Migrantes, o apelo de Francisco: "Coloquemos pontes nos portos". Entrevista do Papa na volta do Marrocos

Foto: International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies | Flickr CC

01 Abril 2019

O papa Francisco diz que "aqueles que constroem muros acabarão sendo prisioneiros dos muros que construíram".

Falando a respeito de migrantes, ele explica que viu um vídeo mostrando "muros com facas colocadas ali para cortar: meu coração viu tanta crueldade". E diz que "não entra" em sua cabeça e em seu coração "ver afogamentos no Mediterrâneo". "Vamos colocar pontes nos portos", pede.

Depois fala sobre os populismos: "O medo é o discurso costumeiro dos populismos, é o início das ditaduras". E da liberdade de consciência que alguns "católicos não admitem desde que passou o Concílio Vaticano II": "Temos esse problema", ele afirma. E, ainda, desfere um golpe pesado contra a Europa: "Se essa Europa tão generosa vende armas ao Iêmen para matar crianças, como pode a Europa ser coerente?". A uma pergunta sobre o Congresso da Família de Verona (Nota de IHU On-Line: evento promovido pela direita italiana liderada por Matteo Salvini - Lega Nord, Vice Primeiro-Ministro e Ministro do Interior da Itália), explica que ele não entende de "política italiana". E novamente: "Eu realmente não sei o que é. Li a carta do cardeal Pietro Parolin e concordo, é uma carta pastoral de boa educação".

Assim fala o Papa Francisco no voo de regresso de Rabat, capital do Marrocos, sua segunda viagem apostólica para um país de maioria muçulmana.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 31-03-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Houve momentos muito fortes, esta visita foi um evento histórico excepcional, histórico para o povo marroquino. Quais são as consequências desta visita para o futuro, para a paz mundial, para a coexistência no diálogo entre culturas?

Agora são flores, os frutos virão depois. Mas as flores são promissoras. Fico feliz porque nessas duas viagens pude falar sobre o que tanto toca o meu coração: a paz, a unidade, a fraternidade. Com os irmãos muçulmanos e muçulmanas selamos essa fraternidade no documento de Abu Dhabi e aqui no Marrocos todos nós vimos uma liberdade, uma fraternidade, uma acolhida de todos os irmãos com muito respeito. Essa é uma linda flor de coexistência que promete dar frutos. Nós não devemos desistir! É verdade que ainda haverá dificuldades, muitas dificuldades porque, infelizmente, existem grupos intransigentes.

Mas isso eu gostaria de dizer claramente: em toda religião há sempre um grupo fundamentalista que não quer ir em frente e vive de lembranças amargas, das lutas do passado, busca mais a guerra e até semeia medo. Vimos que é mais lindo semear a esperança, ir sempre em frente de mãos dadas. Vimos, até mesmo no diálogo com vocês aqui no Marrocos, que são necessárias pontes e sentimos dor quando vemos as pessoas que preferem construir muros. Por que sentimos dor? Porque aqueles que constroem os muros acabarão ficando prisioneiros dos muros que construíram. Em vez disso, aqueles que constroem pontes, irão sempre em frente. Construir pontes para mim é algo que vai além do humano, é preciso um grande esforço. Eu sempre me senti tocado por uma frase do romance de Ivo Andrich, 'Il ponte sulla Drina': ele diz que a ponte é feita por Deus com as asas dos anjos para os homens comunicarem ... para que os homens possam se comunicar. A ponte é para comunicação humana. E isso é belíssimo e eu vi aqui no Marrocos. Em vez disso, os muros são contra a comunicação, são para o isolamento e aqueles que os constroem se tornarão prisioneiros. Os frutos não se veem, mas vemos tantas flores que elas darão frutos.

Vocês assinaram um pacto por Jerusalém, o que pensa disso?

Sempre que há um diálogo fraterno, há um relacionamento em vários níveis. Permita-me uma imagem: o diálogo não pode ser de laboratório, deve ser humano e, se for humano, é com a mente, com o coração e com as mãos, e assim que os acordos são assinados. Por exemplo, o apelo comum sobre Jerusalém foi um passo em frente não feito por uma autoridade do Marrocos e por uma autoridade do Vaticano, mas por irmãos crentes que sofrem ao ver essa cidade de esperança ainda não conseguir ser tão universal quanto todos nós queremos: judeus, muçulmanos e cristãos. Nós todos queremos isso. E para isso assinamos esse desejo: é um desejo, um chamado à fraternidade religiosa que é simbolizado nessa cidade que é toda nossa. Somos todos cidadãos de Jerusalém, todos os crentes.

