“Escuta, Israel”. Reflexões sobre o Deuteronômio

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02 Setembro 2020

"Neste ano de 2020 as nossas atenções se voltam para o Livro do Deuteronômio. É um dos livros mais importantes do Antigo Testamento, por suas inúmeras citações nos outros livros na Bíblia Hebraica e no Novo Testamento. Deuteronômio se impôs como referência na teologia cristã por ser citado na pergunta a respeito do maior mandamento: “Escuta, Israel, o Senhor nosso Deus é Um, e amarás o Senhor nosso Deus de todo o teu coração", escreve Eliseu Wisniewski, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade do Paraná (PUCPR) e professor na Faculdade Vicentina (FAVI), Curitiba, Paraná, sobre o livro "Deuteronômio: Escuta Israel" [1] de Pe. Johan Konings e Ir. Zuleica Aparecido Silvano.

Eis o artigo.

Após o Concílio Vaticano II (1962-1965), a Bíblia se tornou uma das principais fontes de renovação da Igreja. No Brasil, com o objetivo de intensificar a presença da Palavra de Deus na ação evangelizadora, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 1978 aprovou o mês de setembro como “Mês da Bíblia”. Assim a cada ano, aprofundamos a mensagem viva e atual de um dos livros bíblicos fortalecendo a perseverança na vida das comunidades. Afinal, o Vaticano II deixou bem claro que a Palavra de Deus é palavra que chama, convoca e reúne a comunidades dos que foram chamados.

Neste ano de 2020 as nossas atenções se voltam para o Livro do Deuteronômio. É um dos livros mais importantes do Antigo Testamento, por suas inúmeras citações nos outros livros na Bíblia Hebraica e no Novo Testamento. Deuteronômio se impôs como referência na teologia cristã por ser citado na pergunta a respeito do maior mandamento: “Escuta, Israel, o Senhor nosso Deus é Um, e amarás o Senhor nosso Deus de todo o teu coração”.

Neste sentido, para auxiliar as reflexões sobre o Deuteronômio – a obra Deuteronômio: “Escuta, Israel” (Paulinas, 2020, 280 p.), organizada por Dr. Johan Konings e Dra. Zuleica Aparecida Silvano “objetiva oferecer uma chave de leitura” (p. 10). Cada capítulo deste livro é fruto do Grupo de Pesquisa “A Bíblia em Leitura Cristã”, da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), composta de pesquisadores, professores, mestres e doutores em Bíblia, não somente da FAJE, mas também do Instituto São Tomás de Aquino (ISTA-BH), da PUC-MG e da Fundação Dom Cabral, instituições estas sediadas em Belo Horizonte (MG), como também da Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (FCRN).

Foto: Divulgação/Capa do livro

Os elementos introdutórios do livro do Deuteronômio são abordados no primeiro capítulo: Deuteronômio: primeiro acesso de autoria de Dr. Johan Konings e Dra. Karina Coleta (p. 13-23). Aqui se descrevem a origem do livro (p. 14-16); sua estrutura e conteúdo são apresentados “através da metáfora do abacate com sua casca firme, polpa macia e o caroço no centro. A casa que recobre todo o fruto é representada pelo capítulo 1 até quase a conclusão do 4 (1discurso, 1-1-4,43), e depois continua de 28,69 a 30,20 (3 discurso). A polpa se estende de 4,44 até 11,32 e continua de 27,1 a 28,68 (2 discurso). E o caroço, envolvido pelas partes da polpa, são os capítulos 12 a 26)” (p. 17). O leitor encontra nas páginas 19 a 20 informações sobre a linguagem empregada no livro, a geografia e tempo. Os destaques teológicos são apresentados nas páginas 20-23: Moisés como o primeiro profeta, teologia da Aliança entre Deus e Israel, gratuidade no amor de Deus para o povo que ele elegeu, amor e fidelidade Àquele que é a nossa salvação etc.

