“Ainda existe dificuldade para assumir a fala em favor da ecologia integral e o cuidado da Casa Comum”, afirma dom José Ionilton Lisboa de Oliveira

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04 Junho 2020

Desde há 26 anos a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC Rio, vem realizando a Semana do Meio Ambiente entre suas atividades. Neste ano de 2020, de 3 a 5 de junho, de modo virtual, como não poderia ser de outro modo, dada a pandemia que a humanidade está vivendo, a reflexão será em volta do tema: “Laudato Si’, o clima e a sociedade”.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

A proposta da semana é refletir sobre os cinco anos da encíclica, que trata da ecologia integral e o cuidado com a Casa Comum. Ao longo dos três dias serão abordadas as temáticas da Laudato Si’ na Amazônia, a Laudato Si’ e o Clima e as Dimensões da Laudato Si’.

Segundo o padre Waldecir Gonzaga, professor do Departamento de Teologia da universidade, “a pandemia é um compromisso ainda maior para fazer esta semana”. A gente vive uma realidade que nos coloca diante do urgente desafio de cuidado da casa comum que inclui a família humana e que nos leva ter um olhar para o Evangelho da Criação, e descobrir qual é o projeto de Deus, elementos presentes na Laudato Si’ e enfatizados pelo professor que insistia na necessidade de uma analise da encíclica, que ajude a refletir sobre a responsabilidade humana no cuidado da Casa Comum.

O Ano Laudato Si’ é um momento importante para a PUC Rio, segundo seu grande chanceller, dom Orani Tempesta. O arcebispo do Rio de Janeiro, destacava que o momento atual de pandemia tem nos levado a aprender a importância do meio ambiente com a diminuição de nossas atividades, uma realidade que deve ser estudada ao longo deste Ano Laudato Si’. Nessa perspectiva, dom Joel Portella, bispo auxiliar do Rio e Secretário Geral da CNBB, defendia a necessidade de “buscar na Laudato Si’ indicações para um futuro que precisamos construir a partir de agora”. Segundo o secretário da CNBB, a Laudato Si’, desde a crítica que ela faz ao antropocentrismo e proposta da ecologia integral, tem se tornado algo que deve se fazer muito presente diante da pandemia que estamos vivendo.

A Laudato Si’ sintetiza a percepção de um mundo integrado, quebrando o individualismo, segundo Luiz Felipe Guanaes Rego, diretor do Centro Interdisciplinar para o Meio Ambiente da Pontificia Universidade Católica do Rio de Janeiro. A alternativa que a encíclica propõe é um horizonte de integração desde o conceito de ecologia integral, de não divisão entre sociedade e meio ambiente. Esta visão deve ser considerada como proposta de caminho futuro para a sociedade. Para isso, o Ano Laudato Si’, pode ser um momento provocador, segundo o professor, “nem só para pensar, mas também para agir”, sem esquecer que a Laudato Si’ é uma proposta que transcende a Igreja católica.

A Laudato Si’ veio no momento certo, diante da crise que estamos vivendo, segundo Josafá Carlos de Siqueira, S.J., Reitor da PUC-Rio. Ele afirma que a encíclica fez realidade “o objetivo de unir toda a família humana”, conseguindo uma grande penetração em diferentes ambientes, nos levando a refletir sobre elementos muito pertinentes. A Laudato Si’ tem ajudado se perguntar “como resgatar uma teologia da criação e viver uma teologia ecológica num mundo fragmentado” segundo o Padre Siqueira, provocando o compromisso da Igreja do Brasil para levar a Laudato Si’ para o mundo eclesial e a sociedade civil. O jesuíta afirma que o papa Francisco será lembrado pela encíclica, e destaca o significado simbólico XXVI Semana do Meio Ambiente dentro de um contexto político brasileiro que se posiciona contra o que defende a ciência em relação ao meio ambiente.

Desde a Prelazia de Itacoatiara – AM, dom José Ionilton Lisboa de Oliveira apresentava como a encíclica tem influenciado a vida da prelazia, que tem uma parceria com a PUC-Rio. O bispo, que chegou em Itacoatiara em julho de 2017, depois de uns meses de conhecimento da realidade, vendo que até então não tinha sido feito, incentivou o estudo da Laudato Si’, primerio em nível de prelazia, com a ajuda da REPAM, e depois nas paróquias e comunidades.

