EUA: os jesuítas e o racismo

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Bolsonaro é retratado como criminoso de guerra em vídeo sobre Amazônia

    LER MAIS
  • É desumano continuar a morrer sozinhos. E não digam que não poderia ter sido feito de outra forma

    LER MAIS
  • A vacina não é um bem comum

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


09 Junho 2020

Ficará impressa por muito tempo na memória a imagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segurando uma Bíblia no alto, enquanto, no dia 1º de junho passado, foi visitar a Igreja Episcopal St. John’s Church, em Washington, na qual havia iniciado um incêndio durante os tumultos após o assassinato de George Floyd. Também ficará na memória a cena da polícia que atira balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo para dispersar alguns manifestantes pacíficos para abrir caminho para Trump.

A reportagem é de Antonio Dall’Osto, publicada por Settimana News, 08-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Essa é a sua Bíblia?”, gritou-lhe um repórter. “É uma Bíblia”, murmurou Trump. A mensagem desse gesto não é difícil de interpretar: “Você e sua igreja estão sendo atacados. Eu vou usar os seus símbolos, vocês podem usar o meu poder. Eu vou protegê-los e derrotar os agressores com toda a força necessária. Nós estamos ao seu lado”.

McKay Coppins escreveu na The Atlantic, revista estadunidense de cultura, literatura e política externa: “A maioria dos cristãos conservadores brancos não quer piedade desse presidente; eles querem poder. Em Trump, eles veem um defensor que os levará de volta ao seu devido lugar no centro da vida estadunidense, usando a sua terrível espada rápida para punir seus inimigos”.

Na revista dos jesuítas estadunidenses, America, na qual é dedicado um amplo espaço na edição do início de junho àquilo que está acontecendo no país, Zac Davis comenta: “É claro que o presidente está tentando arrastar a Igreja e o Evangelho para uma guerra cultural que está dilacerando o nosso país, mas não vamos permitir que ele faça isso”.

E Wilton Gregory, primeiro arcebispo católico negro de Washington, afirmou: “Seria desconcertante e repreensível se qualquer estrutura católica permitisse ser abusada e manipulada de modo tão grosseiro, a ponto de violar os nossos princípios religiosos”.

Como sacerdote jesuíta, James Martin SJ, no site da revista America, no dia 1º de junho, escreve: “Eu me solidarizo com as vidas perdidas para a violência armada neste ano, incluindo George Floyd, Breonna Taylor, Ahmaud Arbery e muitos outros. Estou ao lado daqueles que estiveram com eles em vida e com aqueles que estão com eles agora na morte. O racismo, como disse João Paulo II, é um dos males mais ‘persistentes e destrutivos’ dos Estados Unidos. É também um pecado social, isto é, um pecado cometido não apenas por indivíduos, mas que faz parte da estrutura social em que todos os estadunidenses vivem.

“E eu devo reconhecer a minha própria participação nele: como estadunidense que se beneficiou do privilégio branco e que vive com o legado da escravidão, como católico que vive com o legado de uma Igreja que falhou em atribuir ao pecado do racismo a atenção necessária neste país, e como padre jesuíta, cuja ordem religiosa neste país já possui homens e mulheres escravos”.

Continua o Pe. Martin: “O racismo – diz o padre Bryan Massingale, teólogo católico – é uma doença da alma. Essa doença se espalhou desde que os primeiros africanos foram trazidos à força para a América e vendidos como escravos há 400 anos. A nossa nação é fundada e continuamente moldada pela supremacia branca.

“A supremacia branca – continua o Pe. Massingale – é fundamentalmente a suposição de que este país, suas instituições políticas, sua herança cultural, suas políticas sociais e seus espaços públicos pertencem aos brancos de uma forma que não pertencem aos outros. A pressuposição básica é de que alguns naturalmente pertencem ao nosso espaço público e cultural, enquanto outros devem justificar o fato de estarem aqui. Além disso, há uma suspeita de que esses ‘outros’ estão no ‘nosso’ espaço apenas porque alguém lhes concedeu permissões especiais.”

Afirma o Pe. Martin: “Essa, escreve o Pe. Massingale, ‘é a verdade mais inconveniente que temos que enfrentar como estadunidenses sobre o racismo’. (...) O assassinato de George Floyd – definido pelo presidente da Conferência Episcopal, José Gómez, como “um crime que clama ao céu por justiça” – é algo que deve deixar todo mundo indignado, mas especialmente os estadunidenses brancos”.

Iniciativas a serem tomadas

Os editores da America, por sua vez, escreveram um editorial no qual afirmam que, “para combater o racismo, os católicos devem ter a mesma fome de justiça que têm pela eucaristia”. Eles se perguntaram: que iniciativas tomar? E assinalaram cinco.

- Arrependimento: “A Igreja nos EUA tem sido tristemente cúmplice das injustiças sistêmicas do racismo branco (como publicação jesuíta, devemos reconhecer a nossa parte nessa história: os jesuítas estadunidenses e suas instituições possuíram e às vezes venderam escravos até 1838). Os católicos brancos muitas vezes ignoram e marginalizam as vozes dos católicos negros pedindo que a Igreja os ouça e responda às necessidades das suas comunidades.”