A relação entre o Deuteronômio e a Historiografia Deuteronomista é o assunto do segundo capítulo (p. 25-61). Dr. Jaldemir Vitório mostra que o livro do Deuteronômio foi composto, originalmente, para servir de introdução à chamada Historiografia Deuteronomista, que compreende os livros de Josué até o Segundo Livro dos Reis. Entretanto, a Bíblia apresenta-o como parte do Pentateuco. Surge, então a pergunta: por que o Deuteronômio deixou de fazer parte da literatura histórica para integrar o bloco chamado de Torá? Como explicar a mudança do contexto histórico-narrativo para o contexto legal? Quais os elementos de conexão entre o Deuteronômio e a Historiografia Deuteronomista? (cf. p. 25-26).

A partir destas interrogações Jaldemir Vitório explicita o percurso literário, teológico, hermenêutico, tradicional do livro do Deuteronômio. A trajetória literária especifica o caminho pelo qual passou o Deuteronômio, até a sua formulação com a finalidade de introduzir a Historiografia Deuteronomista e servir de referencial teórico para a leitura teológica da história de Israel (cf. p. 27-30). A estreita ligação entre o Deuteronômio e a Historiografia deuteronomista deve-se ao fato de ter sido trabalhado para servir de introdução à leitura da história de Israel levado a cabo pelos deuteronomistas, no contexto da grave crise teológica desencadeada pelo exílio babilônico. O percurso teológico elenca diferentes temas presentes no Deuteronômio (a Aliança, um Deus e um povo, uma terra, uma Torá, um Templo), posteriormente aplicados na interpretação deuteronomista da história de Israel. São as chaves teológicas de interpretação usadas na elaboração da teologia narrativa deuteronomista (cf. p. 30-42). O percurso hermenêutico delineia o trabalho histórico-teológico dos deuteronomistas, no esforço de encontrar justificativas para o exílio babilônico, para além das leituras apressadas sem o devido discernimento. Os referenciais teológicos presentes no Deuteronômio permitiram aos deuteronomistas intuírem uma pista de resposta para os enigmas existenciais e teológicos do Israel exilado (cf. p. 43-49). O percurso tradicional, oferece duas diferentes explicações/hipóteses (Frank Crüsemann/Thomas Römer), de como se processou a passagem do Deuteronômio da tradição histórica para a tradição legal, de modo a fazer parte da Torá. Crüsemann explica essa passagem, considerando o contexto do exílio, quando os dominadores persas pediram aos judeus uma espécie de “constituição” para o povo, a ser reconhecida pelo império. Römer, por sua vez, faz alusão a uma espécie de acordo entre a escola deuteronomista e a escola sacerdotal, quando estava em fase de elaboração o que seria o Pentateuco (cf. p. 49-61).

A subdivisão do Código Deuteronômico em leis sociais é a abordagem do terceiro capítulo intitulado: As legislações sociais do Deuteronômio (p. 63-84), de autoria de Me. Francisco Márcio Bezerra dos Santos. Sabedores que o cuidado com os empobrecidos é um tema relevante para o pensamento bíblico, o autor observa as ressonâncias desta temática na tradição deuteronômica. No Código Deuteronômico a densidade social ganha mais força. As reflexões iniciais apontam a preocupação com os marginalizados como um dado relevante para a fé de Israel, dado sua experiência de opressão no Egito. As principais legislações sociais contidas no Deuteronômio nos orientam para um projeto em defesa dos marginalizados em Israel (cf. p. 64-68). Por isso, o livro de Deuteronômio é apresentado como um projeto de proteção aos empobrecidos a partir das várias legislações sociais contidas nesse livro. Iniciando com a centralização do culto e seus reflexos de cunho social, passando pela lei do dízimo, pela lei da remissão das dívidas e da libertação dos escravos, até chegar às festas de peregrinação – em cada uma dessas leis é possível encontrar traços de responsabilidade social ante os mais necessitados (cf. p. 68-76). Num terceiro momento são indicadas a lei da solidariedade e o intenso apelo de Yhwh para que não se endureça o coração diante das necessidades dos empobrecidos, como meio de superar a marginalização e a exclusão (cf. p. 77-80). A parte final deste capítulo aborda sucintamente a relação entre o culto e a vida como instrumento de superação da marginalização em vista da fraternidade proposta pelo Deuteronômio (cf. p. 80-82).

