''Cartas da tribulação.'' Do abismo à aurora de uma nova era. Artigo de Gianfraco Ravasi

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30 Janeiro 2019

Chegou às livrarias italianas nesta terça-feira, 29 de janeiro, o livro de Jorge Mario Bergoglio – Francisco, intitulado "Lettere della tribolazione" [Cartas da tribulação, em tradução livre] (Milão, Àncora Editrice, La Civiltà Cattolica, 2019, 142 páginas).

Foto: Divulgação

O jornal L’Osservatore Romano, 29-01-2019, publicou um comentário escrito pelo cardeal Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"As nuvens se adensam no próprio horizonte da Igreja e giram ao redor da “ferida aberta, dolorosa e complexa da pedofilia” e da lúgubre “cultura do abuso”. Por isso, continua viva e intacta ainda aquela palavra sumária e emblemática, tribulação. E é sobre ela que nós desejamos permanecer, porque ela pertence à mesma fonte da nossa fé, a Palavra de Deus, assim como ela se expressou no Novo Testamento", escreve o cardeal.

Eis o texto.

Para eleger como papa o filho do médico de Sant’Angelo di Romagna, Giovan Vincenzo Antonio Ganganelli, foram necessários nada menos do que 185 escrutínios. No fim, esse franciscano conventual, primeiro pontífice de origem burguesa e não popular ou aristocrática, subia à cátedra de Pedro aos 64 anos, com o nome de Clemente XIV.

Era 1769, e, dali a pouco, ele seria o artífice de uma obra que seria continuada pelo seu sucessor Pio IV, a preparação da imponente coleção artística greco-romana do Museu Vaticano Pio-Clementino.

Quatro anos depois, em 21 de julho de 1773, a contragosto e sob forte pressão política externa, especialmente do rei da Espanha, ele emitia o “breve” Dominus ac Redemptor, que o torna uma figura um tanto embaraçosa nos nossos dias marcados por um papa jesuíta: ele abolia a Companhia de Jesus.

No ano seguinte, 1774, ele morria talvez de câncer, e, imediatamente, ao redor dos seus restos mortais, pairava uma dupla lenda obscura: envenenado pelos jesuítas ou punido por Deus por ter suprimido essa Ordem?

Agora, ele incumbe poderoso com o braço erguido e apontado para um horizonte distante no monumento fúnebre que Antonio Canova lhe dedicou na Basílica dos Santos Apóstolos, em Roma.

Estátua do Papa Clemente XIV, de Antonio Canova, na Basílica dos Santos Apóstolos, em Roma (Foto: Rome for Beginners)

Gostaríamos agora, idealmente, de fazer a sua voz ressoar, considerando-a um pouco como o ápice temático ideal da importante e, de certa forma, surpreendente sequência das “Cartas da tribulação”. De fato, evoquemos as palavras centrais daquele breve papal que apagava uma instituição eclesial tão decisiva na história dos últimos séculos:

“Com bem maduro conselho, de certa ciência, e com a plenitude do Poder Apostólico, extinguimos e suprimimos a várias vezes citada Sociedade, e anulamos e abolimos todos os seus ofícios, ministérios e administrações dela, as casas, as escolas, os colégios, os albergues e qualquer outro lugar existente em qualquer província, reino e senhorio, e de qualquer modo pertencente a ela; os seus estatutos, costumes, hábitos, decretos, constituições, embora corroborados por juramento, por aprovação apostólica, ou de outro modo, e todos os privilégios individuais e os indultos gerais ou especiais [...]”.

“Por isso, Nós declaramos que permaneça anulada perpetuamente e extinta absolutamente toda e qualquer autoridade do Prepósito geral, dos provinciais, dos visitadores e dos outros superiores de tal Sociedade, tanto nas coisas espirituais como nas temporais [...] Com a presente, proibimos que ninguém no futuro seja recebido na mencionada Sociedade e admitido às vestição e ao noviciado [...] Queremos, mandamos, ordenamos que aqueles que atualmente estão no noviciado, logo, pronta e imediatamente e de fato sejam licenciados; e, de igual modo, proibimos que aqueles que fizeram a profissão dos votos simples, e que até agora não foram promovidos a qualquer ordem sagrada, possam ser promovidos às mesmas ordens maiores” (Dominus ac Redemptor, n. 25).