Ontem, o rei do Marrocos disse que vai proteger judeus marroquinos e cristãos de outros países que vivem no Marrocos. O que o senhor pensa dos muçulmanos que se convertem ao cristianismo? Está preocupado com esses homens e mulheres que correm risco de serem presos?

Eu posso dizer que no Marrocos há liberdade de culto, há liberdade religiosa, há liberdade de pertencimento religioso. A liberdade sempre se desenvolve, cresce: basta pensar em nós, cristãos, 300 anos atrás: havia essa liberdade que temos hoje? A fé cresce na consciência, na capacidade de entender a si mesma. Um monge francês, Vincenzo De Lerine, cunhou uma bela expressão para explicar como se pode crescer na fé: crescer na moral, mas sempre permanecendo fiel às raízes. Ele disse três palavras que realmente marcam o caminho: crescer na explicitação e na consciência da fé e da moral deve ser algo consolidado ao longo dos anos e ampliado ao longo do tempo, mas é a mesma fé sublimada nos anos. Assim, compreende-se, por exemplo, o fato de que hoje removemos a pena de morte do Catecismo da Igreja Católica: 300 anos atrás os heréticos eram queimados vivos, a Igreja cresceu em consciência moral. O respeito pela pessoa e a liberdade de culto também estão crescendo e nós também devemos continuar a crescer. Há católicos que não aceitam o que o Vaticano II disse sobre liberdade de culto, a liberdade de consciência. Temos esse problema, mas nossos irmãos muçulmanos também crescem em consciência e alguns países não entendem bem ou não crescem tão bem quanto outros.

Nessa perspectiva há o problema da conversão. Alguns países ainda não a aceitam, a prática é proibida. Outros países, como o Marrocos, não criam problemas, são mais abertos, mais respeitosos, tentam alguma maneira de proceder com discrição. Outros países com os quais falei ainda dizem que preferem que o batismo seja feito fora do país. O que me preocupa é outra coisa: o retrocesso de nós, cristãos, quando removemos a liberdade de consciência. Basta pensar nos médicos e nas instituições hospitalares cristãs que não têm o direito da objeção de consciência, por exemplo, para a eutanásia. Como? A Igreja seguiu em frente e vocês, países cristãos, vão para trás? Pensem sobre isso, porque é uma verdade. Hoje nós, cristãos, enfrentamos o perigo de que alguns governos tirem nossa liberdade de consciência, que é o primeiro passo para a liberdade de culto. A resposta não é fácil, mas não acusamos os muçulmanos, acusamos esses países onde isso acontece. É algo que causa vergonha".

O cardeal Barbarin - acusado de acobertar os abusos de um sacerdote de sua diocese (ndr) - nasceu em Rabat. Esta semana o conselho da diocese de Lyon votou quase por unanimidade para que seja encontrada uma solução duradoura para seu afastamento. É possível que o senhor ouça esse apelo?

Barbarin é um homem da Igreja, ele renunciou, mas eu não posso aceitá-lo moralmente porque, juridicamente, mas também na jurisprudência mundial clássica, há a presunção de inocência durante o tempo em que a causa está aberta. Ele impetrou recurso e o caso está aberto. Quando o segundo tribunal der a sentença, vamos ver o que acontece. Mas é sempre necessário ter a presunção de inocência. Isso é importante porque vai contra a condenação superficial midiática. O que fala a jurisprudência mundial? Que, se uma causa está aberta, há a presunção de inocência. Talvez ele não seja inocente, mas há presunção. Certa vez, falei sobre um caso na Espanha e como a condenação midiática tenha arruinado a vida de sacerdotes que depois foram considerados inocentes. Antes da condenação midiática, é preciso pensar duas vezes. E ele honestamente preferiu dizer: eu me afasto, peço uma licença voluntária e deixo o vigário geral administrar a arquidiocese até que o tribunal dê a sentença final.

No discurso de sábado para as autoridades, disse que o fenômeno da migração não se resolve com barreiras físicas, mas aqui no Marrocos, a Espanha construiu duas barreiras com lâminas para ferir aqueles que querem ultrapassá-las. Trump disse, nos últimos dias, que quer fechar completamente as fronteiras e suspender a ajuda a três países da América Central. O que o senhor gostaria de dizer a esses governantes, a esses políticos que ainda defendem essas decisões?