O Código Deuteronômico foi subdividido também em leis políticas. No quarto capítulo: As leis políticas (Dt 16,18-18-22), Dra. Zuleica Aparecida Silvano mostra que no centro do Código Deuteronômico (Dt 12-26) há uma seção destinada às figuras institucionais que formam o povo de Deus (Dt 16,18-18-22). Este é um elemento inovador desse código, ao ser comparado com o Código da Aliança (Ex 20,22-23-19) e com o de Santidade (Lv 17-26). Essas leis determinam em detalhes a função das diferentes autoridade, ao identificar e regulamentar as classes dirigentes e os responsáveis pela ordem judiciária, executiva e religiosa (cf. p. 85). O centro de interesse do Deuteronômio não é a de traçar uma estrutura de sociedade mas, é a preocupação com a perenidade da Torá e a fidelidade de Israel a esse ensinamento. Cada uma das classes dirigentes são, por isso, aprofundadas separadamente para melhor identificar as características de cada um: a) os juízes são os guardiões da Aliança (cf. p. 88-97), b) o rei é um irmão exemplar (cf. p. 97-100), c) os sacerdotes levitas representam Deus junto ao povo (cf. p. 101-103), d) os profetas são escolhidos para falar em nome de Deus (cf. p. 103-107). Portanto, o juiz interpreta a Lei, o sacerdote é responsável por preservá-la, o rei deve ser o exemplo do israelita fiel à Lei e o profeta tem a função de comunicar diretamente a Palavra de Deus.

O Código Deuteronômico foi subdividido, ainda, em leis referentes ao culto. Dr. Jaldemir Vitório, no quinto capítulo: As leis cúlticas do Deuteronômio (cf. p. 109-142), destaca que no Deuteronômio, o culto deve se orientar por normas bem estabelecidas, embora não obsessivas. Isso porque as leis cúlticas do Deuteronômio perderiam sua identidade caso fossem entendidas como manual de ritos religiosos ou de normas litúrgicas a serem rigorosamente obedecidas. Mais importante que o caráter cúltico é a preocupação sapiencial escondida nas entrelinhas da Lei deuteronômica. Em última análise, visam reforçar no coração do israelita fiel a consciência de focar a vivencia da misericórdia, do direito, da justiça e da fidelidade, pilares de uma sociedade justa e fraterna. O culto prestado a Deus só tem sentido se for respaldado por essa atitude básica. Mesmo quando não explicitado, cada lei cúltica serve para inspirar uma sabedoria de vida, em tudo aderente aos anseios de Deus para seu povo e para toda a humanidade (cf. p. 110-111). Diante disso, na legislação cúltica deuteronômica perpassa a insistência na centralização do culto em Jerusalém. Tudo quanto diz respeito à relação Yhwh-Israel, no tocante ao culto, acontecerá nesse espaço privilegiado em que habita a divindade (cf. p. 111-117), abrindo espaço para pensar nos oficiantes do culto, as lideranças das atividades cultuais, como seria o caso dos sacerdotes levitas (cf. p. 117-123). Destacam-se nas páginas 123 a 129 outras formas de cultuar Deus, o consumo cúltico de carne (cf. p. 129-131), a rejeição dos cultos idolátricos (cf. p. 132-135), o primogênito dos animais como propriedade de Yhwh (cf. p. 135), as festas cúlticas (cf. p. 136-138), os impedimentos para participar do culto (cf. p. 139-140) e a pureza cultual no acampamento (cf. p. 140-141).

