Grandes expectativas. O Papa Francisco e o Sínodo sobre a família

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16 Setembro 2014

"As pessoas se sentem distanciadas da Igreja por suas regras e leis relativas ao casamento e à moralidade sexual. As declarações da Igreja sobre as relações sexuais antes do casamento, a homossexualidade, as pessoas divorciadas e recasadas e o controle de natalidade 'nunca são praticamente aceitas', ou são 'expressamente rejeitadas'", escreve John Wilkins, jornalista ex-editor da revista católica inglesa The Tablet, em artigo publicado na Revista Commonweal, 10-09-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Um “papa reformador” foi a esperança de alguns de nós nos idos de 1978, depois de Paulo VI, quando a Igreja Católica pareceu engavetar as prescrições progressistas do Vaticano II sobre governança. Em vez do colégio papal e cardinalício na esteira dos apóstolos em torno de Pedro, uma monarquia absoluta se refirmou em Roma com o papado de João Paulo II. Um governo centralizado, observou com pesar o historiador Eamon Duffy, faz parte do DNA da Igreja Católica hoje.

Dado o reinado de João Paulo II, seguido pelo de Bento XVI, ninguém de nós realmente pensava que poderíamos ver um papa reformador ainda em vida. Mas, imaginávamos, caso aparecesse um papa assim, o lugar para ele começar o trabalho será o Sínodo dos Bispos. Ele deveria transformar este organismo, uma espécie de carimbador das decisões tomadas nos departamentos do Vaticano, numa estrutura ativa de governança. Este movimento, acreditamos, iria com certeza receber apoio maciço do episcopado mundial, a medida que seus membros se veriam, em suas dioceses, como vigários de Cristo novamente, bem como partilhando o cuidado para com toda a Igreja.

Entra o Papa Francisco e, de fato, começa com o Sínodo. Num golpe pastoral tipicamente astuto, para os encontros no mês de outubro escolheu um assunto que diz respeito a todo o povo de Deus: a família. O Sínodo não é simplesmente um encontro dos bispos em Roma. Ele tem a ver com todos nós: vivemos uma época em que um enorme abismo se abriu entre a doutrina da Igreja sobre sexo, casamento e família e a prática de muitos católicos. No turbilhão do Concílio, a “conspiração” ou respiração unificada que, segundo John Henry Newman, deveria caracterizar as relações entre o papa, os bispos, padres, religiosos, leigos e leigas foi interrompida, em detrimento do poder florescente e evangelizador de toda a Igreja.

Mas será que os bispos irão se levantar? Se sim, o que dirão? Francisco pediu para que se dê uma atenção especial à exclusão da comunhão dos católicos ou católicas que se casaram após o divórcio e cujo antigo parceiro ainda está vivo. Durante 35 anos, no entanto, este assunto esteve fora de questão. Foram escolhidos bispos que iriam firmemente defender a doutrina moral católica mais rígida possível.

No Sínodo anterior sobre a família, presidido por João Paulo II em 1980, os dois mais destacados líderes da Igreja Católica na Inglaterra e no País de Gales, o cardeal Basil Hume o Derek Worlock, deram o seu melhor. Eles tinham a pouco chegado de um congresso nacional sobre pastoral, ocorrido em Liverpool, idealizado por Worlock e que contou com a participação de milhares de delegados. Os dois receberam a incumbência de levantar certas questões ao Sínodo sobre a proibição contra o uso de métodos contraceptivos e a exclusão da comunhão dos católicos divorciados e recasados.

Antes do Sínodo, os dois visitaram João Paulo II. O cardeal Hume levou consigo uma cópia do relatório do congresso no qual marcara seções importantes a serem observadas. Ao abrir o relatório exatamente onde queria, alcançou-o para o papa e lhe pediu que lesse a passagem sobre a contracepção. Sim, sim, disse o João Paulo II, deixando o texto de lado.

Já fazia muito tempo que ele tinha se decidido sobre o assunto.

