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29 Outubro 2018

Com a assembleia do sínodo o Papa deu mais um passo em direção à reforma da Igreja. Mas todos os bispos estão juntos dele?

O comentário é de Robert Mickens, publicado por La Croix International, 26-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o texto.

A XV Assembleia Ordinária Geral do Sínodo dos Bispos sobre a Juventude, a Fé e o Discernimento Vocacional termina neste fim de semana e, independentemente do que o documento final contiver, já se pode começar a desenhar um balanço do que aconteceu nesses 25 dias de eventos e encontros.

Os críticos do papa Francisco já estavam céticos antes mesmo do evento começar no Vaticano no dia 3 de outubro. E, à medida em que as sessões aconteceram nas últimas semanas, eles dispensaram grande parte das discussões por as considerarem um pouco exageradas.

Alguns deles acusaram o papa — que é o presidente do sínodo — e seus principais ajudantes da secretaria geral do sínodo de “fraudar” a assembleia sobre a juventude, bem como denunciaram Francisco e seus apoiadores por terem “alterado” os procedimentos e os resultados de outras duas assembleias (sobre o casamento e sobre a família) que ocorreram no seu pontificado.

Mesmo pessoas leais a Francisco, como o cardeal indiano Oswald Gracias, membro do conselho C9, levantaram dúvidas sobre o processo que estava sendo aplicado — ou ignorado — nessa última assembleia do sínodo. (Entraremos nesse assunto em seguida).

Mas, como já foi discutido aqui, o encontro tem sido “apenas um passo numa jornada longa e transformadora”, marcando “mais um momento necessário no caminho para a reforma radical das estruturas de governo eclesial para que possa ocorrer uma ‘conversão’ do próprio papado.”

Afinal, quais são os primeiros resultados desse último encontro episcopal em Roma?

‘Sinodalidade’ ainda é algo mal-entendido

A primeira coisa que deve ser destacada é que o papa Francisco possui um grande desafio em resolver a confusão que muitos católicos têm sobre o que de fato é o Sínodo dos Bispos e o processo de sinodalidade que ele está tentando tornar parte da constituição da Igreja.

Alguns de seus críticos têm alertado que o papa estaria tentando tornar o processo de tomada de decisões da Igreja Romana algo similar ao modo como a Comunhão Anglicana funciona.

Eles temem que o papa esteja tentando “protestantizar” o catolicismo. Mas isso está baseado em seus não conhecimento da história e da verdadeira natureza da sinodalidade, a qual remete ao princípio da Igreja.

A ideia de Francisco sobre os procedimentos do sínodo está baseada na história e pode ser melhor notada nas Igrejas ortodoxas, algumas das quais têm sínodos que incluem a participação e até mesmo a autoridade dos leigos enquanto membros votantes.

Os críticos não estão sozinhos.

Mesmo alguns católicos que têm compromisso com a sinodalidade, incluindo tanto pessoas do clero quanto do laicato, têm um entendimento equivocado do que de fato isso significa.

Por exemplo, muitas pessoas — inclusive na secretaria do sínodo — continuam a se referir erroneamente ao “sínodo sobre a juventude” ou ao “sínodo sobre a família”, como se um sínodo fosse uma mera reunião particular.

Não. Há apenas um Sínodo dos Bispos na Igreja Romana. E ele é uma instituição permanente na qual o Bispo de Roma, sempre que desejar, convoca sessões (ou se reúne numa assembleia).

Bispos do mundo inteiro são escolhidos por seus pares ou indicados pelo papa para comparecer a tais assembleias, nas quais o papa (pelo menos até agora) convoca uma discussão por um tempo determinado e os introduz a algum assunto específico.

Isso não é inventar um problema semântico. Pelo contrário, é uma forma honesta de mostrar o que o sínodo realmente é.

Ninguém diz, falando sobre os órgãos legislativos de um país, que haverá um “parlamento” ou um “congresso” semana que vem, se diz que haverá “uma sessão do parlamento” ou uma “sessão do congresso”. Isso é porque ambos são instituições permanentes que têm reuniões convocadas de tempos em tempos.

O Sínodo dos Bispos, quando não está reunido em assembleia, está em uma espécie de folga. Mas não deixa de existir.