A Teologia da Unidade e da Aliança como aspectos teológicos do Deuteronômio é a abordagem feita no sexto capítulo (p. 143-164), de autoria de Me. Fábio Cristiano Rabelo. Salienta que para uma boa compreensão da teologia da unidade em Deuteronômio, faz-se necessária uma compreensão adequada da Aliança (cf. p. 144-158). Encontramos no tratado da Aliança todos os fundamentos de um modo de ser e viver que define a identidade específica do chamado povo de Deus. Para isso, se faz necessário, segundo o autor, saber como o povo israelita respondeu a essa Aliança com Deus estabelecida por meio de Moisés: vicissitudes, desvios e infidelidades (cf. p. 151-158). Importa, ainda, conhecer algumas condições históricas específicas do Deuteronômio na reforma de Josias algumas décadas antes do exílio da Babilônia. Foi neste período que foram lançados os alicerces do futuro judaísmo, que se formaria após a experiência do exílio babilônico (cf. p. 158-162).

Outro aspecto teológico do livro do Deuteronômio é abordado no sétimo capítulo: a Teologia da Retribuição. Entendendo a retribuição como “o princípio segundo o qual as pessoas são recompensadas ou castigadas conforme as suas ações boas ou más” (p. 165), Me. Erike Couto Lourenço destaca que a Bíblia Hebraica não foi a primeira a apresentar a retribuição. Esse princípio já era dotado entre os povos do Oriente Próximo Antigo (cf. p. 166-170). O livro do Deuteronômio lida de maneira particular com a retribuição superando a definição de retribuição como um princípio impessoal, reafirmado incisivamente que a vontade e a bondade absolutas de Deus , por um lado, e a liberdade decisória do ser humano, por outro, são fatores decisivos nos resultados das ações humanas (cf. p. 173-175). No entanto, o autor destaca que a vontade divina e a humana não estão em nível de igualdade, pois a eleição experimentada por Israel, e tudo aquilo que a acompanha, com a herança da terra, são dons que nascem da livre decisão e amor divinos. Assim sendo, a recepção dos dons divinos por parte de Israel deve ser feito com responsabilidade (cf. p. 175-185).

As ocorrências do Deuteronômio nos Evangelhos são tratadas no oitavo capítulo por Dr. Jacir de Freitas Faria (p. 187-230). O autor inicia este capítulo destacando que vários sãos os textos do livro do Deuteronômio presentes nos Evangelho, isso porque, “o livro do Deuteronômio marcou de tal modo a vida do povo judeu que os primeiros cristãos, ao comporem os Evangelhos sobre a vida de Jesus, consideraram a oralidade e a escrita da tradição deuteronomista vivida, contestada e atualizada por Jesus” (p. 187). Assim, na composição dos Evangelhos, os escritores recordaram-se dos ensinamentos de Jesus na perspectiva das leis deuteronomistas. Os evangelistas fizeram uma “releitura do livro do Deuteronômio atualizando seus textos, conservando a sua essência e oferecendo fundamentos que justificassem Jesus como o novo Moisés, o novo legislador, no qual se cumpriram todas as promessas divinas” (p. 228).

O Evangelho de Marcos (cf. p. 188-199), cita textos dos capítulos 4-6,15, 24-25 e 30 do livro do Deuteronômio tendo em vista os seguintes temas: 1) o mandamento de honrar pai e mãe (Dt 5,16; Mc 7,10), 2) mulher em relação ao divórcio (Dt 24,1; Mc 10,2-5), 3) o mandamento de não matar, não cometer adultério, não roubar, não levantar falso testemunho, honrar pai e mãe (Dt 5,16-20; Mc 10,19), bem como não defraudar ninguém (Dt 24,14; Mc 10,19.21),4) fé em Yhwh como único Deus (Dt 4,35; Mc 12,28-34), 5) Shemá Israel (Dt 6,4-5; Mc 12,28-34), 6) mulher em relação à lei do levirato (Dt 25,5; Mc 12,19), 7) cumprimento das promessas divinas (Dt 25,5; Mc 13,27), 8) pobres sempre tereis e deverão ser cuidados (Dt 15,11; Mc 14,6-7).

