'O pior está por chegar'. Tudo que se esconde por trás dos incêndios na Amazônia

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29 Agosto 2019

A rede se mobilizou para visibilizar o que está ocorrendo no pulmão do planeta há dias. Porém, o pior das chamas está sob elas, e afeta o planeta inteiro.

A reportagem é de Guillermo Cid, publicado por El Confidencial, e reproduzida por CPAL Social, 25-08-2019 . A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Até ontem, se alguém entrava na página de algum grande jornal brasileiro como “O Globo” ou “Folha de São Paulo”, seguramente estaria surpreso. Enquanto as redes sociais e os meios de comunicação do mundo abrem suas edições – e lhe dão uma importância chave – com os incêndios que arrasam a Amazônia, esses meios brasileiros tratavam como uma notícia a mais. Entre as principais, sim, porém não a mais importante do dia. Pese que até agora em 2019 se declararam mais de 70 mil incêndios e que há fogos que arrasam há duas semanas o lugar, todos o tratam como um assunto quase rotineiro... O que ocorre na realidade?

O certo é que o assunto é muito mais complexo que uma simples catástrofe pontual como um terremoto ou o incêndio de Notre-Dame. Há vários países afetados e, ainda que é certo que nos últimos dias o problema vive um aumento (com o estranho caso de São Paulo e a nuvem que cobriu toda a megalópole como se a noite tivesse chegado de repente), é um assunto que vem de antes, de muito antes, se repete ano a ano e o acontecido nesses dias somente é uma gota a mais no copo. Isso sim, pode ser uma gota fatal. A Amazônia é um dos espaços mais importantes para o planeta e um ponto chave na luta contra a mudança climática, e sua destruição vai muito além do fogo.

O que ocorre nesses momentos na Amazônia não é um incêndio ao estilo dos que acostumamos ver na Espanha, mas sim que se trata de milhares de pequenos fogos que parecem ser chamados “queimadas” e que estão provocados por agricultores e fazendeiros para, ou limpar a zona em que vivem de vegetação ou gerar novos espaços para o cultivo, acabando com a flora autóctone que lhes impossibilita a exploração. Estes se dividem por toda a zona e se descontrolam, parecem arder enquanto a vegetação permitir. Saem do Brasil, mas também do Paraguai, Bolívia, e um pouco menos, no Peru.

Então, por que este ano o alarme é muito maior? Basicamente porque o número de incêndios em todo 2019 se multiplicou em relação aos anos anteriores e em agosto (mês típico de queimadas na região) os registros se dispararam. Ademais, o aumento coincide com uma mudança no governo brasileiro que levou Jair Bolsonaro ao poder com um discurso claramente contrário à proteção ambiental e a favor dos agricultores que tentam utilizar o local.

Em concreto, segundo o relatório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a instituição encarregada de medir esses fogos, até agora em 2019, o Brasil sofreu 72.843 incêndios e a maioria deles foi na Amazônia. A diferença com 2018 é de 40% mais, e somente desde quarta-feira passada já se registraram 9.500 novos fogos em toda a região. É ali onde encontramos o aumento que levou a instituições e associações a dar voz de alarme.

O grande problema é o desmatamento

Os dados são muito claros, é preciso só dar uma olhada em satélites como o da NASA para ver que os incêndios não cessam na região, mas o pior está sob as chamas. Conforme explica o professor de pesquisa do CSIC e membro da Fundação Gadea Ciência, Fernando Valladares, o desmatamento é o grande problema que pode acabar com a icônica floresta. "Os dados mostram que este ano não há uma seca particularmente importante, inclusive é ainda menor que nos últimos anos, e isso se relaciona muito mais às chamadas 'queimadas' que com o desmatamento sofrido por toda a região há décadas", explica o cientista.

