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22 Setembro 2016

Muitas vezes, torna-se necessário suspender as evidências, sacudir as bases e penetrar as superfícies. Com qual objetivo? Para recordar que, embora a ciência represente a abordagem hegemônica para concretizar o formidável ato que implica “conhecer”, existem outros espaços não institucionalizados nos quais – também – se constroem saberes de enorme valor e qualidade. Ainda que a abordagem científica possa ser considerada como um caminho utilíssimo para interpretar a realidade social (inclusive com todas as suas normas, métodos e mecanismos de autovalidação), afortunadamente não é a única. Esta premissa, além de saudável, habilita a crítica interna, aquele exercício reflexivo que promove as autênticas transformações. Porque se as sociedades se modificam, como não se modificará a ciência, considerada como um resultado belíssimo da cultura? Para cumprir com esta meta, o retorno às “grandes interrogações” (sobre as origens da vida e da morte, por exemplo) é fundamental, pois gera um exercício relacionado com o trabalho filosófico.

Ninguém melhor que Guillermo Folguera para propor respostas, mas, além disso, para formular perguntas à ciência. É licenciado em filosofia, doutor em biologia (UBA) e pesquisador adjunto do CONICET (Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas). Além disso, é professor e faz parte do Grupo de Reflexão Rural. Aqui, explica de que maneira o campo da filosofia da biologia se apresenta como uma das tantas saídas para questionar o modo como se produz, circula e se acede ao conhecimento na Argentina.

A entrevista é de Pablo Esteban, publicada por Página/12, 21-09-2016. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Você é biólogo e filósofo. Não é algo muito comum. Conte-me a respeito.

Comecei com biologia como carreira central e na metade do caminho iniciei filosofia em paralelo. Talvez, como uma maneira de descomprimir aqueles enigmas para os quais a biologia não me concedia respostas. No entanto, enquanto estudava, jamais pensei em realizar um aporte concreto ao campo da filosofia da biologia. Foi tudo muito paulatino, minha trajetória sempre foi um assunto vinculado mais com acasos do que com causas.

O que a biologia e a filosofia possuem em comum?

Nunca tinham me perguntado, já que em geral se interroga pelas diferenças. As ciências naturais e as humanidades são áreas diferentes, mas possuem em comum a academia. Refiro-me às distâncias que são tecidas entre um profissional e o restante da sociedade, às formas de convalidar internamente um saber determinado a partir de papers e artigos de revistas, e todo tipo de circunstâncias institucionais já conhecidas.

E para além da academia? Porque caso se compare só a partir desse critério, daria o mesmo se você fosse filósofo, físico quântico ou veterinário.

A priori, não encontro semelhanças muito marcantes. Por exemplo, uma das coisas da biologia que me chamou atenção é que pode existir maior ou menor acordo em determinadas teorias, mas, exceto em épocas de revoluções, não se colocam em questão os paradigmas vigentes. Isso, em filosofia, é muito diferente. A comunidade filosófica possui vertentes que convivem e lutam pelo sentido dominante. Em síntese, encontro mais diferenças que semelhanças entre as duas áreas.

Os pesquisadores tendem a enaltecer o campo de estudo ao qual pertencem como se fosse o único que existisse, às vezes, em detrimento de outras áreas científicas. Penso que isto contribui para a segmentação e departamentalização da ciência. O que você pensa?

Sim, é claro. Concordo. Por isso, um campo como o da filosofia da biologia contribui para quebrar este esquematismo. É uma área de interesse composta por pessoas que provêm da biologia e da filosofia, e que registra contribuições que não se identificam com nenhuma área em especial. A ideia de comunicar a ciência a partir do encontro e de uma linguagem comum que expressa objetivos compartilhados e complexos.

Em que momento emerge a filosofia da biologia?

É um campo que emergiu entre os anos 1960 e 1970. Caso se trace uma análise historiográfica, é possível reconhecer uma primeira etapa vinculada a um programa reducionista da biologia às teorias da química e da física. Esse projeto, nos anos 1980, é criticado por intelectuais que concebem uma tese autonomista da disciplina. Nos anos 1990, ocorre uma multiplicação da filosofia da biologia, ou seja, a biologia reconhece sua autonomia e explora novas áreas como a neurociência, a biologia celular, a ecologia, a fisiologia, etc. Por último, na atualidade, enfrentamos um processo muito saudável em que a filosofia da biologia se coloca em diálogo com problemáticas sociais e ambientais. São realizadas aproximações muito importantes com a ética, a política e a economia. É aí que a ciência se ocupa dos conflitos que as pessoas de carne e osso experimentam, e se corre um pouco do centro o interesse pelas análises meramente teóricas.

