"O ensino social católico é um chamado à consciência"

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22 Setembro 2017

“Esta semana, estou em Varsóvia para uma conferência sobre o ensino social católico. No evento do ano passado, o seguinte artigo de John Strynkowski, um padre da diocese do Brooklyn, preparou o terreno para a conferência e capturou a imaginação de todos os presentes. Muitas vezes, falamos e escrevemos como se o ensino social católico tivesse acabado de cair do céu com o Papa Leão XIII e sua encíclica seminal Rerum Novarum, mas esse ensino é construído sobre a Escritura e a doutrina, e Strynkowski explorou essas bases”, escreve Michael Sean Winters, jornalista, ao reproduzir a conferência publicando-a em National Catholic Reporter, 20-09-2017. A tradução é de Luisa Flores Somavilla.

Eis o texto.

Fundamentos bíblicos e doutrinais do ensino social católico

"Eu sou o que sou" (Êxodo 3:14). Estamos aqui por causa dessas palavras, as palavras que Deus falou a Moisés diante do arbusto em chamas no monte Sinai, 3.200 anos atrás. Essas são as palavras que Deus usou para responder à pergunta de Moisés sobre seu nome. Por essas palavras, Deus se definiu e identificou não só a Moisés, mas a todos os que acreditariam Nele nos séculos seguintes. Nós também ouvimos e recebemos essas palavras, que se tornaram parte de nosso ser mais profundo como cristãos.

Participar da adoração correta do Deus verdadeiro é praticar as ações de justiça e misericórdia, e praticar as ações de justiça e misericórdia é conhecer a proximidade do Deus verdadeiro.

Judeus e cristãos, geração após geração, refletiram sobre essas palavras para desenvolver uma visão de seu mistério, do próprio mistério de Deus. Mas, para nosso objetivo hoje, elas devem ser vistas no contexto geral do encontro entre Deus e Moisés, conforme descrito no terceiro capítulo do Livro de Êxodo. Deus revela Seu nome ao dar uma missão a Moisés. Disse o Senhor a Moisés: "Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores. Portanto desci para livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra, a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel..." (Ex. 3:7-8). Deus quer que Moisés seja seu instrumento para tirar seu povo da terra da escravidão e da opressão.

Há, no entanto, outro aspecto da missão de Moisés nesse mesmo capítulo do Êxodo. Deus ordena que Moisés vá ao "rei do Egito, e dir-lhe-eis: 'O Senhor Deus dos hebreus nos encontrou. Agora, pois, deixa-nos ir caminho de três dias para o deserto, para que sacrifiquemos ao Senhor nosso Deus.' " (Ex. 3:18). A intenção de Deus é resgatar seu povo não só da escravidão, mas também da idolatria. O Egito era, para os israelitas, uma terra imersa na escuridão da opressão e dos deuses falsos. Deus queria libertar seu povo da escravidão da injustiça e da idolatria.

Isso significa que não há conflito entre a adoração do Deus verdadeiro e a luta pela justiça. Pelo contrário, existe um vínculo intrínseco entre adoração e justiça. Adorar o Deus que se revela a Moisés é aceitar sua vontade de libertação dos aflitos, e buscar a libertação dos aflitos é transformá-los em um povo que adora o Deus verdadeiro, como aconteceu na recuperação da antiga Israel do Egito.

O que descobrimos com a revelação de Deus a Moisés é que Ele quer a salvação de toda a pessoa, a libertação espiritual da ignorância do Deus verdadeiro e a libertação corporal do que quer que diminua a dignidade e o bem-estar da pessoa. Se bem me lembro, uma das palavras polacas para salvação é "ocalenie". Isso vem de um antigo verbo polonês, "calic" - manter algo em sua totalidade -, e expressa bem o princípio de que a salvação é integral: Deus busca a salvação de toda a pessoa.