Seria preciso esperar o dia 7 de agosto de 1814, quando o Papa Pio VIIBarnaba Chiaramonti, natural de Cesena, eleito em 14 de março de 1800, após um conclave que durou nada menos do que 104 dias em Veneza – com a bula Sollicitudo omnium, colocaria o selo nesse longo inverno da Companhia de Jesus, que durou anos, para reconstituí-la na sua plena dignidade e operosidade.

O corpus central da obra que agora é proposta acolhe oito cartas dos Prepósitos gerais que, naquele arco histórico conturbado e no imediatamente seguinte, revelam a amargura e as esperanças da sua alma sob o céu escuro da “tribulação”.

Sob esse mesmo céu, muitas vezes nós nos encontramos, por razões diversas, também no presente. Acrescentam-se, assim, cinco outras cartas: quem as escreve é o Papa Francisco, que, como simples jesuíta em 1986, havia coordenado a edição dos oito testemunhos do passado, razão pela qual este livro pode ser considerado, em certo sentido, totalmente dele na sua forma mais pessoal e direta.

Agora, as nuvens se adensam no próprio horizonte da Igreja e giram ao redor da “ferida aberta, dolorosa e complexa da pedofilia” e da lúgubre “cultura do abuso”. Por isso, continua viva e intacta ainda aquela palavra sumária e emblemática, tribulação. E é sobre ela que nós desejamos permanecer, porque ela pertence à mesma fonte da nossa fé, a Palavra de Deus, assim como ela se expressou no Novo Testamento.

“É preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus” (Atos 14, 22). De fato, essa é a confissão que Paulo e Barnabé já pronunciam, depois de um “tour” missionário deles em uma região central da atual Turquia, onde o Apóstolo havia sofrido imediatamente uma tentativa de apedrejamento.

No coração dessa frase, está justamente a palavra que rege o título e sintetiza o epistolário coletado no livro: é o termo grego thlípsis, que, no Novo Testamento, ressoa nada menos do que 45 vezes e que, geralmente, é traduzido com o nosso vocábulo “tribulação”.

Este último, curiosamente, tem na base o verbo “trebbiare” [debulhar], usado em sentido metafórico, porque é como ser dilacerado no corpo e no espírito por uma debulhadora. O paralelo grego também remete ao verbo thlíbô que significa “pressionar, acalcar, espremer”, assim como acontece com os grãos de uva esmagados na tina, para que o vinho escorra como sangue.

Por isso, podemos idealmente sobrepor a “tribulação” bíblica àquela vivida pelas muitas testemunhas-mártires dos séculos cristãos, entre os quais, justamente, estão os jesuítas daquelas cartas. Ou, melhor, pode-se até elaborar uma teologia da tribulação que tem em Cristo tanto o modelo quanto a meta a ser alcançada, como se afirma em uma célebre (e nem sempre entendida corretamente) passagem da Carta aos Colossenses: “Eu me alegro nas tribulações que suporto por vocês e dou cumprimento ao que falta em minha carne dos sofrimentos de Cristo, a favor do seu corpo, que é a Igreja” (1, 24). Não é um completar a paixão redentora de Cristo, que em si mesma é perfeita e plena, mas é um reproduzi-la na própria vida através de um itinerário de sofrimentos e de testemunhos que durará toda a existência.

De fato, como o apóstolo reitera aos cristãos de Roma, “se somos filhos, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, devemos realmente participar das suas tribulações para participar da sua glória” (8, 17). É uma “comunhão com Cristo nas tribulações”, como Paulo repetirá aos Filipenses (3,10), com a certeza de que “ele nos consola em todas as nossas tribulações” (2Coríntios 1, 4). Essa afirmação é uma espécie de leitmotiv que ecoa em muitas passagens paulinas e que é reforçada nas cartas aqui reunidas.

É por isso que se exalta a paradoxal bem-aventurança do atribulado, porque “o peso momentâneo e leve da nossa tribulação nos provoca uma quantidade desmedida e eterna de glória” (2Coríntios 4, 17). De fato, “os sofrimentos do tempo presente não são comparáveis à glória futura”, razão pela qual “nós nos orgulhamos das tribulações” (Romanos 8, 18; 5, 3).

É bem sabido que toda a trama da experiência do Apóstolo e dos primeiros cristãos é pontilhada de sofrimentos e perseguições, é até mesmo manchada de sangue. É o que Jesus já anunciava – embora negativamente – na parábola da semente que cai no terreno acidentado da história: ela é o símbolo daqueles que “são inconstantes e, quando chega uma tribulação ou perseguição, por causa da Palavra, logo desistem” (Marcos 4, 17).