O Evangelho de Mateus é o que mais faz uso do livro do Deuteronômio (cf. p. 200-209). São 25 citações dos capítulos 4-8;12-13;15;17-19; 23-24; 30; 32-34 para fundamentar os seguintes temas: 1) não só de pão vive o homem (Dt 8,3; Mt 4,4); 2) não tentarás ao Senhor teu Deus (Dt 6,16; Mt 4,7); 3) Deus mostra a Moisés a Terra Prometida (Dt 34,1-4; Mt 4,8-9); 4) temer, jurar e prestar culto somente a Deus (Dt 6,13; Mt 4,10); 5) carta de divórcio para a mulher (Dt 24,1; Mt 5, 31-32); 6) cumprimento de um voto (Dt 23,22; Mt 5,33); 7) procurar por Deus com todo coração e alma (Dt 4,29; Mt 7,8-9); 8) os dois caminhos (Dt 30,15-20; Mt 7,13-14); 9) não seguir os falsos profetas (Dt 13,2-6; Mt 7,13-14); 10) não seguir os falsos profetas (Dt 13,2-6; Mt 7,15-19); 11) relação familiar (Dt 33,9; Mt 12,46-49); 12) palavra no coração para ser praticada (Dt 30,14; Mt 13,18); 13) honrar pai e mãe (Dt 5,16; Mt 15,4); 14) Deus suscita um profeta que será ouvido (Dt 18, 5.9; Mt 17,5); 15) geração depravada e pervertida (Dt 32,5; Mt 17,17); 16) testemunhas e um processo (Dt 19,15; Mt 18,15-16); divórcio (Dt 24,1; Mt 19,7-9); 17) mandamentos de honrar pai e mãe, de não matar, não cometer adultério, não roubar, não levantar falso testemunho (Dt 5,16-20; Mt 19,16-18); 18) justiça com o assalariado (Dt 24,14-15; Mt 20,1-16); 19) levirato (Dt 25,5; Mt 22,23-33); 20) Shemá Israel (Dt 6,5; Mt 22,34-40); 21) ouvir as instruções dos levitas (Dt 17,10; Mt 23, 1-3); 22) dizimo dos produtos da terra (Dt 14,22; Mt 23,23-24); 23) falso profeta (Dt 13,2; Mt 24,23-24); 24) reunião do povo eleito que estava disperso (Dt 30,3-5; Mt 24-31); 25) pobre sempre tereis e deverão ser cuidados (Dt 15,11; Mt 26-11).

Lucas cita o Deuteronômio desta forma (cf. p. 209-212): 1) lei que prevê a ida de todo varão a uma festa no templo (Dt 16,16; Lc 2,41); 2) não só de pão vive o homem (Dt 8,3; Lc 4,4); 3) temer, jurar e prestar culto somente a Deus (Dt 6,13; Lc 4,8); 4) não tentarás ao Senhor, teu Deus (Dt 6,16; Lc 4,12); 5) Shemá Israel (Dt 6,5; Lc 10,27); 6) palavra no coração para ser praticada (Dt 30,14; Lc 11,28); 7) mandamentos de honrar pai e mãe, de não matar, não cometer adultério, não roubar, não levantar falso testemunho (Dt 5,16-20; Lc 18,20); 8) lei do levirato (Dt 25,5-10; Lc 20,27-40); 9) exílio, dispersão como punição (Dt 28,64; Lc 21, 23b-24).

