Sinodalidade católica pode ser resposta à crise da democracia. Artigo de Massimo Faggioli

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13 Novembro 2019

“A sinodalidade está começando a se enraizar na Igreja Católica. Ela tem limites visíveis, mas também está se tornando mais frequente e está desenvolvendo o seu modo de trabalhar, especialmente no Vaticano, com as várias assembleias do Sínodo dos Bispos que o papa Francisco convocou.”

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado por La Croix International, 12-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A crise da democracia é mais um desafio para uma Igreja que luta pela justiça social.

O padre Arturo Sosa, superior geral jesuíta, fez essa observação no recente Congresso Mundial do Apostolado Social da Companhia de Jesus.

Mas a crise global pela qual muitas instituições sociais, políticas, econômicas e culturais do mundo estão passando também é uma oportunidade e uma convocação para a Igreja Católica.

A Igreja deve desempenhar um papel na cura dos males causados pela globalização, mesmo quando suas estruturas estão sendo modificadas pela globalização.

A concomitância entre a crise da globalização e a crise católica é muito mais do que uma coincidência: é um paralelo. É por isso que, a fim de entender a atual crise da democracia, é essencial entender a luta da Igreja por um novo modelo de governo – uma Igreja sinodal.

Não é apenas a tentativa de cumprir a promessa do Concílio Vaticano II de moldar uma Igreja mais evangélica, libertada do modelo político-institucional da era da Cristandade. É também o esforço de responder profeticamente, aqui e agora, à crise de governança e de representação da nossa era.

Sete fatores ligados à crise da democracia

Em uma palestra muito esclarecedora proferida há algumas semanas em um congresso organizado pela revista católica italiana Il Regno, Sabino Cassese [vídeo abaixo, em italiano] explicou a crise da democracia ligando-a aos sete fatores seguintes:

  1. Diminuição da participação política;
  2. Falha dos partidos políticos de fomentar a participação e formar um ethos de cidadania;
  3. Crescimento de canais paralelos para a formação da opinião pública;
  4. Erosão da importância do debate para a tomada de decisão;
  5. Envenenamento dos poços do sistema democrático (por exemplo, a interferência estrangeira no processo eleitoral e fake news);
  6. Distinção entre instituições representativas e o povo;
  7. Desenvolvimento de novas tecnologias de informação e comunicação.

Essa lista poderia ser facilmente aplicada à crise do ecossistema eclesial (e não apenas eclesiástico) da Igreja Católica.

Paralelos da crise da Igreja e da crise da democracia

1) Há uma crise de participação na Igreja. Isso não se deve simplesmente à secularização. Também tem a ver com um sentimento crescente entre muitos católicos de que nem vale a pena tentar contribuir com a vida da Igreja.

2) A Igreja Católica hoje conta com estruturas eclesiais e eclesiásticas que têm sido bastante enfraquecidas.

Isso se deve ao colapso da autoridade pública e da credibilidade que o Vaticano, os bispos e o clero desfrutavam antigamente entre católicos e não católicos.

Ela também está sendo afetada pelo papel marginal das ordens religiosas, assim como pela fragmentação das associações e movimentos políticos católicos leigos.

3) Essas estruturas institucionais enfraquecidas estão sendo desafiadas por poderosas forças não institucionais e anti-institucionais.

Isso criou as condições ideais para a interferência externa – de católicos que não prestam contas a ninguém dentro da Igreja e até de não católicos que se preocupam com a mensagem social e política da Igreja.

Esse é o contexto para o surgimento de canais paralelos de informação sobre o catolicismo, que são independentes da hierarquia e não respondem perante ninguém.

Isso inclui o surgimento de poderosos atores católicos não institucionais com agendas subversivas, dependentes do “grande dinheiro” – dinheiro que não é transparente e não é canalizado pela instituição. Isso é diferente da existência sacrossanta e do uso de fundos discricionários por parte daqueles que estão em posições de poder legítimo.

4) Há uma crise de confiança nas instituições da Igreja – da paróquia local até o Vaticano – como lugares onde as decisões são tomadas de maneira que respeite a dignidade batismal de todos os fiéis (o papa Francisco já começou a mudar isso por meio do processo da sinodalidade).

5) Os poços da governança da Igreja também foram envenenados: das insinuações de que o conclave de 2013 foi ilegítimo até as acusações abertas de que Francisco está manipulando as assembleias do Sínodo dos Bispos.