Isso tem sido incrementado com o estudo de outros documentos, como “Discípulos Missionários Custódios da Casa Comum, Discernimento à luz da Laudato Si’”, elaborado pelo CELAM – Conselho Episcopal Latino Americano, e todos os documentos que tem feito parte do processo do Sínodo para a Amazônia, desde o Documento Preparatório até Querida Amazônia, uma tarefa programada, mas ainda pendente dado o isolamento social provocado pela pandemia.

Além disso, dom José Ionilton lembra que o Regional Norte 1 da CNBB, escolheu três causas comuns, dentre elas o Meio Ambiente, inspirados na Laudato Si’, dando ênfase às mudanças climáticas, pressão internacional e nacional na região, os grandes projetos, acompanhamento das políticas públicas em defesa da vida dos indígenas, ribeirinhos e quilombolas formação na perspectiva da ecologia. Junto com isso os direitos dos povos indígenas, caboclos e ribeirinhos, e a migração forçada e tráfico de pessoas.

O bispo, que foi um dos padres sinodais no último sínodo, afirmava que “desde outubro de 2018, estamos buscando organizar a Pastoral da Ecologia Integral na Prelazia. Estamos ainda em forma embrionária, mas vai se consolidando. Estamos começando a criar uma cultura ecológica: na catequese, na liturgia, na formação em geral, nos ambientes. As temáticas das festas de padroeiros e eventos pastorais começaram a dar ênfase a temas como Ecologia, Casa Comum, Meio Ambiente, Amazônia, Povos Indígenas, Quilombolas, Ribeirinhos”. Mesmo assim, ele reconhece que “ainda existe dificuldade para assumir a fala em favor da ecologia integral e o cuidado da Casa Comum”.

Também estão sendo assumidas práticas que ajudem nesse sentido, como “diminuir até zerar o uso de descartáveis em todas as atividades e incentivar o uso de produtos agrícolas e das frutas da região para a alimentação de nossos eventos eclesiais”. Também destaca que “em parceria com a Pastoral da Criança e a Cáritas estamos buscando desenvolver projetos ecológicos, de alimentação saudável e de geração de emprego e renda, através de hortas caseiras, coleta reciclável, apoio para escoamento de pequenos agricultores e produção, armazenamento e venda de polpa de frutas”.

A Laudato Si’ fala da Amazônia, explicitamente em alguns números e implicitamente em toda a encíclica, segundo dom José Ionilton, enumerando diferentes textos onde aparecem essas referências amazônicas na encíclica do papa Francisco. Ele, que é vice-presidente da Comissão Pastoral da Terra – CPT, abordava a situação da violência no campo, recolhida pelo Caderno de Conflitos no campo no Brasil em 2019, publicados pela CPT em abril deste ano, que indicam que o foco principal dos conflitos está na Amazônia, chegando em porcentagens preocupantes.

Essa atitude de preocupação também surge diante do desmatamento na Amazônia, que atingiu 529 km² em abril deste ano, um aumento de 171% em comparação com abril do ano passado, segundo o bispo de Itacoatiara, representando o maior dos últimos dez anos no mês de abril. Junto com isso, ele falava das palavras do ministro do Meio Ambiente na reunião ministerial de 22 de abril, que mostram o projeto de devastação da Amazônia do atual governo.

Depois da Semana Laudato Si’, que na Prelazia de Itacoatiara contou com várias atividades, o bispo destacava a importância do Ano Laudato Si’, que tem como objetivo propor um compromisso público comum com a “sustentabilidade total” a ser alcançada em 7 anos.

Essa é uma realidade que deve estar muito presente na Amazônia, uma das grandes preocupações do papa Francisco, como ele mostrava no Regina Coeli do último domingo, festa de Pentecostes, denunciando a situação que os povos da região vivem diante da pandemia de covid-19, mas que, na verdade, é mais um episodio de uma realidade antiga de exploração e abandono.

 

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