O diálogo islâmico-cristão. Entrevistas com Claude Geffré e François Jourdan

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11 Junho 2008

Em Dieu des chrétiens, Dieu des musulmans, (Deus dos cristãos, Deus dos muçulmanos), padre François Jourdan declara-se favorável a um diálogo islâmico-cristão que não retrocede em frente às questões doutrinais.

Dominicano, especialista em teologia inter-religiosa, Claude Geffré defende uma relação mais ampla do catolicismo com as outras regiões. Claude Geffré é  frei dominicano e escreveu,entre muitos outros livros, um ensaio de teologia inter-religiosa intitulado De Babel a Pentecoste (Cerf. p. 368, 2006).

A revista francesa Temoignage Chrétien, 29 de maio de 2008, publicou as seguintes entrevistas com François Jourdan e Claude Geffré.

Eis a entrevista com François Jourdan.

Quais são  as principais diferenças entre as concepções de Deus no islamismo e no cristianismo?

Elas são muitas, mas a principal, em nível doutrinal, é a relação com a noção de aliança. A idéia de aliança é central na Bíblia, tanto no judaísmo quanto no cristianismo. Ela é  inexistente no Alcorão. Já a aliança é uma realidade muito específica na relação com Deus. Significa que Deus se põe em solidariedade com os homens, e, em primeiro lugar, com o povo eleito, mesmo que essa solidariedade seja assimétrica.

É muito mais que um simples pacto. Em outras palavras, na Bíblia, Deus dá direito a uma alteridade, fá-la existir. Pensemos em Isaías 43,3: “Tu tens valor aos meus olhos e eu te amo”. No Alcorão, tem-se uma relação com Deus em que este último é completamente separado dos homens, é uma transcendência sombria. O islamismo é um “monoteísmo intransigente”, como Dalil Boubakeur, reitor da mesquita de Paris, fazia recentemente notar.

E, dizendo isso, não se referiu somente à recusa dos mulçumanos de considerar a idéia cristã da Trindade. É bem outro.

Essa diferença é muito importante?

É fundamental! Se não, mais nada é importante. No islamismo, Deus não está perto de nós. É o Absolutamente Outro. Isso tem algumas conseqüências na vida dos crentes, até mesmo se eles não têm consciência disso. Está-se em uma transcendência um pouco opressiva, em que Deus é um patrão absoluto que não se discute. Insh’Allah! Há uma teologia por trás desse Insh’Allah... Entendamo-nos bem: isso tem sua grandeza e eu respeito infinitamente essa concepção do divino.

Mas não é a mesma coisa que um Deus que se alia aos homens. Etimologicamente, o “mulçumano” é aquele que é “submetido” a Deus. Muito bem. Mas os hebreus e cristãos não são verdadeiramente submetidos a Deus: estão em regime de aliança. Uma religião é como um par de óculos.

Se se colocar por um momento os óculos do vizinho, vê-se o mundo de uma maneira diferente. Isso não muda nada o fato que somos irmãos, que podemos nos respeitar, amarmo-nos, mas isso não quer dizer que vejamos Deus e o mundo do mesmo modo. E isso se precisa entender e aceitar, senão não se dialoga. Você finge, eles bancam o amigo do peito, bebe-se um pouco de chá de menta, é muito agradável, mas assim não falam conosco de verdade.

Mas se pode, como ele o faz em seu livro, permanecer ao nível da doutrina? A fé vivida não é somente intelectual...

Em efeito, a fé tem uma multiplicidade de dimensões. Mas a doutrina existe... e permanece. Já há no mínimo trinta anos negligencia-se-a, em particular no campo do diálogo inter-religioso. E estamos doentes disso. Não hesito em dizer que vivemos uma doença do diálogo, porque estamos em uma fuga permanente.

Acha-se toda uma literatura afetiva e plena de generosidade. É uma coisa muito boa, é importante. Conheço-a, eu participo também dos encontros inter-religiosos que possam ser humanamente muito ricos. Mas, depois de algum tempo, esvaziam-se. Nenhum nem outro ousam entrar verdadeiramente no cerne do assunto.

Esse livro deveria ter sido escrito há trinta anos. Por que essa demora?

Porque se tem medo de olhar para as coisas cara a cara e de falar de doutrina, ainda que seja aquele pouco de que somos capazes. Sinto muito se aquilo que digo choca certas pessoas, mas como é possível conhecer alguém e entendê-lo, se não se entra em sua identidade profunda?

E essa identidade, queira-se ou não, em matéria de religião, é a doutrina.Certamente é mais complicado que distribuir sorrisos, repetindo a competição de que oramos ao mesmo Deus, o que, por outro lado, é falso, porque não O compreendemos do mesmo modo. Mas se necessita ter a coragem de não ser muito suscetível quando se pretende querer dialogar.

Admitamos que isso se focaliza na doutrina. Esta última desdobrou-se no curso da história e evolui em função da realidade social, econômica, política, intelectual... Não há o risco de “essencializar” as religiões, e em particular o islamismo, insistindo, como ele faz, nos princípios doutrinários que se mantêm intangíveis?

Desdobrar-se” e “evoluir” não significa mudar totalmente. Certamente, um muçulmano de hoje, que vive na França, não vê as coisas do mesmo modo que um habitante de Medina do século VII. Isso não impede que haja um núcleo doutrinal que permaneça. Sei bem que é difícil aceitar nestes tempos de relativismo generalizado, mas é assim.