No próprio Sínodo, um grupo de leigos escolhido a dedo exaltou as virtudes do planejamento familiar natural. De sua parte, Hume disse ao Sínodo que tinha cochilado durante os desenvolvimentos do encontro e que teve um sonho. A Igreja peregrina andava mancando ao longo da estrada, seguindo placas castigadas pelo tempo cujas tintas e indicações estavam desaparecendo. Percebeu que aquele insight de Paulo VI em sua encíclica Humanae Vitae, de 1968, contra o uso de métodos contraceptivos estava certo, mas as pinturas nas placas sinalizadoras estavam dificultando a sinalização.

O sonho é suscetível de várias interpretações, mas, no fundo, Hume quis dizer o que o seu colega – o cardeal Carlo Martini – afirmara numa entrevista em 1993, que o ensinamento da encíclica deveria ser melhor explicado. Mais tarde, tendo se aposentado da sé de Milão e tendo ido morar em Jerusalém, Martini foi explícito. Disse que estava convencido de que “as lideranças da Igreja podem nos mostrar um melhor caminho do que aquele que nos deu a Humanae Vitae”. O papa não poder voltar para trás na encíclica, mas “pode escrever uma nova”.

Coube a Derek Worlock discursar ao Sínodo sobre o assunto dos católicos divorciados e recasados. Ao longo dos anos, a honestidade, clareza e coragem da sua apresentação ainda se destacam. O rompimento de um casamento era um infortúnio trágico, dizia, um infortúnio que exige da Igreja um “ministério da consolação de cura especial”.

Os católicos cujo primeiro casamento pereceu poderiam se encontrar numa “segunda união mais estável e, talvez, mais madura”, a qual poderia ter “muitas das qualidades desejadas pela família cristã”. Embora reconhecendo que esta união fosse irregular aos olhos da Igreja, muitos todavia não consideram estar “vivendo em estado de pecado”, mas sim “que amam a Deus e que poderiam, de alguma forma misteriosa, estar vivendo segundo a sua vontade, mesmo se contra ou fora da legislação da Igreja”. Muitos deles “anseiam pela comunhão eucarística plena”.

Worlock lidou com a alegação de que um relaxamento das regras encorajaria a infidelidade. Esta não era a opinião da maioria dos casais, observou ele logo em seguida. Estes viam a fidelidade como um valor cristão em seu próprio direito, que não precisava do apoio das sanções. O Sínodo poderia ouvir estes leigos.

Hume e Worlock não conseguiram chegar a lugar algum. A máquina sinodal, operada pela Cúria Romana, passou por cima deles. Quando as reflexões de João Paulo II sobre o evento apareceram em 1981 na exortação apostólica “Familiaris Consortio”, a maioria dos comentadores acharam que o conteúdo teria sido o mesmo se o Sínodo não tivesse se encontrado.

Na medida em que o longo e histórico papado de João Paulo II de desenrolava, a doutrina da Igreja sobre o sexo, o casamento e a família se tornava mais intimamente ligada à autoridade papal. Houve a especulação de que o papa desejou invocar a infabilidade com relação à doutrina da ética sexual. Em vez disso, o teólogo que era o seu braço direito, Joseph Ratzinger, desenvolveu a categoria da “doutrina definitiva”, que não é infalível, e que, no entanto, é irreformável. O canonista jesuíta, Ladislas Orsy, que travou um diálogo sobre o assunto junto ao cardeal Ratzinger o qual posteriormente foi publicado, diz hoje: “Não infalível mas que não pode ser mudado? Imagine uma coisa dessas!”

Esta nova categoria doutrinal é, sobretudo, uma defesa da doutrina presente na “Humanae Vitae”, embora Paulo VI tenha deixado claro à época, através de seu porta-voz, de que a encíclica não era infalível. Logo, ela pode ser revisada. Mas isso significaria derrubar a categoria recentemente imposta de uma doutrina, ou ensinamento, definitivo.

Poder-se-ia perguntar: Por qual autoridade foi primeiramente afirmada a existência da “doutrina definitiva”? Foi por uma autoridade infalível? Autoridade definitiva? Autoridade não definitiva?