Primeiro de tudo o que eu disse há pouco: os construtores de muros, sejam com lâminas cortantes como facas ou com tijolos, se tornarão prisioneiros dos muros que fazem. A história dirá. Segundo: quando Jordi Évole me entrevistou, ele me mostrou um pedaço daquele arame farpado com lâminas. Eu lhe digo sinceramente que fiquei abalado e quando ele saiu eu chorei. Chorei porque não entra na minha cabeça e no meu coração tamanha crueldade. Não entra na minha cabeça e no meu coração ver afogamentos no Mediterrâneo: vamos colocar pontes nos portos. Este não é o modo para resolver o grave problema da imigração.

Foto: InfoLibre

Um governo com esse problema está com a batata quente em suas mãos, mas deve resolvê-lo de outra forma, humanamente. Quando vi aquela concertina, não pude acreditar.

Foto: La Sexta

Depois, certa vez tive a oportunidade de ver um vídeo da prisão dos refugiados que retornam, prisões não oficiais e prisões de traficantes. Causam sofrimento, causam sofrimento. Eles vendem as mulheres e as crianças, sobram os homens. A União Europeia precisa falar. Dizem: não deixo entrar, ou deixo que eles se afoguem ali, ou os mando de volta sabendo que muitos deles cairão nas mãos desses traficantes que venderão as mulheres e as crianças, matarão ou torturarão para escravizar os homens. Certa vez falei com um governante, um homem que eu respeito, Alexis Tsipras. Ele me explicou as dificuldades, mas no final ele me disse esta frase: "Os direitos humanos vêm antes de acordos". Esta frase merece o Prêmio Nobel.

O senhor luta há muitos anos para proteger e ajudar os migrantes, como fez nos últimos dias no Marrocos. A política europeia vai exatamente na direção oposta. A Europa se torna um bastião contra os migrantes. Essa política reflete a opinião dos eleitores. A maioria desses eleitores são cristãos católicos. Como se sente diante dessa triste situação?

Eu vejo que muitas pessoas de boa vontade, não apenas católicas, mas boas pessoas, de boa vontade, estão um pouco tomadas pelo medo que é o discurso costumeiro dos populismos, o medo. Semeia-se o medo e depois se tomam as decisões. O medo é o início das ditaduras. Vamos para o último século, para a queda do império de Weimer, repito muito isso. A Alemanha precisava de uma saída e, com promessas e medos, Hitler foi em frente, sabemos o resultado. Aprendemos com a história, isso não é novo: semear medo é fazer uma colheita de crueldade, de fechamentos e até de esterilidade. Pensem no inverno demográfico da Europa. Nós que vivemos na Itália também estamos abaixo de zero. Pensem na falta de memória histórica: a Europa foi feita de migrações e esta é a sua riqueza. Ponderemos a generosidade de tantos países, com os migrantes europeus que, nos dois pós-guerra foram, em massa, para a América do Norte, América Central, América do Sul. Meu pai foi para lá no pós-guerra. Precisamos de um pouco de gratidão ...

É verdade, para ser compreensivos, que o primeiro trabalho que temos a fazer é tentar fazer com que as pessoas que migram por causa da guerra ou da fome não tenham essa necessidade. Se essa Europa tão generosa vende as armas ao Iêmen para matar crianças, como a Europa pode ser coerente? E digo, este é um exemplo, mas a Europa vende armas.

Depois, há o problema da fome, da sede. A Europa, se quiser ser a mãe Europa e não a avó Europa precisa investir, precisa tentar de forma inteligente ajudar a elevar com a educação, com os investimentos e isso não é uma opinião minha, foi dita pela chanceler Merkel. É algo que ela faz bastante: impedir a emigração não pela força, mas pela generosidade, pelos investimentos educacionais, econômicos, etc. E isso é muito importante.

Em segundo lugar, sobre como agir: é verdade que um país não pode receber a todos, mas há toda uma Europa para distribuir aos migrantes, há toda a Europa. Porque o acolhimento deve ser de coração aberto, depois acompanhar, promover e integrar. Se um país não pode integrar, deve pensar imediatamente em conversar com outros países: quanto você pode se integrar, para dar uma vida digna às pessoas.

