"Tentaremos realizar o sonho de Francisco, esse sonho nascido em Medellín". O discurso programático de dom Carlos Castillo, novo arcebispo de Lima e primaz do Peru

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13 Março 2019

Dom Carlos Gustavo Castillo Mattasoglio tomou posse como arcebispo de Lima, Peru, no dia 2 de março de 2019. No seu discurso programático, o bispo primaz do Peru, que foi aluno de Gustavo Gutiérrez, anunciou as diretrizes do seu episcopado. O bispo destacou a inspiração em São Turibio de Mogrovejo, bispo que assumiu a causa dos indígenas no vice-reinado do Peru, nos séculos XVI e XVII, a Conferência Episcopal Latino-americana de Medellín, em 1968, e a igreja que sonha o papa Francisco.

O discurso de dom Carlos Castillo Mattasoglio foi proferido na sua posse, 02-03-2019, na Basílica Catedral de Lima y Primada del Perú. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a íntegra.

1) O caminho a partir de São Lázaro e seu sentido

Chegamos a essa Catedral desde San Lázaro passando pelo jirón Trujillo, o caminho dos desamparados, passamos à outra costa, como fez Turíbio de Mogrovejo, e carregando seus santos restos mortais.

Fizemos recordando, no sentido literal dessa palavra, isto é, voltando a colocar no coração o que somos desde nossas origens: somos o povo limeño, povo crente que só pode existir como tal se empreende tudo, se enraíza e se funda sempre em Jesus, que se fez pobre, e que nos pobres de Lima, do século XVI e XVII, em especial as populações Amancaes, os índios camaroneros, e os leprosos do bairro de San Lázaro, teve seu principal ponto de referência.

Sempre a frivolidade de nossa rica cidade, centro do Vice-Reinado e exportadora do mineral de Potosí, Cerro de Pasco e Quives, foi tentada de viver indiferente e se ufanar da sua riqueza ante o sofrimento humano. Turíbio optou não somente por entrar nela pelos pobres, mas sim também por sair dela para as periferias pobres e deixar a capital para converter a periferia em centro de sua sede. O recordou nosso querido papa Francisco: Turíbio atuou sempre “olhando para a outra margem”, não ao seu escritório, mas sim desde a “atenção arcebispal”.

Depois de Turíbio a tradição se manteve. Em 23 de abril de 1758, na reinauguração do templo de San Lázaro, depois do terremoto de 1746, ante o valoroso Conde de Superunda e da alta aristocracia limeña, o padre jesuíta, Juan Sánchez, passando por cima das pressões e pretensões que alguns tinham de separar dita igreja do leprosário, por buscar um “culto mais puro”, manifestou com toda autoridade:

“Sim, alma santa, Cristo te convida ao hospital, para receber entre os enfermos as provas mais eficazes de tua fineza; porque não necessitando em sua pessoa dos cultos que se lhe consagram no templo, necessita em seus membros dos socorros que se fazem no hospital. Pois se no templo ocupa a majestade de um solio, no hospital é um Deus em luto, que está atirado na desilusão em um leito. Se no templo é um Deus cercado de gloria, no hospital é um Deus penetrado de angústias. Se no templo é um Deus que recebe adorações, no hospital é um Deus que padece tormentos. Se no templo é um Deus que reparte mercês, no hospital... é um Deus que mendiga esmolas. Ó Deus, mendigo nos hospitais! Já não me admira que queiras ser mais encontrado no hospital, do que no templo... pois essa necessidade que padeces no hospital, e não padeces no templo, te obriga a desejar mais os socorros que se fazem no hospital, do que as ofertas que se consagram no templo”.

Essas palavras chegam hoje a nós, que, caminhando com o povo, viemos a essa ordenação para sair daqui para esses milhões de hospitais, que são as tentativas dos povos das nossas ruas por sobreviver ali, nas ruas de Lima, nas casas deterioradas dos nossos bairros pobres, no perigo de suas praças, e nas esperanças de seus postos de vendedores ambulantes e canillitas [Nota de IHU On-Line: jovem que vende loteria pelas ruas], nas camas de papelão dos hóspedes noturnos de nossas calçadas, nas latas pisadas por milhares de jovens sem trabalho e sem estudos, nas novas populações amazônicas que habitam nossa cidade, e tantos e tantas outras maltratados e maltratadas, marginalizados, desconhecidos para muitos. Ali estão os Cristos sofredores que lutam e creem, que nos chamam a construir com eles essa Igreja “hospital de campanha”, que é capaz de alentar e acompanhar seu caminho de superação, e nos faz participar a todos na cura de suas feridas, no enxugar de suas lágrimas, alegra-nos com suas alegrias e danças, participar de suas conversas noturnas, porque quer ser na verdade, aqui em Lima, uma igreja próxima e amiga.