O Papa Francisco está convidando os bispos a percorrerem com ele um caminho diferente. Não é sua missão, repete ele, mudar a doutrina. “A doutrina da Igreja está clara, e sou um filho da Igreja”, disse ele a Antonio Spadaro, editor da La Civiltà Cattolica, na primeira de uma série de entrevistas fascinantes que deu. Pelo contrário, “a primeira reforma precisa ser de atitude”. Desde os seus primeiros momentos como papa ele tem mostrado a que veio, derrubando a expectativa geral de que as notícias envolvendo a Igreja sempre serão notícias más e dando início à mais duradoura lua de mel com a mídia de que se sabe. O seu princípio guia era que “a proclamação do amor salvífico de Deus vem antes dos imperativos morais e religiosos”, enquanto que “hoje às vezes parece ser é a ordem inversa a que prevalece”.

Aqui o papa torna-se um pregador evangélico: “A coisa mais importante é a primeira proclamação: Jesus Cristo o salvou”. Ele quer que a Igreja reflita a misericórdia que ele próprio tem vivenciado. Na apresentação de um livro, em 2001, enquanto era arcebispo cardeal de Buenos Aires, fez uma afirmação surpreendente: “Somente alguém que encontrou misericórdia, que foi acariciado pela ternura da misericórdia, é feliz e confortável com o Senhor... Arrisco a dizer que o locus privilegiado do encontro com o Senhor é a ternura da misericórdia de Jesus Cristo para com meus pecados”.

É óbvio como esta prioridade da misericórdia poderia estar presente nas deliberações do próximo Sínodo. Se a Igreja for “um hospital de campo após a batalha”, para usar as palavras do Papa Francisco, ela deve trazer cura, tal como pediu Dom Worlock no começo da década de 1980. Francisco quer que os bispos falem em nome de seu povo. Ele gosta de usar a analogia de Abraão e Moisés suplicando a Deus por Israel.

A abordagem de Francisco não está de acordo com a teorização abstrata. Ele é um pastor que lida com as realidades das vidas humanas. A sua imagem preferida da Igreja é precisamente aquela que o Vaticano II também preferiu: a do “Povo de Deus”, que praticamente desapareceu de vista após o Sínodo de 1980, desde que as autoridades a consideraram demasiado democrática.

O papa antevê reformas estruturais e organizacionais também, e já deu passos para tornar o Sínodo dos Bispos um organismo mais eficaz. Deve haver dois encontros inter-relacionados: o primeiro é neste mês de outubro (“extraordinário”, envolvendo principalmente os presidentes das conferências episcopais, autoridades vaticanas, algumas nomeações do papa e cerca de 40 observadores, dos quais mais da metade será formada de casais), e o segundo no mês de outubro de 2015 (“ordinário”, reunindo uma representação mais ampla do episcopado).

Numa entrevista ao Catholic News Service, em Roma, o cardeal Lorenzo Baldisseri disse que os procedimentos do sínodo foram reformados. Em vez de se ler discursos durante a primeira fase, os participantes com direito a voto no Sínodo submeterão trabalhos com, pelo menos, duas semanas de antecedência. O relatório inicial compilado pelo cardeal Péter Erdő, primaz da Hungria, será feito com base nestas submissões, e não no documento preparatório divulgado no começo deste ano chamado “instrumentum laboris”.

Os bispos farão, então, breves apresentações, destacando um tema de seus trabalhos e talvez levando em consideração as contribuições de outros. Enquanto isso, Erdő como relator vai ajustar o seu resumo inicial às questões apresentadas. Quando os bispos se dividirem em pequenos grupos, formados por idiomas, visando a segunda fase, eles não irão, como ocorria antes, forjar proposições para o papa assumi-las, mas trabalharão em recomendações ao trabalho de Erdő, que pode então se tornar o documento final para o Sínodo de 2015.