Em João interpreta Jesus de acordo com a Lei deuteronômica em dois movimentos: de forma pejorativa, a “vossa Lei”, “a Lei deles” (Jo 8,17; 10,34; 15,25; 18,31); e de forma valorativo “a Lei e os Profetas” (Jo 1, 45). O Deuteronômio é citado da seguinte forma: 1) Deus está próximo de seu povo (Dt 4,7; Jo 1,14); 2) Deus promete enviar um profeta como Moisés para seu povo, um messias que falaria em seu nome (Dt 18,18-22; Jo 1,45; 4, 25-26; 5, 46-47; 12, 49; 17,8); 3) Deus escolhe Jerusalém como lugar único de adoração (Dt 12,5; Jo 4,20); 4) Deus deu alimento para o seu povo no deserto e tem palavra de vida eterna que se resume nos seus mandamentos (Dt 8,3; Jo 4,34; 6,68); 5) o povo caminha trinta e oito anos pelo deserto, de Cades Barne até a travessia do ribeiro de Zareb (Dt 2,14; Jo 5,5); 6) Deus mata, faz viver, fere e cura. Fora dele não existe outro deus e dele ninguém pode escapar (Dt 32,39; Jo 5,19-21; 10-29); 7) Moisés pede aos levitas para colocar a Torá ao lado da Arca como sinal de julgamento (Dt 31,26-29; Jo 5,45; 12,48); 8) quem procura Deus com todo o coração e toda a alma, o encontra (4,29; Jo 7,34); 9) A Lei Deuteronomista do julgamento exige que sejam ouvidos os acusados antes da condenação a qual pertence a Deus (Dt 1,16-18; 17,4-7; Jo 7,51; 8,7-8); 10) as testemunhas no julgamento deverão ser duas ou três pessoas (Dt 19,15; Jo 8,17); 11) Deus é pai e criador do povo de Israel (Dt 32,6; 8, 41-42); 12) Deus terá misericórdia e reunirá o povo disperso no tempo do Exílio da babilônia (Dt 30,3; Jo 11,52-53); 13) Deus realizou muitos sinais diante do Farão e do povo escravo no Egito (Dt 29,1-3; Jo 12,37-41); 14) Deus constituirá para si um povo consagrado, desde que esse observe seus mandamentos e ande nos seus caminhos (Dt 28,9-10; Jo 13,35); 15) amar a Deus com o coração, alma e posses: Shemá Israel (Dt 6,4-9; Jo 14,15); 16) Deus escolheu Israel dentre todos os povos da terra (Dt 7,6-7; 15,16; Jo 15,16); 17) Lei que estabelece que o condenado à morte não pode ter o seu cadáver suspenso e este não pode permanecer na árvore á noite, mas sepultado no mesmo dia (Dt 21,22-23; Jo 19,31).

O autor termina este capítulo tecendo comentários sobre o Shemá Israel – uma vez que este é citado nos Evangelhos para dizer que ele é o maior dos mandamentos e que deve ser observado pelos seguidores de Jesus (cf. p. 219-228).

Dr. Marcus Mareano traz no nono capítulo uma reflexão sobre: O Deuteronômio no Novo Testamento: dos Atos dos Apóstolos ao Apocalipse (cf. p. 231-263). Nos Atos dos Apóstolos prefere-se o caráter profético do Deuteronômio ao invés do normativo. A citação de Dt 18,15-20 nos Atos dos Apóstolos descreve o Messias como papel análogo ao de Moisés. O autor se utiliza do Deuteronômio para apresentar Jesus como o profeta, alguém que fala e age em nome de Deus. Da mesma forma como Moisés orientou o povo de Israel e era porta-voz de Deus na travessia rumo á Terra Prometida, igualmente Deus suscitou Jesus para ser o “novo” Moisés. Os textos antigos são relidos cristologicamente, originando novas interpretações a partir da vida de Jesus. Percebe-se uma preferência pelo caráter profético do Deuteronômio ao invés do normativo. (cf. p. 233-236).