A história subsequente da salvação confirma essa ideia. Por diversas vezes, o povo da antiga terra de Israel perambulou em idolatria e, por diversas vezes, através dos profetas, Deus foi implacável em chamá-los para si, tal foi sua misericórdia infinita. Mas Ele também exigiu que a misericórdia que demonstrava fosse compartilhada com os outros. Ouça o profeta Isaías ao descrever o jejum que a adoração do Deus verdadeiro significa: "Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?... Então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: 'Eis-me aqui.' " (Isaías 58:6-7,9). Participar da adoração correta do Deus verdadeiro é praticar as ações de justiça e misericórdia, e praticar as ações de justiça e misericórdia é conhecer a proximidade do Deus verdadeiro.

Esta conexão intrínseca entre a identidade e a adoração do Deus verdadeiro e as obras da justiça e da misericórdia para a salvação integral da pessoa é promovida por Jesus. Por exemplo, João Batista envia dois de seus discípulos para perguntar a Jesus: "És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?". Jesus responde: "Ide, e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho" (Lucas 7:20 e 22). Jesus, como o enviado de Deus, torna sua a preocupação de Deus com a libertação dos seres humanos dos laços que ameaçam sua totalidade. Nos Evangelhos, vemos Jesus libertando as pessoas do peso do pecado, a diminuição espiritual final da pessoa, mas a preocupação pela pessoa como um todo se estende ao corpo e às relações entre elas. Assim, ao purificar os leprosos, Ele lhes permite retornar às suas comunidades, das quais foram banidos por causa da doença.

A identidade entre Deus e Jesus fica mais clara no Evangelho de João: "Eu e o Pai somos um" (João 10:30). Quando seus inimigos o acusam de blasfêmia, Jesus responde: "Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis. Mas, se as faço, e não credes em mim, crede nas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele" (João 10:37,38). Jesus invoca suas obras como obras do Pai para demonstrar sua unidade com Ele. E quais são essas obras? No Evangelho de João, Jesus faz o cego voltar a ver, faz o paralítico andar, levanta Lázaro dos mortos, alimenta os famintos. Essas são as obras salvadoras e libertadoras do Pai que Jesus fez suas para a salvação integral da humanidade. Não só liberta as pessoas dos seus pecados, nem só proclama o verdadeiro culto de Deus em espírito e verdade, mas também cura e restaura a vida. Jesus, como bom pastor, veio dar vida em abundância (cf. João 10:10).

Em sua cura piedosa, Jesus também agia como o único enviado. Um dos significados da justiça é a restauração da ordem correta entre Deus e humanidade, e entre os próprios seres humanos. Assim, Jesus restaurou a ordem correta entre nós e Deus através da sua morte e ressurreição. Restaurou a ordem correta entre os seres humanos ao estabelecer a Igreja como uma comunidade de amor. Mas também restaurou a ordem correta aos próprios seres humanos ao restabelecer a totalidade dos que foram diminuídos em suas vidas devido a alguma enfermidade. A compaixão flui da justiça e a justiça flui a partir da compaixão.

Após a morte e ressurreição do Senhor, a Igreja continuou no caminho do reconhecimento de que conhecer o Deus verdadeiro significa aceitar a preocupação de Deus com a salvação da pessoa como um todo. Um exemplo impressionante disso são as duras críticas de São Paulo aos cristãos em Corinto, ao se reunirem para a Santa Ceia. Os membros ricos da comunidade fizeram uma refeição sozinhos, ignorando a fome dos pobres. Ele diz aos ricos: "... desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm?" Após relembrar a tradição da Eucaristia da instituição do Senhor, encoraja os ricos coríntios a avaliar seu comportamento em relação aos pobres, para que comam o pão e bebam o copo dignamente. O dom do sacrifício de Jesus de seu próprio corpo na Cruz, presente na Eucaristia, requer cuidados com o corpo de Cristo, que é a Igreja. (Cf. 1 Coríntios 11: 17-32)