Essa é a igreja que o papa Francisco nos encarregou de forjar no coração da cidade, quando nos disse: “Jesus caminha na cidade com seus discípulos e começa a ver, a escutar, a prestar atenção a aqueles que haviam sucumbido sob o manto da indiferença, lapidados pelo grave pecado da corrupção... Chama aos seus discípulos e os convida a ir com Ele a caminhar pela cidade, mas lhes muda o ritmo, lhes ensina a olhar o que até agora passavam por cima. Convertam-se, lhes disse, o Reino dos Céus é encontrar em Jesus a Deus, que se mescla vitalmente com seu povo (cf. Mc 1, 15-21). Jesus segue caminhando pelas nossas ruas, segue ao semelhante que ontem batia nas portas, batia nos corações para voltar a acender a esperança e os desejos: que a degradação seja superada pela fraternidade, a injustiça vencida pela solidariedade e a violência silenciada por armas da paz... “O Reino dos Céus está entre vós” – nos disse –, está ali onde nos animamos a ter um pouco de ternura e compaixão, onde não tenhamos medo de gerar espaços para que os cegos vejam, os paralíticos caminhem, os leprosos sejam purificados e os surdos escutem (cf. Lc 7, 22). Como acenderemos a esperança se faltam profetas? Como encararemos o futuro, se falta-nos a unidade? Como chegará Jesus a tantos rincões, se faltam audazes e valentes testemunhos? Hoje, o Senhor te convida a caminhar com Ele à cidade, tua cidade. Te convida a ser teu discípulo missionário”.

2) Nossa arquidiocese no sonho de Francisco

Em Lima tentaremos realizar o sonho de Francisco, esse sonho nascido em Medellín, e transmitido em sua inesquecível visita ao Peru, e cujas palavras devem ressoar nesse templo:

a) A Igreja de Lima: igreja pobre para os pobres
Quero uma Igreja pobre para os pobres! Eles têm muito a nos ensinar. Ademais de participar do sensus fidei, em suas próprias dores conhecem o Cristo sofredor. É necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles... reconhecer a força salvífica de suas vidas... colocá-los no centro... descobrir o Cristo neles... prestar-lhes nossa voz em suas causas... ser seus amigos, escutá-los, interpretá-los e recolher a sabedoria que Deus quer nos comunicar por meio deles”.

b) A igreja de Lima: realização do sonho de uma igreja missionária
Sonho com uma opção missionária capaz de transformá-la toda”, nos disse o papa Francisco, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda estrutura eclesial se converta ainda mais em uma ponte adequada para a evangelização do que para a autopreservação. A reforma de estruturas, que exige a conversão pastoral, só pode se entender nesse sentido: procurar que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral em todas as suas instâncias seja mais expansiva e aberta... em constante atitude de saída”.

c) Uma igreja de Lima sinodal que acompanha o caminhar de nosso povo
— Onde caminhamos juntos, conversamos com profundidade, e aprendemos uns com os outros, especialmente com os que não são do nosso círculo;
— Onde apreciamos o bom de cada aporte, de cada modo de ser e viver a fé;
— Onde todos participamos tendo em conta o valor de nossas diversidades.

d) Uma igreja de Lima que contempla ao seu Senhor
— Escutando a Palavra do Senhor;
— Reunindo-se em comunidade para celebrá-lo na Eucaristia e sair para anuncia-lo em qualquer circunstância;
— Rastreando sua presença na história dos limeños, em suas identidades e problemas, em suas buscas e alegrias.

e) Uma igreja de Lima que dinamiza a espiritualidade profunda da religiosidade popular
— Potencializando suas pegadas evangelizadoras;
— Discernindo os costumes agregados com o tempo.

f) Uma igreja de Lima sinal de credibilidade
— Que atua com transparência;
— Que afronta os problemas e não os esconde;
— Que reconhece seus erros, pecados e até delitos, se existem, e os enfrenta com toda justiça e verdade.

g) Uma igreja de Lima aberta à sociedade civil, suas buscas e pontos de vista laicais
— Explicando com clareza, pedagogia e respeito seus pontos de vista a partir da fé;
— Respeitando a legítima autonomia da sociedade civil, sem recorrer a nenhum elemento manipulador, nem interesse de partes, mas sim atendendo unicamente ao bem-comum.