Diante do que se pode pensar, o aumento de incêndios não tem a ver tanto com o clima seco como a multiplicação das áreas que foram incendiadas, o que, além disso, encontra pastos muito mais inflamável devido à sua fraqueza e composição e áreas menos úmidas que ajudam a sua propagação. “A 'queimada' é uma técnica que se repete em todas as áreas tropicais para ganhar terreno na floresta. Acontece muito no Brasil, mas também no Sudeste Asiático. É verdade que é algo tradicional e conhecido, mas o problema chega depois, quando o fogo queimou toda a terra e nem mesmo a safra que você quer colocar na área, aproveita a terra acabando com o desmatamento do espaço. É um vandalismo e acaba com tudo em seu caminho, precisando de muitos anos para conseguir uma recuperação real”.

Aqui está um fato muito preocupante que mostra que as chamas são terríveis, mas o pior vem quando elas saem. Em julho de 2019, os satélites do INPE lançaram um alerta porque durante o ano registraram 2.254 quilômetros desmatados (uma área um pouco maior que toda a ilha de Tenerife). Isso significa 278% mais terras desmatadas em comparação ao mesmo período do ano anterior.

Como Valladares ressalta, teremos que esperar para ver como terminará essa onda de incêndios que assola a região, mas há poucas informações mais promissoras, já que nos últimos 30 anos a Amazônia já perdeu o poder de capturar metade das toneladas de CO2 que armazenava anteriormente. "É uma barbaridade e dá uma amostra de quão pouco estamos cuidando de uma parte fundamental do nosso planeta. O pior parece que está proo chegar e é por causa de políticos como Bolsonaro, que não só não querem mudar de rumo, mas não acreditam que algo precise ser mudado”.

O que significa a Amazônia para o planeta?

A crítica de Valladares é em escala mundial, porque a Amazônia não é apenas essencial para o Brasil e os países vizinhos, mas é um ponto chave do nosso ecossistema planetário. Alguns dados que mostram sua importância: a Amazônia armazena um quinto do CO2 gerado mundialmente, gera um quinto do oxigênio em todo o planeta e seu rio, um dos mais importantes do mundo, derrama um quinto da água doce na Terra. "É um espaço-chave, e a pior parte é que não temos outro elemento semelhante que possa substituí-lo", explica o especialista.

Ainda é muito cedo para saber a extensão final desses incêndios e seu impacto sobre a floresta em si, mas Valladares é bastante pessimista sobre o que podemos encontrar quando as chamas passarem. “Esses ecossistemas precisam de décadas para se recuperar de algo assim. O fogo termina com sua vegetação, mas também com tudo há sob ela e convive com ela. Para recuperar o que está queimando hoje, teríamos que cuidar da área durante 15 ou 20 anos, pois devem se recuperar as árvores, organismos florestais, a fertilidade do solo deve ser recuperada...”.

O impacto na Terra já é dado pelos dados, mas Valladares lembra que não só afetaria a poluição, mas que o desaparecimento dessa floresta teria um impacto muito importante sobre os mares e, afinal, em todo o sistema. “Não percebemos o quanto é importante para todos. Estou muito surpreso que enquanto em abril todos nós choramos um minuto por Notre-Dame, agora esta catástrofe passa despercebida. Sem a Amazônia, ninguém poderia ver a igreja francesa”.

Como pinta o futuro?

Em relação ao futuro recente, o cientista analisa a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, um programa-chave para tentar conter a mudança climática. “Estávamos contando com a Amazônia para continuar atuando no nível que vinha fazendo nas últimas décadas. Vendo esses incêndios, tudo indica que perderá uma parte muito importante de sua capacidade de armazenar CO2 e gerar oxigênio”.

Por fim, compare o futuro dessas áreas com um ativo pessoal que você deve deixar parado. “Imagine que, depois dos incêndios, a Amazônia precise de 15 ou 20 anos de recuperação. Nesse tempo, não podemos contar com sua contribuição para conter as mudanças climáticas, a grande contribuição da Amazônia teria que ser distribuída por todo o planeta, porque será muito mais complicado cumprir os objetivos de emissão e descarbonização estabelecidos para os próximos anos”, conclui o especialista.

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