Portanto, até aqui, apresentei alguns fundamentos bíblicos do ensino social católico. O que apresentei até aqui é a base do engajamento da Igreja, desde o início da sua história, em ações de misericórdia e caridade, inicialmente espontâneas, mas sempre inspiradas pelo Evangelho, por parte de indivíduos e comunidades, mas depois evoluindo para apostolados mais organizados através de comunidades de homens e mulheres consagrados e associações leigas. Porém, o princípio que conduz toda essa ação foi a preocupação de Deus com a salvação integral dos seres humanos, libertando-os não apenas da escuridão e da escravidão dos deuses falsos, mas também de condições materiais e físicas que diminuíam seu potencial de maior bem-estar. No século XX, essa preocupação ficou ainda mais cristalizada no ensino da Igreja sobre a promoção da justiça nas esferas política e econômica da sociedade. A virtude da justiça sempre fez parte do discurso filosófico, teológico e espiritual da Igreja, mas, no século passado, a demanda por sua promoção em toda atividade humana, principalmente em questões econômicas, tornou-se parte essencial do ensino da Igreja, advindo da aceitação da preocupação de Deus com a salvação integral dos seres humanos como um imperativo cristão. Porém, há também princípios doutrinários subjacentes ao ensino social da Igreja, e é a eles que me refiro a partir de agora.

"E o Verbo se fez carne". Através de sua reencarnação, Jesus restaurou em si a criação de Deus do homem e da mulher à sua imagem, no início da história humana. Jesus é a imagem perfeita do Pai e, assim, torna-se a fonte de restauração de toda a humanidade à imagem de Deus. Jesus renova a dignidade original do ser humano, elevando-a a um status superior. Lembre-se do que o sacerdote ora durante a Preparação das Oferendas na missa, ao derramar um pouco de água no cálice do vinho: "Pelo mistério desta água e deste vinho, possamos participar da divindade de vosso Filho, que se dignou a assumir a nossa humanidade." A humanidade é chamada a participar de forma mais profunda na vida de Deus, e isso intensifica a consideração que homens e mulheres têm uns com os outros. Pela Incarnação, todos os seres humanos estão conectados a Cristo e destinados a encontrar Nele a realização eterna. Em sua Carta Encíclica Redemptoris Missio, São João Paulo II escreveu: "Jesus veio trazer a salvação integral, que abrange o homem todo e todos os homens, abrindo-lhes os horizontes admiráveis da filiação divina."

No Sermão do Monte, Jesus ordena o cultivo de virtudes que enobrecem não só o próprio homem, mas, mais do que isso, aumentam o bem-estar dos outros.

A defesa e proteção da Igreja a todos os seres humanos e direitos humanos advém não apenas de um princípio filosófico, ou da lei natural, mas, ainda mais profundamente, da sua crença na conexão entre todos os seres humanos com Cristo e seu destino Nele pela Encarnação. Essa conexão e destino de toda a humanidade para e em Cristo também é o fundamento da solidariedade da Igreja com todos os povos. O respeito pela dignidade e pelos direitos dos outros implica mais do que apenas cumprir os Dez Mandamentos. No Sermão do Monte, Jesus ordena o cultivo de virtudes que enobrecem não só o próprio homem, mas, mais do que isso, aumentam o bem-estar dos outros. Assim, por exemplo, devemos não apenas não matar uns aos outros, mas não nos irritarmos com as pessoas ou chamá-las de "tolas" (cf. Mt. 5: 21-22).

Tudo isso exige do cristão o cultivo da empatia como base para a compaixão, a misericórdia e a justiça. Uma das palavras italianas para a expressão "ter empatia" é "immedesimarsi" - tornar-se semelhante ou idêntico ao outro. É a capacidade de colocar-se na pele de alguém que está sofrendo. A principal fonte de cultivo de empatia para um cristão é a contemplação de Cristo crucificado. Ter um profundo conhecimento e experiência espirituais e existenciais de Cristo crucificado nos leva a poder compreender o sofrimento dos outros com o coração. Lembre-se das pinturas dos fundadores das ordens religiosas que são vistas contemplando a Cruz de Cristo. Daquela contemplação advêm os esforços em ajudar os pobres.