h) Uma igreja de Lima que acompanha o sofrimento do seu povo, com sua ação social de serviço solidário e comprometido
— Para os setores mais pobres, canalizando para eles seus esforços em todos os âmbitos eclesiais de base;
— Procurando sempre o fortalecimento da dignidade humana e acompanhando e defendendo aqueles que sofrem injustiças: a mulher, as crianças, os jovens, os idosos. De maneira especial, a ação da Igreja há de se exercer na defesa e em tomar partido a favor das vítimas, sobretudo dos menores, e contra os abusadores do clero e de seus encobridores. Nunca a igreja, e menos ainda a hierarquia eclesial, pode ser cúmplice dos abusadores e dos abusos! Sem transparência, a Igreja não pode ser crível! Por isso deve se adiantar em denunciar e expor os fatos graves e escandalosos.

i) Uma Igreja que, desde uma coerente pastoral urbana, responda às exigências do cuidado da Casa Comum com uma ecologia integral que proteja a natureza e as comunidades, sobretudo as mais vulneráveis
— Isso nos manterá atentos às necessidades dos bairros e localidades, que se fizeram insalubres para viver pelo crescimento desordenado, a contaminação tóxica, o caos urbano, os problemas de transporte e a contaminação visual e acústica (Cf. Laudato si, 44).

j) Uma Igreja que promove um laicato sensível, sério, responsável e alegre
— Que participa das buscas mais profundas e se faz instrumento das aspirações justas de toda cidadania;
— Que não permanece indiferente, mas sim que fortalece todo o bom nobre e justo da causa social e política.

k) Uma igreja que organiza sua economia ao serviço da ação pastoral e da promoção e defesa da dignidade humana
— Mais próxima à mentalidade de serviço;
— Mais distante de uma mentalidade comercial, lucrativa ou da eficiência empresarial.

3) Um bispo turibiano na atualidade da nossa história

Essa igreja requer qual bispo? Como quer que sejamos nós, bispos peruanos, em especial na nossa arquidiocese primaz? Francisco nos deu as diretrizes para sermos bispos renovados, e esse é o desafio da minha missão para vocês e para o povo de Lima: assumir o estilo missionário de Turíbio.

— Estou chamado a ser um bispo que olhe à “outra margem” e que queira, decida e busque sempre passar para ela sem temor.

— Isso me exige conversão espiritual e pastoral para uma decisão livre, que diante tudo reconheça e aprecie o valor dessa “outra margem”, e do povo que ali vive e luta, essa realidade “outra” que muitas vezes desconhecemos. A essa “outra realidade”, de tantos e tantas irmãs e irmãos nossos hei de anunciar o Evangelho. Porém, não sem antes compreender sua realidade, dialogando com ela, para somente assim, responder criativamente e em profundidade às suas necessidades. Hei de ir com o Evangelho, porém sabendo claramente que Jesus já mora no outro, inclusive naquele que não crê explicitamente, ou crê da sua maneira – por algum motivo é! –, e procurando primeiro compreendê-lo. A evangelização não se impõe, se dialoga com o Cristo presente em todas as realidades humanas com as quais nos relacionamos.

— Buscar a outra margem dos distantes e dispersos exige estar disposto a sair às ruas como Turíbio, e “gastar as solas”. Hei de me acostumar a caminhar para todos e todas, sem excluir ninguém, buscando os mais recônditos, distantes e espalhados. Nisso deve estar unida essa sede metropolitana às dioceses sufragâneas, como uma só província eclesiástica, dinâmica ao serviço de nossos povos do Callao, Carabayllo, Chosica, Huacho, Ica, Lurín, Yauyos e Cañete.

— Buscar a outra margem das culturas e línguas de nossos povos, com sua extraordinária diversidade de experiência e sabedoria, que deve renovar o que já sabemos e consideramos verdadeiro. O papa Francisco nos recordou que Turíbio não fez uma evangelização superficial, mas sim que, conhecendo sua cultura e sua língua, penetrou nos níveis mais profundos. Ele nos segue enviando hoje para aprender as línguas e as linguagens do século XX, a dos jovens, a das famílias, a das crianças, a das comunidades de migrantes, internos e externos. Assim, passar à outra margem não consiste em ir conquistas territórios nem pessoas, mas sim compreendê-los para suscitar e despertar processos em suas vidas, de modo que a fé arraigue nelas de forma duradoura. Para ele é preciso voltar-nos para aquelas experiências humanas e sociais onde se gestam os novos relatos e paradigmas, especialmente as experiências das jovens gerações, para poder alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma de nossas cidades e povos. É ali onde se geral, desde as condições mais difíceis, as alternativas resilientes e esperançosas, os novos relatos da humanidade peruana, que darão origem à atualização dos princípios e valores necessários para construir o novo Peru e a nova igreja peruana. Naturalmente, isso é tarefa sutil e amorosa de todos na igreja, mas sobretudo dos pastores, para suscitar uma igreja pastora.