Isso fica claro pelo fato de que, entre as assembleias, um “conselho ordinário” de bispos continua se reunindo sob direção da secretaria geral, o órgão romano que coordena, planeja e guia o trabalho do sínodo sob a direção de seu presidente, o papa.

Mesmo que todos os bispos e católicos utilizem essa linguagem adequadamente, será muito complicado mudar a mentalidade da Igreja Romana e compreender o que de fato o Sínodo dos Bispos é.

Falando nisso, seria muito útil para os católicos ler o último documento emitido pela Comissão Teológica Internacional (ITC, na sigla em inglês)— “Synodality in the Life and the Mission of the Church” (A Sinodalidade na Vida e na Missão da Igreja, em tradução livre)

Na maior parte do documento, são expostos os fundamentos e se explica a racionalidade por trás da Episcopalis communio, a constituição apostólica que o papa Francisco lançou recentemente para renovar e reformar o funcionamento do Sínodo dos Bispos.

É uma lástima que o papa não tenha tornado essa uma leitura obrigatória para todos os líderes da Igreja.

A assembleia do sínodo foi “fraudada”?

Talvez esse seja o motivo pelo qual Francisco — ou mesmo o secretário geral do Sínodo — decidiu inserir seções longas e determinantes em relação à sinodalidade no atual documento final da assembleia, apesar do fato de que muitos bispos alegam não terem tido nenhuma discussão real sobre isso nas últimas três semanas.

E isso fez com que críticos do papa, como o veterano vaticanista Sandro Magister, sugerissem que o Sínodo tenha sido novamente fraudado, com decisões predeterminadas de acordo com o que Francisco deseja.

“Os dois sínodos sobre a família de 2014 e 2015 estiveram entre os mais deliberadamente tendenciosos da história,” disse Magister, notando que isso provocou protestos por parte de alguns bispos.

Ele não deixa muito claro que está sugerindo a mesma coisa para a assembleia sobre a juventude desse ano, mas certamente está querendo dizer isso.

“Por estatuto, o papa nunca intervém na elaboração do documento final, o qual, pelo contrário, deve ser ‘oferecido’ a ele no final do sínodo,” escreve Magister. “Mas dessa vez Francisco mudou as regras, visando acompanhar a composição do texto o mais de perto possível,” afirma ele.

Isso não está exatamente correto. Dê uma olhada no artigo 17 do Episcopalis communio:

“Para a elaboração do documento final, uma comissão especial é formada, que consiste no redator geral, que chefia a comissão, no secretário geral, no secretário especial e em alguns membros escolhidos pela assembleia do sínodo levando em conta as diversas regiões, bem como outros membros indicados pelo Pontífice Romano”.

Com certeza o Pontífice Romano pode “indicar” a si mesmo para fazer parte de qualquer processo que ocorre na assembleia. Ele é, acima de tudo, o presidente do sínodo.

Mas, ainda, a impressão de que o papa “mudou as regras” mostra desconfiança. Não é útil para Francisco quando um de seus conselheiros mais confiáveis começa a questionar sobre seu alegado envolvimento na inserção de elementos no documento final.

“Houve alguma resistência quando o documento foi divulgado porque ele fala muito sobre sinodalidade enquanto nós nem discutimos isso de fato, é verdade,” disse o Cardeal Oswald Gracias, que é membro do comitê de elaboração do documento.

Ele concordou que isso só iria alimentar conspirações de que a assembleia foi fraudada, mas sugeriu uma explicação de por que o papa estava tão fortemente decidido a adicionar seções sobre sinodalidade no documento.

“O Santo Padre tem falado sobre sinodalidade, sobre caminharmos juntos, sobre a Igreja caminhar junta. É isso que ele tem dito desde o último sínodo,” afirmou o cardeal. Porém, ele estava claramente desconcertado por causa das mudanças no documento de seu comitê.

A secretaria geral do sínodo continua pisando na bola

Outra coisa que foi revelada nas últimas semanas em que o sínodo esteve reunido foi que o secretário geral possui um estranho hábito de criar confusão e questionar sobre o modo de funcionamento do sínodo.

Em primeiro lugar, é extremamente problemático e irresponsabilidade total do secretário que a “instrução” sobre os novos procedimentos definidos para serem seguidos durante a assembleia do sínodo seja um documento que exista apenas em italiano.

Há outras críticas que podem ser feitas sobre o texto, como a falta de detalhe ou a ampla e arbitrária autoridade que a instrução dá para o secretário geral do sínodo e sua equipe.