Uma das novidades bombásticas do Papa Francisco no período de preparação para os encontros sinodais foi lançar uma consulta mundial inédita sobre a experiência da vida familiar católica hoje, distribuída em outubro de 2013. O questionário abordou vários assuntos envolvendo sexo e casamento, incluindo questões que, antes, eram tabus. Suas perguntas endereçaram-se aos bispos, pedindo que descrevessem as opiniões e práticas das pessoas em suas dioceses bem como suas próprias iniciativas catequéticas. (Conseguiu-se propor estilos de oração em família, capazes de resistir à complexidade da vida e da cultural contemporânea?) A forma para se reunir estas informações ficou a cargo dos bispos em particular; a eles foi pedido que respondessem dentro de um prazo apertado, o que acabou deixando pouco tempo para que se desenvolvesse uma versão da consulta endereçada diretamente aos leigos. Algumas dioceses disponibilizaram o questionário em suas paróquias ou online. Os que responderam sabiam que, pelo menos, lhes foi dado uma oportunidade de tornar os seus pontos de vista – e aproveitaram a oportunidade.

Em muitos países os resultados foram mantidos em segredo, porém a conferência episcopal alemã publicou um extenso resumo via assessoria de imprensa. O texto é amplo e franco. Segundo nota divulgada à imprensa, as respostas mostram que a maioria dos católicos na Alemanha aceitavam o casamento como um sacramento do qual se deveria esperar ser uma relação para toda a vida. Na sociedade alemã, continuam sendo “grandemente apreciados” os casais que vivem relacionamentos estáveis e bem sucedidos. Talvez de modo inesperado, o que a Igreja oferece como serviços de aconselhamento sobre o casamento, a família e as situações da vida foram avaliadas muito positivamente.

Porém as pessoas se sentem distanciadas da Igreja por suas regras e leis relativas ao casamento e à moralidade sexual. As declarações da Igreja sobre as relações sexuais antes do casamento, a homossexualidade, as pessoas divorciadas e recasadas e o controle de natalidade “nunca são praticamente aceitas”, ou são “expressamente rejeitadas”, até mesmo em círculos onde a doutrina da Igreja era conhecida. Do lado de fora da Igreja, a doutrina sexual católica era vista como sendo “uma moralidade da proibição”, que foi julgada como sendo “incompreensível e não realista”. A base do direito natural da moralidade sexual católica, que relaciona amor, sexualidade e procriação, não desempenha papel algum dentro da Igreja ou na sociedade em geral, segundo a nota divulgada à imprensa.

A recusa da Igreja em reconhecer o status social e jurídico das uniões homoafetivas foi vista como discriminação. Embora os católicos na Alemanha rejeitem, em grande parte, a “abertura do casamento a casais do mesmo sexo”, eles tendem a considerar o reconhecimento das uniões civis, e seu tratamento igual perante o matrimônio, como “um mandamento de justiça”.

A coabitação antes do casamento foi dito como sendo “quase que universal”. Quase todos os casais que desejaram se casar na Igreja tinham vivido juntos antes por alguns anos. Muitos consideraram ser “irresponsável” não fazer assim.

Membros comprometidos da Igreja que se divorciaram e casaram pela segunda vez vivenciaram, muitas vezes, um “sofrimento considerável”, nas palavras do comunicado à imprensa. Eles se sentiram como se “estivessem sendo discriminados e marginalizados” ao serem excluídos dos sacramentos. Muitos decidiram deixar uma instituição que consideraram ser “implacável”. Poucos pensaram que um processo de anulação simplificado poderia ser uma reposta. A maioria aceitou que o casamento deles fracassou, e acharam que seria “desonesto” fingir que nada disso tinha acontecido, como se jamais tivessem sido casados.

O relatório fornecido à imprensa sublinhou o efeito adverso sobre os casais católicos divorciados e recasados que foram excluídos da Comunhão. Houve a “impressão generalizada” de que o tratamento deles fora discriminatório e “impiedoso”. A exclusão se tonou “particularmente dolorosa” quando os seus próprios filhos fizeram a Primeira Comunhão. Muitas vezes, estas crianças não deram continuidade a prática religiosa, dado que não tinham “um exemplo de pais vivendo uma comunidade eucarística”.