- Solidariedade: “Os católicos não devem inventar novas formas de combater o racismo. Já existe muito trabalho sendo feito pela justiça racial. No entanto, muitos católicos parecem tímidos demais para ouvir e colaborar com novos movimentos, como o Black Lives Matter, que estão liderando a atual luta pela justiça. Bispos, párocos e lideranças leigas devem se abrir aos grupos de ativistas antirracistas presentes em suas comunidades. Além de expressar solidariedade no trabalho de organização, os católicos também podem demonstrar solidariedade econômica, apoiando negócios de propriedade de negros em suas comunidades e contribuindo com doações para organizações de justiça racial e ministérios que atendam diretamente os católicos negros”.

- Presença: “Uma geração anterior de clérigos e religiosos nos deixou imagens exemplares de católicos marchando de mãos dadas com líderes proeminentes dos direitos civis. (...) Os católicos, especialmente aqueles cuja presença e hábito visivelmente simbolizam a Igreja, devem participar de protestos a fim de manifestar o compromisso da Igreja.”

- Formação: “Para garantir uma mudança profunda e duradoura, nós, católicos, teremos que examinar os modos pelos quais formamos as consciências, especialmente no trabalho da educação. Os responsáveis pelas instituições de formação, dos seminários às escolas primárias, devem examinar os currículos para ver como a história e a realidade atual do racismo são abordadas. Os estudantes formados na educação católica devem reconhecer que o racismo é um mal intrínseco e uma manifestação primária de pecado social.”

- Oração: “A oração é uma das formas mais eficazes de testemunho público que os católicos têm. Eles se reúnem por várias causas, como novenas, procissões, terços e horas santas. Não é por acaso que esses meios espirituais, que dependem mais da graça de Deus do que da nossa própria força, nos unem e anunciam o Evangelho da misericórdia e da justiça de um modo mais eficaz do que apenas as proclamações de princípios morais. Grupos católicos, começando pelos bispos e pelas redes de organizações nacionais, até a paróquia local, devem promover uma campanha de oração para curar os pecados do racismo. (...) Deus de justiça, dê-nos a força para continuarmos clamando pela cura da nossa ação até que se cumpra o compromisso de reconhecer que Tu nos criaste como pessoas totalmente iguais.”

Uma justa indignação

“O assassinato de George Floyd, ou mais precisamente, a execução extrajudicial de George Floyd, imortalizada para sempre nas gravações – escreve o Pe. Martin – revela mais uma vez a cultura da supremacia branca, uma cultura exacerbada pelo nosso presidente, incentivada pelo seu apelo por ideias racistas e instigada pelo seu comentário repreensível da semana passada: ‘Quando começam os saques, começa o tiroteio’”.

“O assassinato de Floyd é algo que deveria indignar a todos, especialmente os estadunidenses brancos. E não se engane: a indignação justa que está sendo sentida é a mesma que Jesus sentiu quando viu a profanação do Templo de Jerusalém e derrubou as mesas dos cambistas com ira (Jo 2,13-16). Jesus viu algo sagrado sendo difamado, como vemos quando o joelho de um policial esmaga um homem indefeso e continua a fazê-lo mesmo quando ele grita: ‘Não consigo respirar’.

“Como alguém pode não ver – continua o Pe. Martin – as ressonâncias com Jesus na Cruz? Dois mil anos atrás, os soldados romanos pregaram o corpo de Jesus em uma cruz de madeira, enquanto outros soldados observavam, e quando Jesus morreu, ele disse: ‘Tenho sede’ (Jo 19,28). No mês passado, um policial pressionou o joelho sobre o corpo de George Floyd, enquanto outros policiais ficaram observando, e, enquanto George Floyd morria, ele gritou: ‘Água’. Então, se você chora por Jesus na Cruz, mas não chora por George Floyd, isso significa que você entendeu tudo errado.

“É isso que mais toca o meu coração: não simplesmente o legado do racismo que eu conheço e leio a respeito, mas vê-lo em ação e ver um filho amado por Deus tratado dessa maneira. Eu não suporto ver pessoas sendo tratadas assim. Não posso descrever adequadamente como isso me deixa indignado e por que isso me leva às lágrimas. E não consigo imaginar o que uma pessoa negra sente quando vê isso. E elas veem isso aos montes.

“Isso também comovia Jesus. Sempre que ele via pessoas sendo maltratadas, nos dizem os Evangelhos, seu coração se ‘comovia’. O grego original é muito mais forte: Jesus sentia ‘nas entranhas’. Essa é uma das razões pelas quais ele sempre ficou do lado dos pobres, dos excluídos, dos marginalizados. Porque esse é o lugar onde Jesus está: ele está com os espancados e com os perseguidos. Jesus está com os homens e mulheres negros que foram mortos por homens brancos armados ou policiais brancos. Jesus está com os manifestantes que clamam por justiça, gritando que a vida dos negros deve importar...

“O que os católicos podem fazer em relação a esses pecados? Primeiro – responde o Pe. Martin – comecem a ouvir o que os nossos irmãos e irmãs afro-americanos têm a nos dizer. (...) Ontem [dia 31 de maio] foi a Solenidade de Pentecostes, quando celebramos a entrada do Espírito Santo na comunidade dos discípulos, tanto pessoalmente, quanto como grupo. Então, você sente indignação, tristeza, frustração, confusão e raiva pelas mortes de George Floyd, Breonna Taylor e muitos outros? Esse é o seu Pentecostes: esse é o Espírito Santo agindo através de você. De que outra forma Deus poderia fazer com que você aja?

“Portanto, escute o Espírito que se move dentro de você; escute o que os seus irmãos e irmãs afro-americanos têm a dizer; e deixe que o Espírito que age através deles o instrua, e então aja”.

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

EUA: os jesuítas e o racismo - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV