados pela automação da IA.

Isso fornece outra poderosa questão para o discernimento. Quando uma coisa nova surge, ela é identificada com os poderosos (grandes empresas de tecnologia, oligarcas e autoritários), ou é apropriada por pessoas que tradicionalmente se encontram nas periferias?

O cardeal Joseph Tobin, de Newark, Nova Jersey, observa que a abertura a vozes marginalizadas resulta em "conversão, particularmente conversão longe das atitudes e comportamentos que desumanizam os outros". Os sinais do século XXI - em tecnologia digital ou em outro lugar - indicam que a igreja realmente não pode se dar ao luxo de trazer mais desumanização à mesa.

Felizmente, da liderança visionária de Leão XIII a Francisco, os católicos têm 128 anos de bons hábitos construindo maneiras de aplicar o Evangelho aos desafios de nossos tempos. É algo que podemos fazer com mais fidelidade e destreza, se tivermos a coragem de confiar que Jesus ainda está lá, não apenas entre os "menores", mas também entre os "novos".

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