“Com os coletes amarelos, o Facebook dispõe de uma ótima base de dados de opinião”. Entrevista com Olivier Ertzscheid

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16 Dezembro 2018

Manifestações na Avenida Champs-Elysées, ocupação de rotatórias, praças de pedágio... Os coletes amarelos manifestaram-se em muitos locais. Mas o local de onde o movimento partiu e onde se organizou é a rede social Facebook. Tanto no Facebook Live (vídeo ao vivo), os grupos Facebook com alguns milhões de membros, como nos eventos do Facebook para marcar uma reunião, a plataforma serviu como uma ferramenta de mobilização.

A entrevista é de Justin Delépine, publicada por Alternatives Économiques, 13-12-2018. A tradução é de André Langer.

Mas esta última é acima de tudo uma empresa comercial, dotada de um gigantesco banco de dados. Olivier Ertzscheid, professor e pesquisador em ciências da informação na Universidade de Nantes, explica o papel desempenhado pela rede social nesse movimento, os dados que ela conseguiu coletar e o risco de um possível uso desta informação com o propósito de manipular uma eleição. O acadêmico acredita que nada impede que um escândalo semelhante ao da Cambridge Analytica se reproduza em uma futura eleição.

Eis a entrevista.

Como aconteceu que o Facebook se tornou um dos primeiros canais de divulgação e organização do movimento dos coletes amarelos?

O canal pelo qual passa uma informação sempre tem um impacto na própria mensagem. Então, se esse movimento existiu dessa forma, é em parte graças ao Facebook. Isso não significa que o movimento não teria prosperado sem o Facebook, mas ele permitiu que se organizasse e se mantivesse. Um certo número de elementos foi propício para o surgimento dessa mobilização.

Primeiramente, as categorias sociais populares e intermediárias, que de acordo com os primeiros estudos compõem a maioria do movimento dos coletes amarelos, têm a impressão, certa ou errada, de não estarem presentes no espaço das mídias tradicionais. Mas são precisamente essas categorias que usam mais o Facebook. Há vários anos, essa rede social constitui um espaço de expressão pública e política.

Em segundo lugar, um dos elementos da lógica das redes sociais é a horizontalidade. O que aparecerá mais no feed de notícias do Facebook, são os conteúdos provenientes do primeiro ou segundo círculo; ou seja, os conteúdos que provêm de perfis próximos ao internauta. Soma-se a isso a lógica algorítmica que identifica os conteúdos de caráter viral, como aqueles relacionados à injustiça ou à raiva. Estes são os que suscitam mais interações. Seguindo essa lógica, o Facebook irá disseminar mais ainda esses conteúdos, porque eles serão mais compartilhados, comentados ou “curtidos”.

Isso produz um efeito de suavização e de força motriz. Estes conteúdos virais são muito mais difundidos que os demais. Eles são oferecidos aos usuários aos quais não foram enviados e também são oferecidos novamente a outras pessoas que os esqueceram. De acordo com esse processo, os conteúdos dos coletes amarelos, como os vídeos, se espalharam com força e rapidez para as categorias sociais populares e intermediárias.

A mudança de algoritmo do Facebook no começo de 2018 ampliou essa lógica?

A ideia da mudança de algoritmo do Facebook foi dar menos importância aos conteúdos originários das páginas [as páginas Facebook são os perfis públicos de empresas, marcas, celebridades ou organizações. N. da R.], como as mídias, e mais às informações provindas do primeiro e do segundo círculos de amigos do internauta, assim como aos conteúdos dos grupos aos quais ele pertence. Estes grupos também desempenharam um papel importante na mobilização dos coletes amarelos.

Se o Facebook obviamente não acionou o movimento, todas as caixas foram marcadas para o surgimento e a disseminação de uma mobilização desse tipo.

O que esse movimento tem de inovador em relação ao que podemos encontrar no Facebook?

A novidade é que estamos diante de uma ação política coordenada com um verdadeiro espaço de reivindicação. Nesse contexto, não são mais os cidadãos que dão suas opiniões individualmente sobre um tema, mas fazem isso em um movimento coordenado. Esta coordenação e adesão faz com que não se trate mais de uma troca social, mas política.

Depois desse movimento, o Facebook terá um rico banco de dados em matéria de opinião?

O Facebook já é um ótimo banco de dados de opinião, mas agora ele terá informações ainda melhores e de melhor qualidade. Antes do movimento dos coletes amarelos, o Facebook conhecia o partido que tinha os favores desse ou daquele internauta. Ele também podia saber se era mais pró ou antimigrantes...

O Facebook conhece agora a opinião dos internautas sobre as reivindicações dos coletes amarelos; sobre o aumento do Smic no referendo de iniciativa cidadã. A rede social sabe se as pessoas envolvidas estão prontas para votar ou se mobilizar por essas ideias.

Em que se baseia para ter essas informações?

A rede social analisa as páginas, o estado, os vídeos, mas também o que é “curtido”, compartilhado ou comentado, de que maneira e quando. Ele também examina o conteúdo das mensagens no Messenger [plataforma de bate-papo do Facebook, onde as mensagens são privadas. N. da R.]. Uma pessoa pode não manifestar todas as suas opiniões explicitamente em seu perfil público, mas terá maior probabilidade de fazê-lo no Messenger, conversando com seus amigos.

Combinando todas essas informações, o Facebook constrói uma importante tipologia dos perfis sociológicos. Essa rede social tem, sobre uma série de assuntos, um controle muito mais refinado da opinião do que qualquer partido político, sindicato ou instituto de pesquisa. É fascinante tecnicamente, mas perturbador no plano democrático.

Como esses dados podem ser usados?

A partir deles, o Facebook propõe a um anunciante atingir um público específico em um momento escolhido. Ao anunciante, na sequência, de definir sua mensagem de acordo com o objetivo perseguido. Nada impede a um partido político, através de um terceiro, veicular mensagens usando esses dados. Ou outra organização que queira manipular uma eleição.

Estamos, portanto, numa situação equivalente àquela da Cambridge Analytica [essa empresa de comunicação estratégica usou os dados pessoais de dezenas de milhões de pessoas no Facebook para influenciar as eleições americanas de 2016. N. da R.]. Estão dadas todas as condições para que esses dados, coletados durante o movimento dos coletes amarelos, sejam usados para, eventualmente, manipular ou influenciar uma eleição europeia ou nacional.

A única garantia que temos é a palavra do Facebook, que indica garantir para que isso não aconteça novamente. Ao contrário da Cambridge Analytica, desta vez o Facebook coletou esses dados de maneira legal, ou seja, com o consentimento dos internautas dado ao assinar os termos e as condições gerais de uso. Isso é suficiente? Se hoje nada indica que uma tal manipulação da eleição possa ocorrer, nada a exclui.

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