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02 Novembro 2016

“De acordo com os mais ricos e poderosos do planeta, a Quarta Revolução Industrial já está em andamento e é fruto da convergência da robótica, nanotecnologia, biotecnologia, tecnologias de informação e comunicação, inteligência artificial e outras”, escreve Silvia Ribeiro, pesquisadora do Grupo ETC, em artigo publicado por La Jornada, 29-10-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

De acordo com os mais ricos e poderosos do planeta, a Quarta Revolução Industrial já está em andamento e é fruto da convergência da robótica, nanotecnologia, biotecnologia, tecnologias de informação e comunicação, inteligência artificial e outras. O Fórum Econômico Mundial, que reúne cada ano em Davos as maiores empresas do mundo, produziu em 2016 um informe no qual afirma que com a “tempestade perfeita” de mudanças tecnológicas junto com o que chamam assepticamente de “fatores socioeconômicos”, em 2020 cinco milhões de empregos serão suprimidos, contando inclusive os novos que serão criados com as mesmas razões.

Se elas falam em uma perda de cinco milhões de empregos, seguramente serão muito mais. E este é apenas um dos impactos desta revolução tecnológica, que não se define por cada uma destas tecnologias isoladamente, mas pela convergência e sinergia entre elas. Nomeiam entre as 10 tecnologias chaves – e mais disruptivas – a engenharia de sistemas metabólicos para produzir substâncias industriais (leia-se biologia sintética para substituir combustíveis, plásticos, fragrâncias, saborizantes, princípios ativos farmacêuticos derivados de conhecimento indígena); a internet das nanocoisas (além de usar a internet para a produção industrial, agrícola, etc., também nanossensores inseridos em seres vivos, inclusive em nossos corpos, para captar e receber estímulos e a administração de drogas e farmacêuticos); ecossistemas abertos de inteligência artificial (integrar máquinas com inteligência artificial à internet das coisas, às redes sociais e à programação aberta, com potencial de mudar radicalmente a nossa relação com as máquinas e elas entre si) e várias outras, como novos materiais para o armazenamento de energia, nanomateriais “bidimensionais”, veículos autônomos e não tripulados (drones de todo tipo com maior autonomia), optogenética (células vivas manipuladas geneticamente que respondem a ondas de luz), produção de órgãos humanos em chips eletrônicos.

Em 2000, o Grupo ETC chamou esta convergência de BANG (Bits, Átomos, Neurociências, Genes), uma espécie de Bing Bang tecno-socioeconômico, melhor chamado de “Little Bang”, porque as tecnologias em nanoescala (aplicadas a seres vivos e materiais) são a plataforma de desenvolvimento de todas as outras. Vislumbramos na época que este “Little Bang” estava formando um tsunami tecnológico que teria impactos negativos de grandes dimensões no meio ambiente, na saúde, no trabalho, na produção de novas armas para guerra, vigilância e controle social de todas e todos, entre outras. Tudo isso no contexto da maior concentração corporativa da era industrial, oligopólios com cada vez menos empresas que controlam imensos setores de produção e tecnologias.

Assim está acontecendo, mas para cada um de nós, separadamente, é difícil percebê-lo na totalidade e nas dimensões de seus impactos que se complementam. Os governos, governados principalmente por interesses corporativos e com o mito de que os avanços tecnológicos trazem benefícios por si mesmo, permitiram que quase todas estas tecnologias prosseguissem, fossem usadas, vendidas, se disseminem no ambiente e em nossos corpos, sem as mínimas avaliações de seus possíveis impactos negativos e sem regulações, muito menos a aplicação do princípio da precaução. Um exemplo claro é a indústria nanotecnológica, que com mais de 2000 linhas de produtos nos mercados, muitos presentes em nossa vida cotidiana (alimentos, cosméticos, produtos de higiene, farmacêuticos), não é regulada em nenhum lugar do mundo, apesar do aumento dos estudos científicos que mostram toxicidade em ambiente e saúde, especialmente para os trabalhadores expostos na produção e no uso de materiais com nanopartículas.

Mas, o Fórum de Davos elabora anualmente um amplo informe sobre riscos globais, porque esses riscos afetam seus capitais e investimentos. Na edição de 2015, afirmam que “o estabelecimento de novas capacidades fundamentais que está ocorrendo, por exemplo, com a biologia sintética e a inteligência artificial, está particularmente associado a riscos que não podem ser avaliados completamente em laboratório. Uma vez que o gênio tiver saído da garrafa, existe a possibilidade de que se façam aplicações indesejadas ou se produzam efeitos que não podiam ser previstos no momento da sua invenção. Alguns desses riscos podem ser existenciais, ou seja, podem colocar em risco o futuro da vida humana”. A confissão de partes, relevo de provas. Mas, embora o reconheçam, não tomarão nenhuma medida que limite seus ganhos.

Neste contexto, nos últimos anos, nós estamos trabalhando junto com outras organizações, movimentos sociais e associações de cientistas críticos, na construção de uma rede de avaliação social e ação sobre tecnologias (Rede TECLA), para buscar, por um lado, informar-nos e compreender o horizonte tecnológico, suas conexões, impactos e implicações a partir de muitas perspectivas (ambiente, saúde, ciência, gênero, trabalho, consumo) e fortalecer-nos para atuar sobre elas.

Para avançar nestas ideias e no questionamento da tecnociência a serviço do lucro, com experiências concretas de vários países latino-americanos, realizar-se-á o Seminário Internacional Ciência, Tecnologia e Poder: Perspectivas Críticas, no dia 8 de novembro, na Hemeroteca Nacional, Cidade Universitária, México, convocado pela Rede TECLA, pela União de Cientistas Comprometidos com a Sociedade e pelo Grupo ETC. Temos que nos apropriar, a partir de baixo, da consideração e ação sobre estes temas.

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