A exaltação de Jesus em sua ressurreição era a justificativa do Pai diante do sacrifício de seu Filho na cruz. Ao orar em uma das aclamações após a consagração na missa: "Salva-nos, Salvador do mundo, pois por sua cruz e ressurreição o Senhor nos libertou". Jesus nos libertou do pecado e da morte, mas também nos libertou para abraçar Seu caminho de auto-sacrifício pelo próximo. É essa liberdade que baseia a insistente proclamação da Igreja de princípios de justiça e paz hoje. É essa liberdade que concede ao magistério o ímpeto de defender com coragem os pobres e vulneráveis no mundo atual, mesmo que isso signifique ser condenado pelos poderes mundanos. É essa liberdade que permite que indivíduos e comunidades de cristãos trabalhem pela justiça e pela paz, mesmo com o derramamento de sangue.

O Senhor ressuscitado detém não apenas toda a humanidade, mas também toda a criação. O universo pertence a Ele, e por isso devemos valorizá-lo e cuidá-lo. Esta é uma das preocupações atuais da Igreja em relação ao meio ambiente, à "nossa casa comum", nas palavras do Papa Francisco. Em nenhum lugar a posse da criação pelo Senhor se manifesta de forma mais grandiosa do que nos sacramentos. Jesus pega os elementos da terra - água, azeite, pão, vinho - e a ação humana - imposição de mãos, união conjugal - e os utiliza para transmitir Sua presença, graça e compaixão. Toda a terra é um terreno sagrado e merece nossa admiração e respeito.

O Senhor crucificado e ressuscitado nos apresenta o Pai e nos oferece o Espírito Santo, que traz vitalidade e empodera. Assim, Ele nos coloca em comunhão com o Deus Triúno - o Deus que é a própria comunhão entre três pessoas, uma unidade com a distinção de três, que são Pai, Filho e Espírito Santo. Essa comunhão divina é a base e o círculo em constante abertura da comunhão da Igreja, que, como afirma a Constituição Dogmática sobre a Igreja do Vaticano II, é "sacramento ou sinal, e também instrumento, da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano".

A Igreja reflete a unidade trinitária na diversidade. Ligada pela fé em um único Deus, trazida a uma nova vida e mantida nela pelos mesmos sacramentos, professando o mesmo credo, a Igreja, no entanto, é enriquecida pela diversidade de seus membros. Mas não se mantém a unidade na diversidade e a diversidade na unidade facilmente, assim como entre e dentro das nações do mundo. Em sua Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia, São João Paulo II insiste em que a Igreja deve ser vista como uma comunidade que é reconciliada e reconciliadora. O chamado a essa missão de reconciliação pelo Santo Padre é, obviamente, mais relevante em uma Igreja onde não há apenas a diversidade inevitável e necessária, mas também a tensão causada por ideologias e práticas pastorais conflitantes, em um mundo onde existe a maravilhosa complementaridade de etnias, línguas e culturas, mas também conflitos devido a desigualdades econômicas, antigas hostilidades e oposição à tirania.

Na mesma exortação, São João Paulo II define o pecado social como "certos comportamentos coletivos de grupos sociais, mais ou menos vastos, ou até mesmo de nações inteiras e blocos de nações", acrescentando que é "o fruto, a acumulação e a concentração de muitos pecados pessoais" (número 16,9). Ele ainda descreve o que considero um poderoso exame de consciência que deve ser realizado pelos cristãos para tentar confrontar a injustiça e implementar o ensino social da Igreja: "Trata-se dos pecados pessoalíssimos de quem gera ou favorece a iniquidade ou a desfruta; de quem, podendo fazer alguma coisa para evitar, ou eliminar, ou pelo menos limitar certos males sociais, deixa de o fazer por preguiça, por medo e temerosa conivência, por cumplicidade disfarçada ou por indiferença; de quem procura escusas na pretensa impossibilidade de mudar o mundo; e, ainda, de quem pretende esquivar-se ao cansaço e ao sacrifício, aduzindo razões especiosas de ordem superior."

