Precisamos encarnar uma esperança-blues

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17 Junho 2020

"Encarnar uma esperança-blues significa tirar da cruz os afro-americanos. É chegada a hora de lamentarmos com o salmista e com os afro-americanos que testemunham a esperança da ressurreição com suas vidas", escreve Alex Mikulich, especialista católico em ética social, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 13-06-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Um homem foi linchado nos EUA no último dia 12 de junho. A Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (National Association for the Advancement of Colored People – NAACP) exibia uma bandeira em seu edifício, na Quinta Avenida, em Nova York, toda vez que ocorria um linchamento entre 1920 e 1938. A flâmula foi levantada novamente em Manhattan cinco anos atrás depois que um policial atirou em Walter Scott pelas costas oito vezes. O artista Dread Scott acrescentou as seguintes palavras: “Um homem foi linchado pela polícia ontem”.

Após 14 dias de protestos nos Estados Unidos, essa bandeira precisava ser erguida em todos os lugares, inclusive nas paróquias católicas, em memória de George Floyd.

Todo organismo americano deveria sentir repulsa ao abuso tirânico de poder do policial que pôs o seu joelho sobre o pescoço de Floyd – e o manteve aí por 8 minutos e 46 segundos – tempo mais do que suficiente para que Floyd parasse de respirar. Três outros policiais ficaram às voltas e não se puseram a proteger a vida do cidadão negro.

Quando Floyd suplicou para poder respirar, por sua vida, quando esteve preso na solidão absoluta sob o joelho daquele policial, em dor aguda por 8 minutos e 46 segundos, Cristo foi crucificado novamente.

Afro-americanos, latinos e os americanos nativos estão todos sendo crucificados pelo coronavírus, pelo joelho não apenas de um policial, mas de todo americano que não se entristece diante da situação instalada.

Enquanto um imperador maluco incita violência diretamente da Casa Branca, o país permanece no abismo da desesperança, quiçá no fim de uma república constitucional ou no reacender de uma mudança histórica.

Shawn Copeland convida as pessoas de fé a uma encruzilhada onde o “céu e a terra” se encontram antes da cruz de Jesus, onde nossos corações e almas ainda podem vivenciar momentos graciosos, individual e coletivamente.

Uncommon Faithfulness: The Black Catholic Experience
M Shawn Copeland

No capítulo “A Meditation on the Blues” (uma meditação sobre o blues), publicado no livro Uncommon Faithfulness: The Black Catholic Experience, Copeland escreve: “O blues narra a luta negra para cruzar o rio do racismo, certamente, mas, quando esse rio corre sobre as corredeiras da dominação imperial, todos – independentemente da identidade cultural, étnica-racial ou religião – somos apanhados em sua corrente”.

Estamos em uma encruzilhada perigosa, repleta de caos e desorientação expressos na música blues afro-americana, mesmo antes dos africanos escravizados se reunirem, pela primeira vez, no início dos anos 1700 na Praça do Congo. Como Cornel West escreveu após os eventos de 11 de Setembro: “Uma nação triste (blues) precisa aprender com um povo triste (blues)”. [Jogo de palavras intraduzível ao português, em que “blues” significa, ao mesmo tempo, música negra e tristeza.]

Estamos diante da cruz, onde as pessoas de fé – especialmente as que gozam de privilégios e do poder – devem passar por um acerto de contas. Esse acerto exige uma decisão tomada pelos indivíduos e pelas comunidades: seja pegar nas rédeas do domínio imperial americano, seja cruzar para o lado dos povos colonizados.

Se quisermos reparar as feridas coloniais da supremacia branca contra os negros, precisaremos encarnar, em nosso ser individual e coletivo, uma “esperança-blues”, no feliz fraseado de Copeland sobre a sabedoria profética e mística enraizada na cruz do Jesus Cristo.

Adotar uma esperança-blues significa decidir ficar do lado dos negros e pardos. Significa ouvir, sentir e clamar a Deus junto dos que anseiam por liberdade e justiça.

Encarnar uma esperança-blues significa doar-nos a ponto de nos tornar um NÓS que transforma a violência contra a comunidade negra em vislumbres do Reino de Deus, onde todos prosperam.

Significa perceber a miséria total, a humilhação implacável e a exaustão física desgastante de viver na esteira da escravidão, o que Christina Sharpe descreve como a ameaça de morte sempre iminente (a qualquer momento) e imanente (estruturada na cultura) que os negros enfrentam.

Na meditação de Copeland, esperança-blues significa lutar corpo a corpo com Deus, lamentar a perda de vidas e as práticas de injustiça e, finalmente, significa fazer do nosso ser um “organismo a serviço dos outros”, com e para Jesus.

Aos brancos privilegiados que resistem ao chamado à travessia, pelo menos orem e trabalhem para ficarem em silêncio e escutar. Reservem 8 minutos e 46 segundos para perceber a experiência de George Floyd. Trabalhem e orem para que a graça seja afligida pelo nosso joelho da injustiça, para que o Espírito possa sintonizar nossos corações, mentes e almas.

Resistam ao desejo de condenar a luta violenta caso se recusem a abandonar uma cultura de violência que desumaniza a todos nós. Pelo menos admitamos que o nosso investimento em conforto, controle e poder não considera o lugar do outro.

Encarnar uma esperança-blues significa tirar da cruz os afro-americanos. É chegada a hora de lamentarmos com o salmista e com os afro-americanos que testemunham a esperança da ressurreição com suas vidas.

A imagem do joelho do policial contra o pescoço de Floyd reforça o fato expresso pelo presidente da NAACP, Derrick Johnson: “A fragilidade das vidas negras não é uma falha no sistema; é o sistema”. A NAACP iniciou uma campanha (#WeAreDoneDying) para acabar com as disparidades raciais no policiamento e em todas as dimensões da vida americana.

Viver uma esperança-blues significa juntar-se ao “nós” da citada campanha. Já basta morrer porque saímos para correr (Ahmaud Arbery), porque dormíamos em nossa própria casa (Breonna Taylor), porque procurávamos ajuda depois de um acidente (Renisha McBride), porque nos dirigíamos à casa recém-comprada (Sandra Bland), porque comíamos bombons e vestíamos toucas (Trayvon Martin), porque brincávamos em um parque (Tamir Rice) ou porque caminhávamos com uma amiga (Rekia Boyd).

A morte de Floyd e muitos outros nas mãos da polícia não são uma anomalia; a taxa de homicídios cometidos pela polícia permanece estável há duas décadas, com quase 1.100 assassinatos ao ano. O Washington Post noticia que, em 2020, 467 pessoas já foram mortas pela polícia nos EUA. Os policiais literalmente se safam desses assassinatos.

Por exemplo, tomemos a Campanha Zero (“Campaign Zero”), coordenada por DeRay McKesson, Samuel Sinyangwe e Brittany Packnett Cunningham. Informada por dados nacionais, a campanha formulou um plano com 10 itens para acabar com a violência policial. Inspirada na força-tarefa, do presidente Barack Obama, sobre o policiamento do século XXI, a Campanha Zero também criou a hashtag #8CANTWAIT em memória de George Floyd, com um conjunto de propostas que podem reduzir drasticamente a brutalidade policial.

Para quem e para o que damos a vida (João 15,13)? Se há um caminho em que não há saída, será somente encarnando uma esperança-blues, seguindo o exemplo dos católicos afro-americanos, que ainda poderemos vislumbrar as possibilidades de um renascimento na amada comunidade de Deus.

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