''Sou mulher e ensino o Islã aos homens.'' Entrevista com Hafida Ait Taleb

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30 Março 2019

A pregadora que forma os imãs no Marrocos fala sobre o #MeToo e sobre o decisivo Documento sobre a Fraternidade assinado em Abu Dhabi. Casada e com três filhos adolescentes, um diploma em Letras Modernas, Hafida Ait Taleb é uma das poucas pregadoras islâmicas que, no Marrocos, alcançou o grau de Murshidat e podem pregar na mesquita, além de formar os imãs.

Ela defende com todas as forças o movimento #MeToo, a liberdade de culto, a democracia e repete que se comete um grande erro quando no Ocidente o Islã é relacionado com o terrorismo, como se fosse um automatismo.

Neste sábado à tarde, ela estará presente no Instituto Mohamed VI dos Imãs em Rabat, uma etapa fundamental da visita do Papa Francisco ao Marrocos. Até agora, nenhum pontífice jamais havia pisado em uma escola corânica.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada em Il Messaggero, 29-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Quantas mulheres têm esse papel no Marrocos?

A ampliação das mulheres no campo da pregação é fruto da reforma iniciada no ano 2000 pelo rei Mohammed VI. Desde então até hoje, o Instituto Mohammed VI para a formação dos imãs e dos guias espirituais (mulheres e homens) formou cerca de 1.000 mulheres.

Que estudos precisam ser feitos para se tornar Murshidat?

O percurso é igual para homens e mulheres. Não há diferença alguma. Os candidatos devem ser cidadãos marroquinos, gozar dos direitos civis, ter diploma em qualquer especialização e já conhecer pelo menos a metade do Alcorão e não ter mais de 45 anos de idade. A formação dura um ano. O programa de estudo inclui aulas teóricas, conferências, seminários e cursos de aplicação em ciências islâmicas, língua árabe, línguas estrangeiras, psicologia social, informática e mídia. No fim, há um exame e, depois, a nomeação onde há necessidade, em áreas específicas do país, sob a supervisão do Conselho Científico. Um grande número de imãs estrangeiros também são formados no Instituto Mohammed VI.

É fácil conciliar a vida familiar com a de pregadora?

Eu amo o meu trabalho. Eu acho que, quando os membros da família concordam sobre alguma coisa, tudo pode ter sucesso. Entre o meu marido e mim, há muita compreensão e cooperação. Os meus filhos, um homem e duas mulheres, estudam. O mais velho está na universidade, faz engenharia. A mais nova, que tem 15 anos, está no Ensino Médio. Enfim, é a vida de muitas famílias. Eles têm suas aspirações, seus sonhos. Eu e o meu marido lhes ensinamos a serem respeitosos e úteis para com eles mesmos e com os outros, confiando nos valores e nos princípios do nosso país.

Como você avalia o movimento #Metoo?

Ele nasceu contra o assédio e todas as formas de violência sexual. Espero que também possa encontrar concretude nas leis e nos textos legislativos para proteger a dignidade das mulheres. Quanto à luta das mulheres pelos seus direitos, não estou exagerando quando digo que a estrada é longa e dura. A mulher sofreu injustiças e marginalização no mundo por causa de tradições obsoletas e ignorância, mas eu digo que a religião não tem nada a ver com isso.

No Alcorão, a mulher está em uma posição subordinada ao homem...

De fato, os verdadeiros ensinamentos da nossa religião confirmam o dever de salvaguardar a honra e a dignidade das mulheres como esposas, filhas, mães, trabalhadoras ou donas de casa, garantindo-lhes os seus direitos e com a responsabilidade de desempenhar os seus deveres. Eu saúdo todas as mulheres que lutaram para obter o legítimo direito à educação, ao conhecimento e à ciência, pelo trabalho, pelo direito ao voto e à participação em todos os aspectos da vida, alcançando posições de alto nível, até mesmo de ir para o espaço.

No Marrocos, como vai a questão feminina, dado que existem apenas 81 mulheres entre 395 membros do Parlamento, e seis em cada 10 mulheres são analfabetas na zona rural?

À luz do renascimento que o Marrocos está vivendo, a mulher tem um forte impulso, também na esfera religiosa. Pense que o número de membros no Conselho que supervisiona o trabalho das guias espirituais passou de uma para nada menos do que quatro. O número de graduadas no Instituto Mohammed VI cresceu de 50 para 100. A mulher está fortemente presente dentro da mesquita, nas instituições de ensino, nas casas para estudantes, nas prisões, nos círculos femininos, além da realização de atividades sociais e de caridade nos orfanatos, nas casas de repouso e hospitais, tanto nas cidades quanto nos vilarejos.

O que vocês acham do Papa Francisco?

Ele é descrito como humilde, defensor dos direitos humanos, que trabalha pela paz e que rejeitou a teoria da conexão entre o Islã e o terrorismo. Lembro-me da sua frase: “Não acho justo conectar o Islã e a violência”. O documento da fraternidade humanitária assinado em Abu Dhabi, na minha opinião, é um texto extraordinário, que atesta a essência das mensagens divinas, como a fé em Deus, a paz, o diálogo, a convivência e a cooperação, e a rejeição de todas as formas de violência, injustiça e intolerância. Esperamos que, como foi declarado no documento, todos os líderes políticos e religiosos se comprometam a difundi-lo e a traduzi-lo em decisões, textos legislativos e programas educacionais.

Por acaso, você conhece um pouco a Bíblia ou algumas de suas passagens?

Ainda não tive a oportunidade de estudar a Bíblia, mas tenho certeza de que, como já disse, a essência e a origem das mensagens divinas é a fé em Deus e a obtenção da paz e do bem na vida das pessoas.

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