— Diante da outra margem, da misericórdia e da justiça para com os vulneráveis, Francisco nos disse que todo bispo turibiano não pode estar longe da caridade unida à prática da justiça, pois do contrário não seríamos de Deus (1 Jo, 3, 10). Por isso, é o meu principal desafio aprender a constatar onde estão os abusos e excessos que sofrem muitos hoje pelo sistema de corrupção e ter clareza e firmeza contra esses. Sei que, como Turibio, isso nos poderá acarretar certar inimizades, porém é melhor que deixar sem correção aquilo que a requer. Pedimos a prudência e a contundência para não errar e para acertar com a palavra adequada e justa, em favor dos homens e mulheres maltratados injustamente. Não podemos separar o bem espiritual do bem material, sobretudo quando se põe em risco a integridade e dignidade das pessoas.

— Isso exige que, como bispo, unido a nossos irmãos bispos da Conferência Episcopal, exerçamos a profecia episcopal, que não teme denunciar as injustiças e anunciar a esperança, alentando a todos os que promovem o justo e o bom. Sem dúvidas temos de agradecer a profecia viva de nosso povo que sai às ruas a clamar pela vida das mulheres, a dos jornalistas que denunciaram com clareza os horrores da pedofilia e da corrupção, e a dos cidadãos que expressam seus justos protestos pelo dignificação da política. Eles nos ensinam também a dizer nossa palavra a partir de um Deus sem integrismo, mas com clareza profética. Vou estar alerta, no entanto, como indicou o papa Francisco, a qualquer “tipo de coquetel mundano que nos ata as mãos por algumas migalhas”, em busca da liberdade do Evangelho.

— Diante da outra margem, da formação sacerdotal turibiana, devemos insistir na importância do seu enraizamento na realidade para que cada palavra e cada gesto dos nossos pastores locais, diocesanos e religiosos, sejam significativos e elevem a vida de nosso povo. Nosso Seminário Conciliar de Santo Turíbio está chamado a seguir “engendrando aos seus pastores locais” para fazer de nossa igreja “madre fecunda”, que suscita a santidade desde a diversidade cultural que nos caracteriza os limeños e peruanos de todos os sangues. Mudanças importantes na formação devem ocorrer com o cumprimento das normativas que Francisco estabeleceu em seus recentes documentos e que nos deixou nas diretrizes de suas orientações em Trujillo e Lima. Não limitaremos a formação somente ao estudo no seminário, mas sim seguiremos o exemplo de Turíbio, que “nas contínuas visitas que realizava, estava próximo de seus padres, vendo diretamente seus estados e preocupando-se com eles, até o ponto de compartilhar seus bens”. Para isso, esforçar-me-ei em conhecer os meus sacerdotes, procurarei acompanhá-los, estimulá-los, admoestá-los para que sejam pastores e não comerciantes, e possam assim cuidar e defender os peruanos como filhos e filhas. Devo impulsioná-los a se aproximarem e a não ficarem no “escritório”, para que conheçam as suas ovelhas e elas reconheçam a sua voz de Bom Pastor.

— Por última, frente à outra margem, da unidade, hei de contribuir desde essa sede primaz para que fortaleçamos a unidade no Espírito de Jesus, que procurou sempre a diversidade de carismas e estilos, e fez crescer a unidade dentro da diversidade, sem uniformismos rigoristas nem homologadores. A verdade é uma, porém é o amor gratuito de Deus o que admite a todos e os leva à verdade plena. Para isso quero propor-lhes entrar em um processo sinodal permanente, que a todos nos reúna em distintos espaços interpessoais, a fim de conversar e nos deixar iluminar pela palavra da verdade e ir ao seu encontro juntos, pouco a pouco. Assim como Turíbio desenvolveu de maneira admirável e profética a promoção, formação e integração de espaços de comunhão e participação, em meio às grandes tensões e conflitos cuja existência não negou, assim também devemos aprender juntos, a olhar nossos problemas de frente e buscar resolvê-los em unidade, diálogo honesto e sincero, cuidando de não cair em tentação de ignorar o acontecido ou ficar sem horizontes, nem caminhos para a unidade. Esforcemo-nos, pois, para que a unidade prevaleça sobre o conflito, porque se nos devemos a Jesus Cristo, o que não une, não vem de Deus. E se apreciamos tudo o que vem de Deus, podemos nos unir nele. Que o povo peruano diga de nós “olhem como se amam”.