A proibição do uso de métodos contraceptivos não foi observada. O comunicado de imprensa reconheceu que a geração mais jovem nada sabia da “Humanae Vitae”, que dividiu a Igreja quando foi publicada em 1968. Somente a geração mais velha se lembrou das batalhas daquela época. A distinção entre métodos “naturais” e “artificiais” de controle de natalidade foi “rejeitada pela grande maioria dos católicos como sendo incompreensível”. Uma minoria de menos de 3% foi a favor do planejamento familiar natural, muitas vezes por motivos médicos. Na sociedade, a proibição da Igreja para com o uso de camisinhas na qualidade de um profilático contra a Aids foi considerada como “flagrantemente imoral”.

Tais resultados deveriam chamar a atenção dos bispos na medida em que o Sínodo se aproxima. Não que a mentalidade europeia seja universal. Segundo uma pesquisa feita em nível internacional, estas questões se refletem, em graus variados, nos EUA e na América Latina, enquanto que que na África 4 de cada 5 católicos concordam com a recusa da Igreja sobre a comunhão a pessoas recasadas. Mas os bispos alemães, via comunicado de imprensa que divulgaram, deixam claro que novas abordagens no campo da sexualidade e do casamento são “indispensáveis”. A Igreja precisa encontrar formas para transmitir, “de maneira atraente”, a sua mensagem central de uma “afirmação incondicional de vida e corpo”.

O movimento seguinte do Papa Francisco foi convocar um consistório especial em Roma. No último mês de fevereiro, cerda de 160 cardeais ouviram um discurso de duas horas sobre o “Evangelho da Família”, feito a convite do papa pelo cardeal Walter Kasper (posteriormente publicado). A análise feita e suas propostas pastorais atraíram reações fortes a favor e contra.

Kasper tratou das realidades da vida moderna. A cultura de consumo e as pressões econômicas estão esmagando a unidade familiar, célula básica da sociedade. Ele colocou no centro o lar familiar, considerado como uma “igreja doméstica”. Falou sobre como a Igreja poderia ajudar na cura de famílias feridas, mas também discursou sobre como a Igreja deveria tratar os católicos cujos casamentos fracassaram por um ou outro motivo.

Kasper fez uma distinção entre o direito, que estabelece uma regra geral, e casos particulares, cada um dos quais é singular. Se uma mulher abandonada pelo seu marido se casa novamente fora da Igreja, talvez para o bem dos filhos, será que a Igreja deveria dizer a ela que jamais poderá receber a Eucaristia a menos que termine com o segundo casamento? O Papa Bento XVI teria declarado que pessoas em tais situações poderiam receber uma comunhão espiritual. Mas isso significaria que ela estaria em conformidade com Jesus Cristo, então por que não receber a comunhão sacramental, perguntou-se Kasper. Será que eles estão preparados para deixar seres humanos passarem fome em termos sacramentais – e para que a Igreja perda seus filhos também – como um sinal para os demais? Será que a Eucaristia estava sendo apresentada como uma recompensa por bom comportamento, em vez de remédio para pecadores durante o trajeto penitencial deles?

Numa entrevista publicada na revista Commonweal (intitulada “Deus misericordioso, Igreja misericordiosa: “50% dos casamentos não são válidos”), Kasper disse:

“Os Padres da Igreja têm uma imagem maravilhosa: se houver um naufrágio, você não terá um novo barco para salvá-lo, mas receberá uma prancha para que sobreviva. Eis a misericórdia de Deus: ele nos dá uma prancha de forma que consigamos sobreviver. Esta é a abordagem que dou ao problema. Respeito os que têm uma posição diferente. Por outro lado, eles devem ver qual é a situação real que temos hoje. Como podemos ajudar as pessoas que enfrentam tais situações? Conheço pessoas assim; muitas vezes são mulheres. Elas se envolvem bastante na paróquia; fazem tudo o que podem para seus filhos. Conheço uma mulher que preparou sua filha para a Primeira Comunhão. O pároco disse que a menina pode participar na Sagrada Comunhão, mas não sua mãe. Falei isso para o papa, e ele disse: ‘Não, isso é impossível’”.