6) Há também a narrativa referente à distinção entre o bom povo católico que é fiel à tradição da Igreja e o caos que supostamente está sendo criado por este pontificado.

7) E há novos desenvolvimentos na tecnologia da informação e comunicação que são necessários para que a Igreja lide com múltiplos níveis de transição neste momento da sua globalização.

Isso inclui a transição geracional (a crise na transmissão da fé para as gerações mais jovens), o fim de uma Igreja dominada por homens, uma mudança geopolítica em direção ao Sul global e à Ásia, uma transição teológica e cultural (colapso de instituições culturais, de elites do Ensino Superior e intelectuais) e uma transição tecnológica (ambiente, mídias sociais).

Tudo isso está ocorrendo no contexto de uma “desconfessionalização” do cristianismo; isto é, uma Igreja Católica em que as fronteiras entre católicos e não católicos são muito menos visíveis e relevantes para a experiência vivida do cristianismo.

Sinodalidade como resposta católica

Os paralelos entre a crise dos nossos sistemas democráticos políticos e a crise da Igreja institucional podem ser resumidos a: participação, opinião pública, representação, sistema de tomada de decisão e desvio da distorção comunicativa.

O modo católico de lidar com a crise atual é a sinodalidade.

A reforma sinodal busca desenvolver um sistema de governança que continue ao longo do caminho marcado pelo Vaticano II, como Francisco explicou claramente em um discurso de outubro de 2015 que pode ser considerado como a sua “magna carta” da sinodalidade.

O caminho sinodal é também uma resposta altamente “política” à crise do nosso tempo e à paralisia do nosso debate político. Isso é político no sentido de criar cidadania, e não partidarismo.

A teologia católica não está mais debatendo o direito divino dos monarcas versus a democracia, como fez até o século XIX.

Em vez disso, ela está defendendo a democracia das ameaças, principalmente do perigo de que tudo seja reduzido a uma espécie de teatro em que as instituições que nos mantiveram unidos estão sendo substituídas agora pelo teatro de personagens, normas e modos de comunicação semelhantes aos do show business.

Esse não é apenas um problema dos nossos sistemas políticos seculares. Também na Igreja, falar de reforma frequentemente tem se tornado um teatro ou um gênero artístico.

Mas a resposta da Igreja para isso é a sinodalidade. O processo sinodal deve ser a alternativa ao circuito de palestras em que as agendas concorrentes disputam a atenção midiática e os doadores orientados por ideologias.

O processo sinodal ocorre em uma comunidade eclesial real e vivida, e não no âmbito da ficção da Igreja ou da religião virtual. Trata-se de ser pastoral, em vez de negociar em termos de sarcasmo e de slogans, especialmente nas mídias sociais.

O processo sinodal põe no centro a assembleia das pessoas reais que participam e representam a Igreja, e não uma audiência midiática cujo valor de mercado está na sua divisibilidade.

Esforços globais e nacionais para inculcar a sinodalidade

A sinodalidade está começando a se enraizar na Igreja Católica.

Ela tem limites visíveis, mas também está se tornando mais frequente e está desenvolvendo o seu modo de trabalhar, especialmente no Vaticano, com as várias assembleias do Sínodo dos Bispos que o papa Francisco convocou.

Isso também está acontecendo nas Igrejas locais, cujo exemplo mais notável é a preparação para o Concílio Plenário da Austrália em 2020-2021.

Isso também deveria ocorrer em outros países.

Na semana passada, dom Robert McElroy, bispo de San Diego (Califórnia), lançou a proposta de um sínodo nacional nos Estados Unidos. Em uma palestra na Saint Mary’s University, no Texas, ele lembrou aos católicos estadunidenses que o sínodo não é apenas um sonho impossível.

“Esse caminho sinodal não é estranho à Igreja nos Estados Unidos, nem está além das nossas capacidades”, disse o bispo, que realizou um sínodo na sua própria diocese em 2016.

McElroy também alertou contra os perigos de ficar paralisado e, portanto, cativo à crise da nossa cultura política.

“O grande perigo é que a nossa vida eclesial esteja se tornando como a nossa vida política – polarizada, distorcida e tribal. É por isso que um processo profundo e amplo de diálogo sinodal dentro da comunidade católica nos Estados Unidos poderia empoderar um caminho alternativo”, argumentou o bispo.

Um processo sinodal para a Igreja Católica nos Estados Unidos é possível. E um novo caminho sinodal para o catolicismo global certamente é alcançável.

A alternativa é tornar-se uma Igreja paralisada pelo medo.

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