São Paulo, evocando a sua relação pastoral atormentada com os cristãos de Corinto (não há apenas as tribulações das perseguições externas, mas também os tormentos internos), não hesita em listar um fluxo ininterrupto, quase litânico, de provações de todos os tipos sofridas por ele no seu empenho missionário (2Coríntios 11). Ele está convencido, de fato, que “somos atribulados de todos os lados: por fora, lutas; por dentro, temores” (7, 6).

E a tribulação sofrida pelo Evangelho é uma espécie de baluarte do amor, como ele declara ainda aos Coríntios: “Escrevi para vocês em um momento de grande tribulação e com o coração angustiado, entre muitas lágrimas, para que conheçam o amor que eu tenho particularmente por vocês” (2, 4).

No entanto, permanece sempre presente no coração aquela promessa que Jesus fizera aos seus discípulos na última noite da sua vida terrena no Cenáculo: “No mundo, vocês terão tribulações, mas tenham coragem: eu venci o mundo!” (João 16, 33). O olhar que o discípulo dirige quando está tomado pelas provações, por isso, está inclinado para a frente, para um horizonte mais alto, aquele que os teólogos definem como escatológico.

Cristo mesmo havia antecipado isso em um discurso dele, chamado justamente de “escatológico”, no qual mostrava a ideia de que, nos últimos compassos da história humana, haveria uma espécie de epifania última do Maligno, um extremo debater-se do monstro do mal. É a “grande tribulação”, a suprema prova final que separará justos e injustos em relação ao reino de Deus: “Nessa hora haverá uma grande tribulação, como nunca houve outra igual, desde o início do mundo até agora, nem nunca mais se verá. (...) Logo depois da tribulação daqueles dias, o sol vai escurecer, a lua não brilhará mais, as estrelas cairão do céu, e as potências do céu ficarão abaladas” (Mateus 24, 21.29). Trata-se de um sinal, expressado com a linguagem da literatura apocalíptica da época, que apresenta a meta última da história não como um abismo escuro, mas como o surgimento da aurora de uma nova era transcendente, que inclui o juízo e a vitória sobre o mal.

Sob essa luz, o livro do Apocalipse é emblemático. O autor está ciente de que a Igreja está vivendo um tempo de “tribulação” com a crise interna das várias comunidades e com a perseguição externa do imperador Domiciano. Porém, ele está igualmente certo de que ela durará simbolicamente apenas “dez dias” (2, 10), isto é, estará no perímetro de um tempo histórico limitado, à espera de chegar ao eterno da Jerusalém nova e perfeita.

É claro, esse último livro da Bíblia está ligado à concretude de uma Igreja em crise, mas a sua palavra de esperança cruza as fronteiras das dificuldades presentes para buscar o sentido definitivo dos eventos humanos e do ser inteiro. O Cristo, representado sob o símbolo bíblico do Cordeiro, quer abrir e tornar legível, através do seu “apocalipse-revelação”, o rolo selado da história no seu significado último: mais do que se dirigir ao fim do mundo, o Apocalipse se interroga sobre o fim do mundo e da história.

Ele é, portanto, o livro do presente e do futuro, da tribulação e da esperança, do medo e da alegria, do juízo e da glória, da Jerusalém histórica, que também hospeda a sanguinária Babilônia, e da Jerusalém nova e santa.

Em um discurso-ensaio sobre o Apocalipse (1984), o diretor russo Andrei Tarkovski, que sonhava em poder realizar um filme sobre essa obra bíblica, declarava: “O Apocalipse talvez seja a maior criação poética que jamais existiu sobre a Terra. (...) Ele é, em última análise, um relato do nosso destino. Mas seria errado pensar que o Apocalipse contém apenas a ideia da punição. Talvez, o mais importante nele contido seja a esperança”.

Precisamente por isso, como escrevia Victor Hugo, “todo homem tem em si o seu Patmos. É livre para ir a esse espantoso promontório do pensamento, a partir de onde se percebem as trevas”, mas a partir de onde se vê surgir o sol da aurora em um dia que não conhecerá mais a noite, em que não haverá mais a necessidade de lamparinas, “porque o Senhor Deus nos iluminará e reinaremos pelos séculos dos séculos” (22, 5).

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