Francisco ficou satisfeito com a apresentação feita por Kasper ao consistório. Confidenciou que releu o texto numa noite, antes de cair no sono. Tinha ficado impactado com a sua “teologia serena”. Um pensamento lhe ocorreu – “fazer teologia de joelhos”, eis como foi chamado. E reiterou: “Obrigado, obrigado”.

A sua aprovação não foi partilhada pelo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Gerhard Müller, cuja opinião, como vem sendo frequente neste papado, foi no sentido exatamente oposto. “Estas teorias estão radicalmente equivocadas”, declarou o cardeal alemão numa longa entrevista que concedeu em junho, onde revisitou e desenvolveu os argumentos que fizera no ano passado, em artigo publicado no L’Osservatore Romano. Aí, disse que testemunhou “com certo sentido de espanto” os argumentos de certas pessoas de que a misericórdia de Deus deveria permitir que pessoas divorciadas e recasadas recebessem os sacramentos, como se Deus não fosse também inseparavelmente a fonte de santidade e justiça.

Círculos em Roma e alhures estão esperando um embate enorme neste Sínodo. Como Massimo Faggioli, historiador da Igreja, apontou num artigo intitulado “The Italian Job”, Francisco entrincheirou oponentes entre os bispos, especialmente “em seu próprio quintal”. Entre os que se sentem ameaçados com sua nova linguagem e estilo estão os “órfãos de Joseph Ratzinger, que consideram o caminho teológico conservador contra a modernidade como a única forma de salvar o Ocidente”.

Faggioli comparou os desafios que o Papa Francisco enfrenta à hesitação e oposição que João XXIII encontrou quando convocou o Concílio Vaticano II. É claro, observou o historiador, a diferença desta vez é que o papa anterior está vivo e bem, vestindo branco e morando no Vaticano. Os adeptos de Bento XVI têm, hoje, as mídias sociais a seu dispor, onde todos podem postar suas opiniões contrastando os dois papas, o que é uma desvantagem para Francisco.

Do lado de fora dos muros do Vaticano, a Igreja inteira está envolvida nesta discussão. Francisco percebeu isso. Da mesma forma, Kasper alertou o seu público. Não devemos pensar, disse ele, que tudo possa ser decidido pelos cardeais e bispos. Todos os que vão participar no consistório serão celibatários, afinal de contas. Mas a maioria dos fiéis vivem na fé em família. As famílias, em geral, enfrentam situações difíceis que os celibatários devem procurar entender. Os leigos e leigas têm “algo a nos dizer”, insistiu Kasper.

E realmente eles têm. A ex-presidente da Irlanda, Mary McAleese, vem morando em Roma nos últimos anos, onde tem estudado Direito Canônico. Numa entrevista em Dublin, usou uma linguagem notadamente franca vindo de um curso como este. Ela protestou dizendo que havia algo “profundamente errado e distorcido” em esperar que que um Sínodo dos Bispos decida sobre a doutrina católica a respeito da vida familiar. Ela acentuou o ataque que fez. “A própria ideia de que 150 pessoas que decidiram não ter filho algum, não ter famílias, não serem pais e não serem cônjuges – portanto, não têm experiência alguma de vida familiar como nós a temos – mas que irão aconselhar o papa sobre este assunto mesmo, é completamente maluca”. McAleese respondeu à consulta mundial sobre a opinião dos católicos com uma pergunta dela própria para o papa: “Quando daqueles que vão se reunir para assessorá-lo como papa sobre a família já trocaram fraldas de um bebê?”

Ela pensa que as chances de alguma mudança são “muito poucas”. Onde estão as mulheres no Vaticano que “daria fim a este clube de meninos”?