Outro exemplo que vivi em minha carne no tempo das ditaduras, a Operação Condor em Buenos Aires, na América Latina, Argentina, Chile e Uruguai. Foi a Suécia que recebeu com generosidade impressionante. Eles imediatamente aprendiam o idioma com a ajuda do estado, encontravam trabalho, casa. Agora a Suécia sente um pouco de dificuldade em integrar, mas fala isso e pede ajuda. Quando estive lá no ano passado, o primeiro-ministro me recebeu, mas na cerimônia de despedida havia uma ministra, uma jovem ministra, acredito que da educação, que era um pouco mais morena porque era filha de uma sueca e de um imigrante africano: assim integra um país, que eu coloco como um exemplo, como a Suécia. Mas para isso é preciso generosidade, é preciso querer avançar, mas com medo não iremos à frente, com os muros ficaremos fechados nesses muros.

O senhor muitas vezes denuncia a ação do diabo, também o fez na recente cúpula. Ultimamente ele tem trabalhado duro. O que fazer para combatê-lo, especialmente no que diz respeito aos escândalos da pedofilia?

Um jornal, após meu discurso no final da cúpula dos presidentes das conferências episcopais, escreveu: o Papa foi esperto, primeiro disse que a pedofilia é um problema mundial, depois disse algo sobre a Igreja, no final ele lavou suas mãos e culpou o diabo. Um pouco ‘simplista’ não?

Um filósofo francês, nos anos 1970, fez uma distinção que para mim foi bastante esclarecedora. Ele me deu um esclarecimento hermenêutico. Ele dizia: para entender uma situação, é preciso dar todas as explicações e depois procurar os significados. O que significa socialmente? O que significa pessoal ou religiosamente? Eu tento dar as medidas das explicações. Mas há um ponto em que não se consegue mais entender sem o mistério do mal. Pensem na pornografia infantil virtual. Houve dois encontros, pesados, em Roma e Abu Dhabi. Eu me pergunto, como isso se tornou uma coisa do cotidiano? Como? Se você quiser ver um abuso sexual contra menores ao vivo, basta se conectar com um site de pornografia infantil virtual, que mostram isso para você. Eu não estou mentindo. Eu me pergunto: os responsáveis não podem fazer nada? Nós, na Igreja, faremos de tudo para acabar com essa calamidade, faremos de tudo.

Nesse discurso dei medidas concretas. Os responsáveis por essas sujeiras são inocentes? Aqueles que ganham com isso? Em Buenos Aires, com dois gestores municipais, fizemos uma portaria, uma disposição não vinculante para hotéis de luxo, onde se dizia "coloquem na recepção do seu hotel que não são permitidas relações com menores". Ninguém quis colocar isso. Não, você precisa entender, não se pode, parece que somos sujos, todos sabem que não fazemos isso, mas sem o aviso.

Um governo não pode identificar onde esses vídeos com crianças são feitos? Todas filmados ao vivo. Isso para dizer que o flagelo mundial é grande, mas também que não se pode compreender sem o espírito do mal: é um problema concreto.

Para resolver isso, há duas publicações que recomendo: um artigo de Gianni Valente no Vatican Insider, onde ele fala sobre os donatistas. O perigo da Igreja hoje de se tornar donatista, fazendo prescrições humanas, esquecendo as outras dimensões. A oração, a penitência, que não estamos acostumados a fazer. Ambas! Porque, para vencer o espírito do mal não serve “lavar-se as mãos”, dizer “o diabo faz isso”, não. Nós também devemos lutar contra o diabo, contra as coisas humanas.

A outra publicação foi feita pela Civiltà Cattolica. Eu tinha escrito um livro, em 1987, as Cartas da Tribulação, eram cartas do padre geral dos jesuítas quando a companhia estava prestes a ser supressa. Fiz um prólogo, eles estudaram e fizeram um estudo sobre as cartas que fiz ao episcopado chileno e ao povo chileno, como agir com isso, as duas partes, a parte científica contra a parte espiritual. O mesmo foi feito com os bispos dos Estados Unidos, as propostas eram demasiado metodológicas, sem vontade, a dimensão espiritual era negligenciada.

Eu gostaria de lhes dizer: A Igreja não é congregacionalista, é católica, onde o bispo deve tomar as decisões em mãos e também o Papa deve fazer isso, como pastor. Mas como? Com as medidas disciplinares e também com a penitência, com a oração. Eu ficaria grato se vocês estudassem as duas coisas: a parte humana e espiritual.

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