Apesar dos movimentos de acolhida, católicos LGBTQs ainda estão à margem

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05 Outubro 2019

"Este papa com certeza estendeu uma mão acolhedora à comunidade LGBTQ, mais do que qualquer outro antes", afirma editorial de National Catholic Reporter, 02-10-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo o editorial, "com certeza estamos esperançosos com a série de avanços que neste papado se misturaram com os ensinamentos e as atitudes que levaram católicos LGBTQs a ficar à margem".

E conclui: "Ficaremos felizes com estes avanços, mas com o entendimento sóbrio de que, enquanto católicos LGBTQs estiverem às margens e enquanto os papas puderem mudar ao mesmo tempo em que o magistério católico sobre a sexualidade, em tantas áreas, permanece inalterado, haverá muito trabalho ser feito".

Eis o editorial.

Os papas, mesmo os do tipo surpreendente como Francisco, não encontram um espaço de meia hora em uma programação apertada, não anunciam um encontro privado em um ambiente formal com um padre americano que vem sendo a causa da apoplexia eclesial em alguns setores, a menos que a intenção seja enviar uma mensagem bastante clara.

E pelo menos uma mensagem inconfundível, enviada em 30 de setembro, na audiência do Papa Francisco com o o padre jesuíta James Martin, foi: “Está tudo OK com o padre, então parem de incomodá-lo”. Uma mensagem sem ambiguidade que visa claramente alguns bispos americanos e outros da direita que haviam se pronunciado contra Martin, contra o seu livro “Building a Bridge: How the Catholic Church and the LGBT Community Can Enter Into a Relationship of Respect, Compassion, and Sensitivity” [Construindo uma ponte: como a Igreja Católica e a comunidade LGBT podem entrar em uma relação de respeito, compaixão e sensibilidade] e contra as palestras que ele vem dando desde a publicação da obra em 2017.

Por mais marcante que sejam o encontro e a mensagem – quem imaginaria algo assim dez anos atrás? –, na esteira restam tantas perguntas quanto respostas.

Martin virou alvo dos que acham que a homossexualidade deve ser condenada, que a Igreja deve traçar limites severos em torno de questões como a sexualidade, que os gays devem ser mantidos longe dos seminários, que os cônjuges em casamentos homoafetivos estão automaticamente impossibilitados de assumir postos de serviço na Igreja e inclusive que os homossexuais possam ser mudados. O padre jesuíta chegou a ser desconvidado de compromissos sociais e esteve sujeito a grosserias on-line indizíveis.

Mais recentemente foi lembrado pelo arcebispo da Filadélfia, Dom Charles Chaput, quem, em uma prosa graciosa, ao mesmo tempo dura, declarou: “Devido à convulsão causada por suas declarações e atividades concernentes a questões (LGBTs) homoafetivas, acho necessário enfatizar que o Pe. Martin não fala com autoridade em nome da Igreja, e para advertir os fiéis de algumas de suas afirmações”. Chaput recebeu o apoio público de outros bispos, claramente identificados como guerreiros culturais.

Se ele não fala com a autoridade da Igreja, Martin certamente, desde 30 de setembro, fala com a aprovação do papa. Mais que isso: é justo esperar exatidão em um setor que, por muito tempo, esteve marcado por profundas contendas que podem virar motivo de ódio?

Claramente a audiência do papa e o padre foi um encontro amigo. Martin não foi castigado. Ele tuitou que foi “um dos destaques da minha vida. Me senti encorajado, consolado e inspirado pelo Santo Padre (...) E o seu tempo comigo, no meio de um dia ocupado e de uma vida ocupada, parece um sinal claro de seu profundo cuidado pastoral com os católicos LGBTs e pessoas LGBTs em nível mundial”.

Eis uma afirmação indiscutível.

E ela com certeza é apoiada por outros, em particular pelo New Ways Ministry, que há tempos defende e trabalha junto a católicos LGBTQs na Igreja. Uma nota publicada pelo grupo descreve o evento como “um dia de celebração aos católicos LGBTQs que anseiam uma mão acolhedora por parte da Igreja que tanto amam”.

Certamente, o estender de mãos feito por Francisco é muito mais acolhedor do que o juízo do “intrinsecamente desordenados” (sim, sabemos que estavam se referindo apenas à orientação) que os gays e as lésbicas antes tinha de ouvir. Mas o quanto da experiência LGBTQ é bem-vinda? Martin tem tido cautela ao dizer que permanece dentro dos limites do ensino católico. Mas os membros da comunidade LGBTQ que também são católicos obedecem igualmente tais proscrições?

O colunista do National Catholic Reporter Jamie Manson, que escreve sobre as lutas que uma mulher abertamente lésbica enfrenta ao tentar permanecer na Igreja, foi claro no passado ao apontar para as incoerências de Francisco na forma como lida com as pessoas gays, lésbicas e transexuais.

Embora tenha se encontrado com Martin e aparentemente restaurado o ministério a um outro padre que havia sido impedido de ministrar por discordar do magistério católico sobre o casamento homoafetivo, o papa também mostrou preocupação pública quanto aos homossexuais no sacerdócio e assinou um documento do Vaticano que afirmava que a Igreja “não pode admitir no seminário e nem nas ordens sagradas os que praticam a homossexualidade, apresentem tendências homossexuais profundamente enraizadas ou apoiem o que se conhece como cultura gay”.

Na conta oficial no Twitter da Companhia de Jesus, os jesuítas, comentando o encontro Francisco com Martin, disseram: “Sem política. Sem estratégias. Sem pautas sigilosas. Apenas dois irmãos no Senhor e um diálogo honesto sobre como melhor trabalhar com os que se sentem como se estivessem às margens. Eis o Evangelho em ação em nossa Igreja hoje”.

Um sentimento adorável. Mas eles precisam saber – como o papa certamente sabia – que a política no encontro era inerente. Se houve uma estratégia, ela foi discutida durante a conversa, cujos conteúdos não foram revelados.

E o que isso tudo quer dizer em termos de aceitação de católicos LGBTQs e seus familiares – até que ponto são aceitos – irá provavelmente se revelar com o passar do tempo.

Não queremos estragar este bom momento, mas nos sentimos obrigados a dizer: por maior que seja, é apenas um momento. Este papa com certeza estendeu uma mão acolhedora à comunidade LGBTQ, mais do que qualquer outro antes. Com certeza estamos esperançosos com a série de avanços que neste papado se misturaram com os ensinamentos e as atitudes que levaram católicos LGBTQs a ficar à margem.

Ficaremos felizes com estes avanços, mas com o entendimento sóbrio de que, enquanto católicos LGBTQs estiverem às margens e enquanto os papas puderem mudar ao mesmo tempo em que o magistério católico sobre a sexualidade, em tantas áreas, permanece inalterado, haverá muito trabalho ser feito.

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