Mas o verdadeiro escândalo — no sentido de ser algo que realmente atrapalha — é que essas instruções foram divulgadas apenas dois dias antes da convocação da atual assembleia sobre a juventude.

Igualmente problemática foi a escrita do documento final da assembleia (que deverá ser votada no domingo).

É um documento de 54 páginas que existe em apenas uma língua. Sim, você acertou - é em italiano. Como pode alguém que não sabe a língua eventualmente criticar com responsabilidade, propor emendas ou votar em qualquer coisa que não consegue compreender por completo?

Oferecer uma tradução simultânea em áudio enquanto o texto é lido no saguão do sínodo é uma solução inadequada e um insulto aos membros da assembleia que não falam italiano.

O Sínodo dos Bispos, assim como toda a Igreja, é feito por pessoas de todas as nações, raças e línguas.

Deve-se fazer um esforço maior para permitir que todos participem nos processos do sínodo e na vida da Igreja em termos de se comunicar em línguas compreendidas pela maioria — senão por todos.

Os bispos ainda estão muito cautelosos

Francisco mudou radicalmente a dinâmica das assembleias do sínodo ao pedir aos bispos e aos outros participantes que falem com firmeza, sem medo de trazer à tona qualquer preocupação, não importa o quão controversa ela possa ser.

Mas os bispos, ao menos, têm sido tímidos demais para atender ao pedido do papa. A reação a uma sugestão para serem levadas em consideração as ordenações de homens casados que o bispo auxiliar de Bruxelas Jean Kockerols fez mostra esse problema com nitidez.

“Estou desapontado com a falta de reações,” disse Kockerols.

“Muitos bispos me procuraram nos intervalos dizendo ‘você está certo, deveríamos ir nessa direção,’ mas eu notei que o assunto nunca foi levado a sério pelos grupos,” disse ele.

O papel das mulheres

Mesmo que, aparentemente, tenham ocorrido discussões relevantes sobre dar às mulheres um papel mais importante na participação das decisões da Igreja, o tópico foi evidentemente mencionado de forma fraca e breve na elaboração do documento final.

Mesmo assim, o assunto continua.

Vários chefes de ordens religiosas masculinas, um número de irmãs religiosas e, é claro, os delegados da juventude questionaram publicamente sobre a lógica de continuar mantendo as mulheres virtualmente em segundo plano nas estruturas de autoridade da Igreja.

Muitos deles se deram conta que, se irmãos religiosos não-ordenados estão permitidos para votar na assembleia do sínodo, então as irmãs não-ordenadas deveriam votar da mesma forma.

“Devemos prestar atenção às perguntas frequentes e desconfortáveis por parte da juventude sobre os direitos iguais das mulheres, inclusive na Igreja,” disse o cardeal alemão Reinhard Marx.

“E pelo bem de nossa própria credibilidade, devemos envolver as mulheres em todos os níveis da Igreja, desde as paróquias até o nível das dioceses, da Conferência dos Bispos e também no próprio Vaticano, principalmente nas tarefas de liderança,” disse ele aos repórteres numa das entrevistas diárias.

Marx, que também é membro do conselho papal, C9, disse: “A ideia de que a Igreja, quando se trata de poder, é uma Igreja exclusivamente masculina deve ser superada

tanto na igreja universal quanto aqui no Vaticano. Caso contrário, as mulheres jovens não encontrarão nenhuma oportunidade real de participar conosco.”

Próximos passos da jornada

É visível para quase todo mundo que havia muita tensão nessa última assembleia do sínodo. Mas ela abriu, pelo menos um pouco, um meio de discussão entre os líderes da Igreja e os jovens.

Será importante encontrar maneiras a nível local — nas dioceses, nas paróquias e em outros lugares onde a Igreja está e quer estar — de replicar e realçar as experiências dessas últimas semanas em Roma.

O período de “recepção” ou de implementação das ideias da assembleia do sínodo será crucial. Talvez o documento final ofereça algumas sugestões úteis para chegarmos lá.

A Jornada Mundial da Juventude, em janeiro, no Panamá, será a primeira prova de fogo. Ainda que isso, da mesma forma, seja apenas um pequeno passo na longa e difícil jornada em busca de uma Igreja mais sinodal.

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