Não é resposta alguma protestar dizendo que a Igreja Católica não é uma democracia e que, portanto, está acima da opinião pública deste tipo. Ela contém elementos tradicionais profundamente enraizados, não sendo também uma ditadura. Trata-se de uma comunhão. Logo, é preciso levar em conta as opiniões de Mary McAleese e de outros, que são parte do “sensus fidelium”, a sensibilidade distintiva em matéria de fé exercida por todos os fiéis. Embora a Igreja sempre tenha insistido que a sua doutrina é feita de cima, e não debaixo, ela reconheceu, todavia, que o amplo sensus fidelium, com a doutrina da recepção mais específica – intimamente associada com ele –, desempenha um papel indispensável.

Durante cinco anos, a Comissão Teológica Internacional – CTI vem estudando o lugar do sensus fidelium na vida da Igreja, e em junho publicou um relatório, assinado pelo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Müller. Devemos ver a influência do Papa Francisco entre os dizeres finais do texto.

A CTI destaca o trabalho do Vaticano II em “acabar com a caricatura de uma hierarquia ativa e um laicato passivo, e em particular com a noção de uma separação rígida entre a a Igreja que ensina e a Igreja que aprende”. Para o Concílio, todos os batizados participam, na forma própria deles, nos três ofícios de Cristo como profeta, sacerdote e rei.

Tanto Kasper em seu discurso no consistório quanto a CTI se referem ao artigo de John Henry Newman, intitulado “On Consulting the Faithful in Matters of Doctrine” [Sobre consultar os fiéis em matéria de doutrina]. Ainda hoje, a ousada análise de Newman e sua brilhante exposição não perdeu a sua capacidade de impactar. Ao se focar na heresia ariana do século IV, provavelmente a mais perigosa que a Igreja enfrentou, Newman afirma que durante este período a tradição divina comprometida com a Igreja infalível foi proclamada e mantida muito mais pelos fiéis do que pelo episcopado; que o corpo do episcopado era infiel às suas comissões, enquanto que o corpo dos leigos era fiel ao batismo; e que foram os cristãos que deram apoio a grandes confessores solitários tais como Atanásio, o qual teria fracassado sem eles.

O polêmico artigo de Newman, que o colocou em apuros em Roma (“o homem mais perigoso da Inglaterra”, disse o monsenhor George Talbot), dá total credibilidade ao estudo da CTI. Newman demonstrou, diz esta Comissão, que os fiéis, enquanto distintos de seus pastores, tinham o seu próprio papel ativo a desempenhar na conservação e transmissão da fé. Para Newman, observa a Comissão, há algo na vida partilhada (conspiratio) dos pastores e fiéis “que não se encontra nos pastores apenas”. E a Comissão [Teológica Internacional] chamou a atenção também para o papel frequentemente negligenciado dos leigos no desenvolvimento “da doutrina moral da Igreja”.

E se a experiência dos fiéis “dificultar” a recepção da doutrina das autoridades eclesiásticas e mostrar “resistência” a ela? Então haverá um impasse. Este somente poderá ser desfeito se ambos os lados perceberem que é preciso pensar de novo. As autoridades precisam “refletir sobre a doutrina que tem sido apresentada e considerar se ela necessita de esclarecimentos e reformulações no intuito de comunicar, de forma mais eficaz, a mensagem essencial”.

A CTI preocupa-se em apresentar princípios, e não aplicá-los a questões específicas tais como as que os bispos vão considerar durante o Sínodo, mas muitos leitores dos texto irão fazer exatamente isso – e não só no contexto do divórcio e do casamento pela segunda vez.

Kasper, por sua vez, inspirou-se no artigo de Newman para compor as suas reflexões mais eloquentes, com as quais terminou o seu discurso aos cardeais. Ele os lembrou de que há “grandes expectativas” na Igreja – e também no mundo, poderia ele ter acrescentado. Se a Igreja não der os passos e sim permanecer onde está, isto poderá “causar um descontentamento terrível”. Como “testemunhas da esperança”, os participantes não devem deixar se levar pelo medo da mudança. Deixem mostrarem “coragem” e, acima de tudo, “candura bíblica”. E advertiu: “Caso não quiséssemos estas mudanças, então não deveríamos realizar um sínodo sobre este assunto, pois assim a situação ficará pior do que já era antes”.

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