Aniversário da Laudato Si’: uma oportunidade para denunciar, defender, agir

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21 Mai 2020

"Ao celebrarmos o quinto aniversário de Laudato Si’, a esperança que tenho é que as organizações religiosas e as religiões usem esse dia como um tempo para lembrar as suas congregações e a todos os que ocupam posições de liderança, nos setores público e privado, daquela obrigação de colocar as pessoas – e não os poluidores nem o lucro – na vanguarda das decisões a serem tomadas", escreve Gina McCarthy, ex-administradora da Agência de Proteção Ambiental, no governo Obama, e atualmente presidente e CEO da ONG Conselho de Defesa dos Recursos Naturais nos EUA, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 20-05-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

 

Eis o artigo.

 

Depois que o Papa Francisco lançou sua Laudato Si’, sua encíclica sobre o meio ambiente, cino anos atrás, eu me uni a milhares de americanos no gramado em frente à Casa Branca para testemunhar o nosso Santo Padre, que disse: “o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós (…) Como cristãos animados por esta certeza, procuramos comprometer-nos neste cuidado consciente e responsável da nossa casa comum”.

Estar nesse lugar foi uma experiência incrível – não somente por eu ser formada em escolas católicas, mas também como alguém que passou a vida inteira lutando para proteger da poluição os nossos filhos e aqueles que são os mais vulneráveis dentre nós. Sua Santidade nos lembrou que combater as mudanças climáticas não tem a ver apenas com ursos polares – tem a ver com pessoas. Tem a ver com uma obrigação moral nossa de proteger nossos filhos, netos e os mais vulneráveis do desafio de saúde pública mais premente dos nossos tempos.

Sentei-me educadamente em meu assento, exatamente como as freiras haviam me ensinado, e rapidamente me vi absorvida por suas palavras. Elas me deixaram inspirada, energizada, esperançosa e comprometida com um futuro mais saudável, seguro e sustentável. E agora, nesses tempos difíceis, me vejo voltando àquele momento quando fico dentro de casa ou quando faço pequenas saídas usando uma máscara e tomando cuidado para não andar muito perto dos demais.

Como a crise climática, o coronavírus ameaça a todos nós, mas não da mesma forma. Ele persegue as pessoas de cor e aqueles que vivem em comunidades de baixa renda porque estas populações já sofrem de taxas desproporcionalmente altas de doenças pulmonares e cardíacas, e quadros clínicos como estes enfraquecem a capacidade de o ser humano sobreviver à Covid-19. Dados científicos já apontam taxas de mortalidade significativamente mais altas entre os que carregam o fardo de viver ao longo de rodovias ou perto de refinarias, regiões em que a poluição é tão alta que o ar não é saudável para respirar.

O papa nos lembrou que é nossa responsabilidade cuidar da casa comum. Proteger os recursos naturais dos quais dependemos é uma obrigação moral que o Santo Padre quis que reconhecêssemos e agíssemos a respeito. É uma obrigação fundamental reconhecida pelas religiões, em todos os lugares, e o papa estava nos recordando da nossa responsabilidade individual para com os nossos amigos, com a nossa família, com o nosso próximo; lembrou-nos da obrigação que temos de abraçar, juntos, esse desafio.

Ao celebrarmos o quinto aniversário de Laudato Si’, a esperança que tenho é que as organizações religiosas e as religiões usem esse dia como um tempo para lembrar as suas congregações e a todos os que ocupam posições de liderança, nos setores público e privado, daquela obrigação de colocar as pessoas – e não os poluidores nem o lucro – na vanguarda das decisões a serem tomadas. Espero que este dia seja uma oportunidade para lembrar a todos nós que não podemos nos descuidar do mundo que temos. Devemos denunciar, defender e agir se quisermos proteger aqueles que amamos e os lugares em que vivemos. Devemos exigir o direito ao ar puro, à água potável e a lugares saudáveis e seguros para morar, trabalhar e nos divertir.

Afinal, não será este o momento de sermos administradores atenciosos de nossos preciosos recursos naturais? Não deveríamos começar ouvindo os clamores dos nossos filhos? Estes nos pedem que salvemos seu futuro ao acolhermos a ciência e os fatos, implementando e aplicando nosso estado de direito e desenvolvendo/entregando um plano de ação que finalmente nos permita encarar a ameaça existencial das mudanças climáticas. O que nos impede de imaginar e investir em um futuro melhor, um futuro em não seja construído à custa dos mais vulneráveis, mas que proporcionará a eles o tipo de benefício imediato que tanto merecem?

A reconstrução das nossas economias na sequência desta pandemia pode nos proporcionar uma importante oportunidade de entregar um futuro digno, com os valores do nosso país, apoiando nossas aspirações e nossos sonhos coletivos e protegendo a saúde dos nossos filhos e nossos recursos naturais. Podemos usar dessa oportunidade começando por investir em iniciativas que se afastam da dependência de combustíveis fósseis. Podemos construir uma economia de energia limpa como base para um futuro mais limpo, mais saudável, mais seguro e mais justo e sustentável – um futuro em que todos venceremos. Não era isso que o Papa Francisco esperava ver acontecer?

Em uma parede de minha casa, tenho uma foto tirada na Casa Branca durante a visita do papa. Ela mostra o presidente Obama apresentando-me ao Papa Francisco, onde ele aparece segurando minha mão enquanto meus joelhos tremiam. Sempre imagino como seria se minha mãe estivesse viva para ver essa imagem. Ela ficaria maravilhada e, verdade seja dita, eu também. Essa foto é um lembrete constante para mim de que não posso ceder na luta contra as mudanças climáticas e também que estou em muito boa companhia.

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