No Corpus Paulinum: 1) Romanos: a maior parte das alusões ao Deuteronômio se encontra na primeira parte desta carta (1,18-11-35), (cf. p. 237-242); 2) Primeira Carta aos Coríntios: é a que mais se refere ao Deuteronômio. O interesse acontece, sobretudo, devido aos problemas morais que a comunidade de Corinto apresentava (cf. p. 242-245); 3) Segunda Carta aos Coríntios: na segunda carta à comunidade, o interesse pelo Deuteronômio deixa de ser por causa das questões morais (sexuais) e passa a ser com o propósito de sua apologia/defesa (cf. p. 245-247); 4) Gálatas: como em Romanos, Paulo também se utiliza do Deuteronômio para a argumentação nesta carta. Também nessa carta ocorre o tema da justificação pela fé, com o adicional de uma crise da relação entre o Apóstolo e a comunidade (cf. p. 247-250); 5) Primeira Carta a Timóteo: o uso do Deuteronômio nesta carta serve para orientar a comunidade em relação aos anciãos. Eles devem ser remunerados e as queixas devem ser apresentadas com suas testemunhas, conforme a prática comunitária (cf. p. 250-252); 6) Hebreus: o Deuteronômio em Hebreus serve para falar de Jesus, o Filho, e de Deus. Embora o autor se utilize de alguns temas deuteronômicos (Aliança, Moisés, sacerdócio, lugar do sacrifício, mediação de Deus), as citações estão em função de um aspecto reverencial da cristologia e da teologia (cf. p. 252-255); 7) Apocalipse: as referências ao Antigo Testamento no Apocalipse seguem uma maneira distinta dos outros escritos do Novo Testamento. O autor mistura livremente passagens e imagens do Antigo Testamento e de outros escritos da tradição judaica em sua mensagem de confiança para a comunidade desanimada. O Deuteronômio figura entre os muitos textos utilizados, sem sobressair uma temática ou uma citação específica (cf. p. 255-259).

***

Estamos diante de uma obra excelente. A leitura deste livro organizado por J. Konings e Z. A. Silvano nos ajudará a entender melhor a proposta contida no Livro do Deuteronômio. Livro bem fundamentado e estruturado de maneira didática. Seguindo os critérios acadêmicos, mas com linguagem simples e rigorosa cada um dos capítulos esbanja possibilidades para ulteriores reflexões, servindo como para cursos bíblicos e interessados nos estudos bíblicos em nível acadêmico. Serve primeiramente aos não especializados. Dá-lhes primorosa introdução e compreensão ampla do livro do Deuteronômio. Oferece abundantes indicações bibliográficas e um índice temático facilita encontrar as referências aos autores citados. A presente obra conjuga informação e reflexão. A escolha do subtítulo do livro é bastante sugestivo para a espiritualidade cristã: “Escuta, Israel”. As páginas 219 a 228 oferecem oportunas reflexão a respeito. Valeria a pena descobrir/redescobrir a oração como escutar o que Deus tem a dizer. A escuta é indispensável porque Deus se revela progressivamente através da Palavra e dos apelos da história. A mensagem do livro do Deuteronômio ajuda-nos neste processo – entendendo que a oração da escuta (não as orações recheadas de gritarias, barulhos e falatórios), é a mais querida por Deus, uma vez que coloca o discípulo missionário e a comunidade numa atitude ativa de disponibilidade para realizar a sua vontade na medida em que se vai revelando. A escuta do que Deus tem a nos dizer ajudaria também a superação de uma prática pastoral desvinculada da oração como bem chamou a atenção as atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-2023 quando no número 97 dizem: “na pastoral, é preciso superar a ideia de que o agir já é uma forma de oração. Quando confundimos agir com rezar, chegamos a abreviar ou dispensar os tempos de oração e de contemplação. Quando reduzimos tudo ao fazer, corremos o risco de nos contentar apenas com reuniões, planejamentos e eventos. Estes são importantes no cotidiano pastoral, mas não substituem a vida de oração. Ao contrário, devem decorrer dela e a ela conduzir. Muitas atividades podem facilmente levar os cristãos a caírem nas tentações do ativismo, vaidade, ambição e desejo de poder. Nesta perspectiva, os agentes de pastoral correm o risco de se esquecer da dignidade batismal, como verdadeiros sujeitos eclesiais, reduzindo-se a meros voluntários”.

Fica esse interessante livro como sugestão para quem deseja conhecer de perto a atualidade do Livro do Deuteronômio.

Referência

[1] Os comentários deste texto seguem de perto a abordagem do livro: KONINGS, Johan; SILVANO, Zuleica Aparecida (Orgs.). Deuteronômio: “Escuta Israel”. São Paulo: Paulinas, 2020, 280 p. (Coleção Pão da Palavra).

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