Ao final dessas palavras e no entardecer da minha vida, peço para que quando tenha que passar à outra margem, a definitiva, também me dê o Senhor a graça de passar para Ele, pelo caminho dos desamparados, que Turíbio atravessou deixando sua vida em Zaña. Enquanto chega esse dia, nos resta muitíssimo por abrir, viver, levantar e amar.

Conclusão

Quero nessa ocasião deixar-lhes minhas primeiras perguntas simples e diretas para que comecemos nossa missão juntos desde hoje, dialogando. Francisco disse que as perguntas nos dinamizam, enquanto as respostas nos estancam. Por isso, como bispo, deve fazer a pastoral da escuta. E por isso quero escutar. Para dinamizar espiritualmente a nossa igreja de Lima lhes deixo as três primeiras perguntas e lhes consulto:

1) O que sentes, no mais profundo do teu ser, que deve melhorar em nossa igreja de Lima?
2) Que periferias principais atenderemos?
3) Que formas deve tomar nossa igreja missionária em Lima para ser sinal de esperança?

Discutam-nas em grupos e comunidades, congregações e movimentos, reunamo-nos entre padres, párocos, amigos e amigas. Debatam e me enviem seus resumos. Porém não somente os católicos; podem nos ajudar também os que pertencem a outros grupos religiosos se o desejam, e sem dúvida os que não creem, que as vezes sentem mais os problemas que os crentes explícitos.

Quisera assim voltar a semear a semente do Reino que produz fruto sem que o camponês note. Essas perguntas apontam a uma igreja aberta na qual todos tem lugar e todos podemos ajudar. Retomamos assim também o que nossa Igreja latino-americana semeou em Medellín há 50 anos, o projeto de uma Igreja, “pobre, missionária e pascal”, como quis representar em meu brasão.

Se isso começamos hoje, talvez vejamos os frutos muito tempo depois, porém saberemos que o Reino está próximo, não longe. Deus habita em Lima e perguntando o encontraremos. Reconheçamo-lo em nossas vidas e nas do povo simples. Se abrirá assim o ano da graça do Senhor, porque o Senhor ungiu o seu povo para anunciar o Evangelho aos pobres e aos cativos a liberdade, ou para dizer com o maior poeta peruano, [Nota de IHU On-Line: refere-se a César Vallejos, 1892-1938] ao qual cito dado a proximidade do bicentenário da nossa independência:

Entrelaçando-se falarão os mudos, os aleijados andarão!
Verão, já de imediato, os cegos
E palpitando escutarão os surdos!
Saberão os ignorantes, ignorarão os sábios!
Serão dados os beijos que não puderas dar!
Somente a morte morrerá! A formiga
trará pedacinhos de pão ao elefante enjaulado
à sua brutal delicadeza; voltarão
as crianças abortadas a nascer perfeitas, espaciais
e trabalharão todos os homens,
engendrarão todos os homens,
compreenderão todos os homens!

Dom Carlos Gustavo Castillo Mattasoglio
Arcebispo de Lima e Primaz do Peru

Notas de IHU On-Line:

— O vídeo da posse do novo arcebispo de Lima, com a presença de Gustavo Gutiérrez, pode ser visto aqui e abaixo. O discurso programático de dom Carlos Castillo pode ser visto e ouvido no mesmo vídeo, a partir de 2:45:43.

— A íntegra do discurso programático de dom Carlos Castillo pode ser lido na íntegra, em espanhol, aqui.


Entrega do báculo de Juan Landázuri Ricketts, OFM, arcebispo de Lima e um dos presidentes da Conferência de Medellín (1968). A entrega do báculo é feita por dom Luis Bambarén, SJ, bispo emérito de Chimbote, Peru e ex-presidente da Conferência Episcopal Peruana. strong>Bambarén fora bispo auxiliar de Lima nos tempos de Landázuri Ricketts. Foto: La Republica

— Um momento de muita emoção no rito de posse do novo arcebispo de Lima, é a imposição das mãos de dom Bambarén. O momento pode ser visto no vídeo, 1:05:00

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