“É isso, entenda... Jesus é blues”. A força e a poética de Baco Exu do Blues

Clipe Bluesman / Reprodução YouTube

Por: Ricardo Machado | 22 Junho 2019

Quando Childish Gambino, rapper estadunidense, lançou em meados de 2018 o clipe de This is America, a força de sua música e de sua narrativa direta e reta sobre a violência a que, principalmente, os negros dos Estados Unidos são vítimas, parecia garantir ao cantor, com justiça, o prêmio na categoria Entertainment for Music (entretenimento para música), do Cannes Lions. Ninguém precisava ser muito atilado para profetizar uma possível premiação.

A competição reúne os principais trabalhos na área de publicidade e marketing no mundo, dividido em diversas categorias. Embora os profissionais brasileiros sejam habitués na conquista dos leões de Cannes, pela primeira vez uma equipe nacional levou ao topo da premiação um músico brasileiro, Baco Exu do Blues, que com o clipe Bluesman, dividiu o prêmio com Gambino na categoria Entertainment for Music. Não deixa de ser irônico – mas absolutamente ilustrativo sobre quem produz audiovisual no Brasil – que na foto da premiação da equipe brasileira exista uma única pessoa negra compondo o time de dez profissionais. Mas voltemos a Baco, o Exu do Blues

 

Baco Exu do Blues é um rapper baiano de 23 anos que tem marcas impressionantes para quem lançou, até o momento, apenas dois discos: Esú (2017) e Bluesman (2018). A láurea recebida essa semana não é a primeira na carreira do cantor. Em 2018 foi agraciado com o Prêmio Multishow de Música Brasileira, na categoria Artista Revelação. Aclamado pela crítica, Baco Exu do Blues reivindica, de forma competente e provocativa, a ampliação do reconhecimento midiático da cena do Rap nacional para além do eixo Rio-São Paulo, unindo a música da periferia a escritores consagrados na literatura brasileira, de Machado de Assis, passando por Mário de Andrade, até seu conterrâneo Jorge Amado.

Baco Exu do Blues (Foto: Daryan Dornelles / Divulgação)

 

Seu clipe Bluesman não somente é um primor audiovisual, mas possui uma força poética que torna tudo mais denso, num ciclo constante de transliteração entre realidade e ficção capaz de nos arrancar do conforto de nossas hipócritas indignações típicas da classe média. A certa altura, Baco canta

A partir de agora considero tudo blues
O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues
O funk é blues, o soul é blues
Eu sou Exu do Blues
Tudo que quando era preto era do demônio
E depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de blues
É isso, entenda
Jesus é blues
Falei mermo

 

Cartaz de divulgação do clipe em Cannes (Imagem: Divulgação)

 

Transformar Jesus em blues implica retirá-lo do pedestal eclesial, trazer à vida a figura mais célebre, mais humanista e uma das mais importantes do Ocidente nos últimos 2500 anos. É trazer para rua, para o chão da existência o sal da terra cotidiano que pinta o mundo de gentes. A tarefa é urgente, ainda mais quando milhares de pessoas se reúnem à volta de um trio elétrico para adorar quem faz arminha com as mãos e espalha ódio. Para caminhar na contramão da Marcha da Desumanidade, é melhor colocar os headphones e, então, ouvir Baco Exu do Blues. "É isso, entenda, Jesus é blues".

Me escuta quem 'cê acha que é ladrão e puta
Vai me dizer que isso não te lembra Cristo
Me escuta quem 'cê acha que é ladrão e prostituta
Vai me dizer que isso não te lembra Cristo
Vai me dizer que isso não te lembra Cristo

 

Cena do clipe Bluesman (Imagem: Reprodução YouTube)

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