É óbvio, a partir das palavras do Santo Padre, que os cristãos não podem ser passivos diante do mal. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja observa que é dever e direito da Igreja "elaborar uma doutrina social própria e com ela exercer influxo sobre a sociedade e as suas estruturas, mediante as responsabilidades e as tarefas que esta doutrina suscita" (nº 69). Note-se que o ensino social da Igreja é um apelo à ação. Alguns podem pensar que a ação na defesa dos direitos humanos, a luta contra a injustiça e a promoção da paz são opostas ou coadjuvantes à missão de evangelização da Igreja. O Sínodo dos Bispos de 1971 esclareceu que esse não é o caso em seu documento final, A Justiça no Mundo, aprovado pelo Beatificado Paulo VI: "A ação pela justiça e a participação na transformação do mundo aparecem-nos claramente como uma dimensão constitutiva da pregação do Evangelho, que o mesmo é dizer, da missão da Igreja, em prol da redenção e da libertação do gênero humano, de todas as situações opressivas." Assim como a libertação de Seu povo da escravidão no Egito integrou a auto revelação de Deus a Moisés, hoje não só os feitos da caridade, mas também a ação para a libertação dos seres humanos da violação de sua dignidade e de seus direitos, da injustiça e da guerra, integra a evangelização atualmente. Proclamar o verdadeiro Deus significa promover ativamente o bem-estar das pessoas em todos os aspectos do seu ser.

Podemos dizer que o surgimento da Solidariedade na Polônia, há 35 anos, foi uma "ação pela justiça" que surgiu de um povo que havia sido evangelizado especificamente na dignidade dos seres humanos, como revelado e estabelecido por Deus no início da história humana? E não podemos dizer também que a Solidariedade foi uma ação de evangelização manifestando ao mundo inteiro o poder do Evangelho em desafiar e superar a injustiça?

Até agora, apresentei alguns, embora não todos, fundamentos da doutrina e da Escritura do ensino social católico. Agora, gostara de sugerir outra fonte desse ensinamento e a ação que dela decorre: a devoção popular. Permita-me apresentar este tema com uma experiência pessoal.

No outono de 1969, eu era padre e fazia o doutorado em teologia em Roma. Decidi visitar meus primos na Polônia no Natal. Foi minha primeira visita ao país e a primeira vez que encontrei meus primos. Fui de Roma a Varsóvia, no dia 23 de dezembro, e de lá iria a Katowice. Por causa do tempo, o voo foi cancelado, mas conheci um casal da Austrália que estava indo para lá também, e contratamos um carro com motorista.

Depois de cerca de três horas andando em meio à quase completa escuridão, o motorista disse que estávamos perto de Czestochowa e que costumava fazer uma breve parada por ali. Concordamos em satisfazer sua vontade. Entramos na capela que abriga a imagem de Nossa Senhora um pouco antes das 21h. Depois descobri que naquela época a imagem ficava exposta aos peregrinos das 6h às 12h e depois às 21h, quando os monges que cuidavam do santuário se reuniam para a Oração da Noite. Ao som da gravação de uma trompeta, ergueu-se o escudo de prata em frente à imagem e conseguimos, pela primeira vez em nossas vidas, ver esse ícone da fé, da história e da unidade polonesa. Foi a imagem que deu esperança a gerações de polacos, incluindo meus avós, que haviam emigrado para os Estados Unidos no início do século XX.

Depois disso, continuamos nossa jornada, e cheguei na casa de um dos meus primos à 1h da manhã. Eles me receberam com muita alegria e queriam começar a planejar a minha estada imediatamente. "Com certeza, vai querer ir a Czestochowa", disse meu primo. Eles ficaram chocados quando eu disse que já havia visitado - e até hoje fico surpreso com o fato de no primeiro dia da minha primeira visita à Polônia ter conseguido admirar a imagem de Nossa Senhora de Czestochowa.

Fui a Czestochowa muitas vezes desde então. Quem são os peregrinos que oram tão ardentemente diante da imagem? Em grande parte, os pobres. E, na verdade, universalmente, não são os pobres que têm a devoção mais profunda à Virgem Maria? É possível que, na sua pobreza, no abandono que vivem pela sociedade e pelos governos, reconheçam que Deus não os abandonou, mas deu-lhes a mais bela das mulheres, a Virgem Maria, a Mãe de seu Filho, que compartilhou como ninguém mais poderia compartilhar o abandono que seu filho viveu na cruz? Não é significativo que Maria tenha aparecido aos pobres, principalmente às crianças, em lugares remotos? A Virgem Maria não é a manifestação mais clara do amor especial de Deus aos pobres? Nas severas privações de suas vidas, eles vivenciam o consolo da companhia da Mãe de Deus, que era, ela própria, pobre. E não é significativo que ela traga a cura aos doentes em muitos dos seus santuários? Ela busca a salvação da pessoa como um todo.

Os pobres, por sua fé e devoção, tornam-se testemunhas aos ricos de que sua salvação também não está em seus bens, mas no mistério de Deus.

O amor preferencial de Deus pelos pobres não exclui os ricos. Os pobres reconhecem que, em última instância, estão nas mãos de Deus. Como o pobre homem , no Antigo Testamento, que, depois de tanto questionar a Deus por seu sofrimento, acaba se entregando ao impenetrável mistério de Deus, eles sabem que a salvação de todo ser humano está nas profundezas do ser de Deus, do amor de Deus, do mistério de Deus, além da compreensão e do cômputo humanos. Os pobres, por sua fé e devoção, tornam-se testemunhas aos ricos de que sua salvação também não está em seus bens, mas no mistério de Deus.

Os bens podem se tornar um obstáculo à fé e ao cuidado aos pobres. Podem se tornar uma parede que impede o grito dos pobres e qualquer ameaça de intrusão aos enclaves confortáveis dos ricos. É por isso que a Igreja é implacável em suas críticas ao consumismo desenfreado que vemos no mundo de hoje. Recentemente, um novo shopping, perto do Marco Zero, em Nova York, tem sido chamado de "catedral do consumo", principalmente por ter muros altos e abertura para o céu, que permite que entre luminosidade abundante. A religião do consumismo invade a terra que tornou-se sagrada pela morte de 3.000 vítimas inocentes do terrorismo.

Há muitos anos, o filósofo Erich Fromm escreveu: "Os teólogos e os filósofos têm dito há um século que Deus está morto, mas devemos nos confrontar agora com a possibilidade de o homem estar morto, ter se transformado em coisa, produtor, consumidor, idólatra de outras coisas" (tradução livre). O ensino social católico é um chamado à consciência, um despertar para os danos de um consumismo desenfreado que prejudica "nossa casa comum", destrói o sentido do bem comum, intensifica a desigualdade e ameaça o bem-estar de trabalhadores vulneráveis em todo o mundo.

O plano de Deus em se revelar a Moisés e através de seu Filho é a salvação integral dos seres humanos. Advém daí o ensino social católico, com temas como a libertação da opressão e da injustiça, a cura de tudo o que reduza o bem-estar humano, a defesa da dignidade humana e dos direitos humanos, a solidariedade, o amor e a opção preferencial pelos pobres, a busca pelo bem comum e o cuidado com a criação. E desse ensinamento também advém a ação que concretiza e torna visíveis as exigências do Evangelho.

Estamos aqui pelo que Deus disse a Moisés: "Eu sou o que sou". O resto, como dizem, é história.

-Monsenhor John Strynkowski

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