Neste sentido, quais tipos de contribuições a biologia realiza para melhorar a vida das pessoas?

Por exemplo, em minha equipe de pesquisa se desenvolve uma linha que pretende estudar as políticas de conservação em relação às áreas desprotegidas, bem como o modo como são utilizadas as teorias biológicas para justificar o fornecimento de psicofármacos em crianças que apresentam síndrome de falta de atenção.

Que postura um filósofo da ciência defenderia a respeito deste último ponto?

A aproximação que propomos, a partir de nosso grupo, está associada a examinar se as teorias que são utilizadas para legitimar tais práticas possuem avais científicos. Isto em relação à consideração dos problemas éticos e políticos que acarretam. Não acreditamos que as objeções da sociedade sejam menores, mas também não queremos cair na figura do cientista como “porta-voz das necessidades sociais”. Neste sentido, é necessário expor as discussões que são produzidas no seio da própria academia.

Se o científico não é um porta-voz das necessidades sociais, que lugar deve ocupar?

Na Argentina, ainda se reproduz esse discurso que coloca o cientista como um indivíduo alheio à sociedade, que desenvolve uma forte tendência corporativa, que manipula uma linguagem críptica e que utiliza legitimações de sua própria prática que são transcendentes a seus próprios mecanismos sociais. Ou seja, se costuma acorrer a elementos que reivindicam o próprio discurso cientifico que não são incorporados pela mesma sociedade. Em muitos casos, a ciência não responde às necessidades e demandas sociais. Isto contribui para pensar como o campo científico se tornou uma maneira formidável de fazer negócios, em muitos casos, à custa da saúde e do bem-estar coletivo.

O corporativismo anula a reflexão e a crítica interna...

Exato. Este modo de nos mover não permite reconhecer erros internos, nem tampouco aceitar críticas externas. O ponto de partida, daqui, não deve ser o trabalho do próprio cientista, mas as problemáticas sociais e ambientais que ocorrem diariamente. Por exemplo, 15% dos garotos são diagnosticados com falta de atenção e, em geral, de modo direto, se lhes fornece drogas que diminuem suas ansiedades. A partir de nossa aproximação, a solução médica mediante a receita de drogas nunca pode ser um ponto de partida, nem a primeira solução. Por isso, é necessário refletir sobre os próprios problemas, observar – neste caso – se a falta de atenção pode ser definida como um inconveniente.

No que diz respeito a esta perspectiva que concebe sobre a tarefa científica, o que você pensa acerca dos processos de edificação do conhecimento? Se tivesse que definir o modo como se constrói os saberes que circulam no espaço público, o que diria?

Quando se apresenta a interrogação sobre o que é o saber científico, se coloca o acento em muitas questões que localizam a ciência como a única forma de aceder ao mundo. Uma forma de abordagem racional-empírica que respeita uma lógica de hipotética objetividade. Isto a partir de qualquer ponto de vista é questionável, pois, de que maneira os sujeitos sociais podem se desprender das valorizações sociais de sua época para aceder a valores extrassociais e transcendentes? Desde aqui, os acontecimentos que foram desencadeados durante a segunda metade do século XX podem funcionar como uma dobradiça. Refiro-me ao surgimento de um tipo de ciência que já não tem os cânones de Galileu Galilei, Newton e Darwin, e que apresenta um vínculo muito estreito – cada vez mais – com o empresarial, que ressignifica o próprio devir científico. Planejamentos de caráter global como o Projeto Manhattan, a Revolução verde, a corrida espacial, o monstruoso Projeto Genoma Humano, cujas conquistas científicas ainda não ficaram muito claros. Uma ciência associada ao mercado, motivada pelos fluxos de capital com caráter global e vinculada ao tecnológico.

Entendo e compartilho muitos de seus argumentos. Neste marco, como deveria funcionar o sistema científico para superar estes inconvenientes?

Em princípio, desenvolver uma forma de relacionar ciência, tecnologia, sociedade e ambiente que gestem como ponto de partida as práticas e as necessidades sociais. Depois, seria importante acabar com as estratégias monistas que sustentam que o saber é de um só tipo, tanto em termos teóricos e metodológicos, como experienciais. Ou seja, se toma a física como a grande disciplina e se pensa no restante como meras emulações ou reflexos. Se deveria fortalecer a presença das humanidades. Sem ir muito longe, é inútil abordar os problemas ambientais sem a presença de sociólogos ou filósofos, ainda que durante muito tempo tais tipos de problemáticas só foram abordadas a partir das ciências naturais. Devemos pensar e sustentar, basicamente, que não há um modo único de fazer ciência, mas que existe, por sorte, uma multiplicidade de formas.

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