Não há nada contra o fato de estudar as religiões do ponto de vista histórico ou do sociológico; é importante. Mas a história e a sociologia não bastam para entender as religiões. Necessita-se entrar seriamente no discurso teológico se se deseja entender o cerne dessa realidade.
E hoje, essa necessidade amedronta. De um lado, há crentes que se preocupam, sem dizê-lo, com as conseqüências dessa exploração; de outro, há os partidários de um laicismo difuso que bane a religião para o âmbito da fábula. Em ambos os casos, fica-se no vazio. É muito mais cômodo. Mas não se ganha nada se cobrindo a cabeça.

Entrevista com Claude Geffré

François Jourdan o menciona, em seu livro, com outros, quando fala da confusão de certos discursos católicos sobre o islamismo. Como se reage a essa crítica?

Padre Jourdan tem razão em criticar os discursos irênicos fáceis, mas omite, todavia, alguns textos importantes do Magistero e certos aspectos dos trabalhos dos islamólogos autorizados, como Roberto Caspar ou Maurice Bormans.

Evidentemente não é muito importante que me critiquem, pois – que o confesso bem à vontade – sou somente um modesto teólogo (1). Mas em geral, o que me golpeia hoje é que a Igreja aceita facilmente repensar a sua atitude no confronto com o judaísmo, mas seja severamente mais reticente quando se trata do islamismo.

Bento XVI vai muito além no reconhecimento dos erros cometidos pela Igreja na sua relação com o judaísmo. Para o islamismo, a tendência atual seria, de preferência, dizer que o diálogo doutrinal não é possível. Que as únicas trocas que se podem considerar são as culturais ou éticas.

Todavia, o islamismo não é uma religião não cristã entre outras. Há raízes no mesmo tronco, aquelas dos descendentes de Abraão.

Se os mulçumanos têm de empreender alguns esforços para não fazerem da doutrina cristã uma caricatura, particularmente da noção da Trindade, também os cristãos têm um caminho a construir para reconhecerem que, seja como for, há alguns elementos do Alcorão que não são estranhos à revelação cristã, mesmo que não tenham exatamente a mesma intensidade de sentido ou a mesma importância para os crentes das duas religiões: o nascimento virginal de Jesus, a messianismo de Jesus, o reconhecimento de um Deus de misericórdia, a idéia de salvação, a ressurreição dos mortos etc.

Pode-se pensar, de um modo ou de outro, em superar as diferenças de interpretação no que diz respeito a esses “elementos comuns”?

Não há nenhuma dúvida que há as opções incondicionais na fé cristã que não podem ser aceitas pelos mulçumanos, por exemplo, a Encarnação ou a Trindade. E o contrário, evidentemente. Mas ao mesmo tempo, a mensagem do Alcorão é uma confirmação daquilo que já foi revelado em Israel ao povo hebreu, depois de Jesus Cristo, ou seja, a unidade de Deus. Para essa parte, o Alcorão pode ser compreendido como uma certa Palavra de Deus que consulta o judaísmo, o cristianismo.

Consulta o judaísmo, porque este último não reconhece Jesus como messias, e consulta os cristãos, que poderiam fazer da Trindade um tipo de tri-teísmo, arriscando comprometer a unicidade absoluta de Deus. Aceitar a consulta não te transforma em muçulmano.

O senhor compartilha da idéia segundo a qual a noção de aliança entre Deus e os homens não esteja presente no islamismo?

Sim, é incontestável. A revelação cristã é essencialmente ligada à história, por uma série de alianças com Deus. Não é o caso do islamismo, em que não há outra aliança que o pacto inicial que coincide com a criação de Adão.

A idéia de aliança histórica traz problemas ao pensamento mulçumano porque parece desafiar a absoluta transcendência de Deus. Mas não necessita nem ter uma idéia simplificada de Deus no Alcorão. O deus do islamismo é um deus misericordioso, mesmo se não é amor no sentido de uma reciprocidade entre ele e os homens.

Há os textos corânicos que insistem na dialética do absolutamente outro e do infinitamente perto. Pensamos naquele famoso versículo da sura 50: “Deus é mais íntimo ao homem que a sua veia jugular” (50,16).

É um pouco limitado, evidentemente, mas é bem escrito no Alcorão! O problema – real – é que a teologia mulçumana não tem jamais verdadeiramente sucesso em conciliar a onipotência de Deus com a autonomia e a liberdade humana. Houve, a esse respeito, polêmicas extremas na história do islamismo.

Mas é uma questão teológica que também se encontra em Agostinho, no seu confronto com o pelagianismo e, mais tarde, em certas correntes protestantes.

Por que, segundo o senhor, a idéia de que o islamismo seja uma religião radicalmente diferente do cristianismo tem tanto sucesso em alguns ambientes católicos?

Há, sem dúvida, nas razões ligadas ao contexto social e político. Mas é também uma polêmica clássica. Certos católicos são preocupados, sobretudo com sua identidade e são obcecados com a idéia de uma verdade que seria absoluta porque revelada.

Eles acham difícil considerar a historicidade de toda a tradução dessa verdade absoluta, até mesmo se aceita o princípio de um registro da Revelação na história, na medida em que faz parte, por definição, da fé cristã.

Por outro lado, a abertura para as “sementes de verdade” ou “de bondade” das outras religiões ou tradições filosóficas, para retomar as palavras dos Padres da Igreja, amedronta. É, todavia, possível e abre algumas perspectivas muito interessantes para o catolicismo, como procuro fazer ver na minha obra de teologia das religiões.

No que tange ao islamismo, mantém-se esse medo evocando suas antigas guerras, o império otomano, o espírito de conquista inerente a essa religião... A par disso, é o próprio islamismo que permitiu durante 13 séculos a milhões e milhões de pessoas no mundo adorar Deus. Não tenho certeza de que aquela vitalidade seja conveniente somente ao espírito de conquista.

Nota:

(1) François Jourdan insiste sobre a necessidade de ser teólogo para poder exprimir-se com segurança sobre as questões que enfrenta.

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