''A Igreja deve aceitar se despojar para renascer.'' Entrevista com Timothy Radcliffe

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12 Junho 2014

Para o padre dominicano inglês Timothy Radcliffe, ex-mestre-geral da Ordem dos Pregadores, os cristãos, diante da escassez de vocações e de meios, devem se situar na crista desconfortável da fé em um Deus criador e da sua própria responsabilidade pelos fiéis.

A reportagem é de Céline Hoyeau, publicada no jornal La Croix, 07-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Que atitude espiritual é preciso adotar diante de uma Igreja que parece condenada ao declínio e à escassez de padres e de meios?

A história da Igreja da França está marcada por turbulências periódicas. O que aconteceu durante a Revolução (Francesa) foi muito mais dramático do que o que vivemos hoje: milhares de padres e de religiosos foram mortos. Depois, houve um renascimento totalmente inesperado. Ela passou de novo, há cerca de um século, de outro período terrível, com a expulsão dos religiosos do território. A vida da Igreja é marcada pela travessia de crises dramáticas. Isso não deve nos causar medo. Elas levam a uma vida nova. A crise atual é menor! O Espírito Santo vai trazer um renascimento, se o permitirmos.

Entre abandono à Providência e decisões realistas, como se situar diante do futuro da Igreja?

Inquietar-nos pelo amanhã pode nos paralisar. Devemos refletir sobre o que podemos fazer hoje, levando em conta o que vai acontecer amanhã. Não devemos permanecer parados diante daquilo que vem ao nosso encontro, mas assegurar que manteremos a iniciativa. Como mestre da Ordem, eu dizia às províncias em declínio: "Não se pergunte o que vocês precisam deixar de fazer, mas o que vocês têm vontade de fazer". Então, o poder criador do Espírito Santo nos renovará. Seria extremamente irrealista não levar em conta a criatividade muito real de Deus.

Podemos nos basear na frase que se ouve frequentemente: "Deus proverá"?

Deus proverá, sim, mas geralmente através de nós. Se eu rezo por uma intenção, pode apostar que eu mesmo devo ser a resposta à minha oração. Rezar e permanecer passivo, remetendo tudo a Deus, às vezes pode ser fruto de uma fé muito infantil, que nos priva da nossa responsabilidade.

Alguns bispos fecham seminários, fundem paróquias. Outros, ao contrário, acreditam que isso é um "pecado contra a esperança". O que o senhor pensa?

Eu não tenho nenhuma ideia. Nunca fui pároco, muito menos bispo. É claro que as decisões devem ser tomadas depois de ouvir o povo de Deus, mas eu não tenho uma opinião sobre se é melhor fechar as paróquias ou deixá-las abertas. Também pode ser que o próprio sistema das paróquias está ligado ao passado rural da Igreja, e que temos de imaginar outras maneiras de estar em comunhão uns com os outros.

O que podemos imaginar, justamente, para amanhã, para fazer de "outra forma", de forma "diferente"?

A tendência da Igreja, durante os séculos passados, consistiu em se defender contra a modernidade. Muitas vezes, manifestamos medo em relação a tudo o que era novo. A partir do Concílio Vaticano II, a Igreja começou a renunciar a essa atitude temerosa. Abandonamos essa atitude defensiva para nos engajar no caos do mundo real. É o convite do Papa Francisco. Os padres devem sair da sacristia, e, como uma comunidade, temos que acompanhar as pessoas nas suas lutas. Temos que nos confrontar com experiências sem ter medo de errar. Ao menos, se cometermos erros, vamos tirar lições disso!

O que devemos abandonar das nossas instalações, das nossas atitudes?

Por causa da sua atitude defensiva, a Igreja muitas vezes foi muito centralizadora, e o Vaticano dominou a vida da Igreja, tentando controlar mais do que o necessário. O cardeal Basil Hume [1923-1999, beneditino e ex-arcebispo de Westminster] sempre disse que a Cúria deve estar a serviço do governo da Igreja, assegurado pelo papa e pelos bispos, e não os bispos a serviço do governo da Igreja administrado pelo papa e pela Cúria. O Papa Francisco espera desfazer essas estruturas de controle excessivo, que podem impedir os impulsos livres do Espírito. Precisamos das instituições, é claro. Nenhuma comunidade pode existir sem instituições, nem mesmo um time de futebol. Mas o seu papel é o de responsabilizar os cristãos, e não de coagir.

Como se reorganizar? Essa situação leva a reformular as relações entre responsabilidade e sacerdócio?

Toda a sociedade saudável, assim como toda instituição, dá a palavra aos diversos membros da comunidade. Acima de tudo, precisamos encontrar a maneira de dar uma voz forte para as mulheres na vida e na tomada de decisões da igreja. Assim, eu acho que chegou o tempo de uma criatividade institucional, que possa nos ajudar a falar e a escutar uns aos outros. A nova organização do Sínodo dos Bispos, da forma como deve ser inaugurada em outubro, sobre o tema da família, deve contribuir para isso. O próprio Papa Francisco disse que é preciso repensar a forma de exercer o poder na Igreja, que esse poder não deve estar tão intimamente ligado à ordenação. Ele não quer clericalizar as mulheres, mas desclericalizar a Igreja. Nós nos queixamos da falta de vocações porque pensamos de forma muito restritiva em termos de vocações ao sacerdócio e à vida religiosa. São vocações magníficas, mas cada um tem uma vocação, um chamado a viver plenamente unido a Cristo e ao seu povo.

Em que sentido essa crise pode ser uma oportunidade para a Igreja?

Ao se aproximar da sua morte e da sua ressurreição, Jesus se despojou de muitas coisas. Não fez mais nenhum milagre, não estava mais no centro da multidão, uma figura cercada por apoiadores e admiradores. Ele se privou dos seus discípulos que o renegaram e fugiram. Finalmente, ele se despojou das suas vestes e subiu nu na cruz. Tudo isso abriu o caminho para o dom inimaginável da Ressurreição. Assim é com a Igreja. Nós nos despojamos da nossa reputação, da nossa autoridade, da nossa posição na sociedade, dos nossos membros. Mas devemos ousar acreditar que isso vai nos preparar para um novo nascimento por caminhos que não podemos antecipar. É uma época apaixonante para a Igreja de hoje. Trata-se de uma crise, evidentemente, mas não esqueçamos que houve a Última Ceia, que é o sacramento da nossa esperança.

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