Você disse “ecologia integral”? Entrevista com Gaël Giraud e Delphine Batho

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15 Fevereiro 2019

Gaël Giraud é economista, padre e jesuíta. Foi no Chade que ele tomou consciência, diante da acelerada desertificação do país, da gravidade climática.

Delphine Batho foi ministra da Ecologia, Desenvolvimento Sustentável e Energia em 2012-2013. Foi nessa época que ela percebeu a dificuldade de iniciar as reformas necessárias. Juntos, reunidos pela revista La Vie, conversam sobre a esperança necessária e sobre as teorias do colapso.

Giraud no IHU, em 2016 | Foto: Cristina Guerini

A entrevista é de Olivier Nouaillas, publicada por La Vie, 12-02-2109. A tradução é de André Langer.

Ecologia Integral”. O termo, que apareceu pela primeira vez na encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco em julho de 2015, surge, de maneira surpreendente, no título do manifesto de Delphine Batho, ex-ministra do Meio Ambiente e especialmente em ruptura com o Partido Socialista e os partidos tradicionais. Aquela que ainda é deputada do Deux-Sèvres pretende sair candidata nas eleições europeias de maio de 2019 pelo Génération Écologie, com representantes principalmente da sociedade civil, como o filósofo Dominique Bourg, ex-presidente do comitê científico da Fundação Nicolas Hulot.

Esta é a oportunidade para fazê-la conversar com Gaël Giraud, jesuíta e economista, que contribuiu enormemente para os documentos que serviram de base para a redação da encíclica do Papa. Ele também experimentou um rompimento com os mercados financeiros de Wall Street, que ele deixou para entrar nos jesuítas e tornar-se padre. Hoje chefe do setor econômico da Agência Francesa de Desenvolvimento, Gaël Giraud está dando os toques finais à sua tese de doutoramento em Teologia, “Formar um mundo comum. Uma teologia política do Antropoceno”, que deve apresentar em breve no Centro Sèvres.

Eis a entrevista.

Delphine Batho | Foto: Reprodução - Twitter

Delphine Batho, em seu livro Écologie Intégrale. Le Manifeste (Ecologia Integral. O manifesto), você afirma que “a esquerda e a direita acabaram” e que a clivagem agora se dá entre “terráqueos e destruidores”. No entanto, você é uma política muito clássica: militante do Partido Socialista, deputada e ministra. De onde vem esta ruptura?

Delphine Batho – No meu coração, penso que tive um apego visceral e carnal à natureza. Isso remonta à infância. Eu cresci passando tempo na e com a natureza. Os derramamentos de petróleo, as fomes na África, Bhopal e Chernobyl contribuíram para a minha tomada de consciência e meus primeiros engajamentos. Mas levei algum tempo para que o que eu considerava como sendo do domínio do privado, sensível, se vinculasse ao meu engajamento público. Minha experiência como ministra da Ecologia foi uma ruptura. Eu vi de perto o que, no poder, impede as transformações indispensáveis. A origem deste Manifesto é o apelo de 15 mil cientistas, em novembro de 2017, que nos dizem que “em breve será tarde demais”, seja sobre a mudança climática ou sobre o colapso da vida. E diante deste desafio do século, que é de uma violência inaudita, há um vazio político impressionante.

O colapso do Partido Socialista – onde eu militei 24 anos, especialmente para transformá-lo – é um colapso de suas ideias, mais que de sua estrutura. O projeto socialdemocrata não é mais um horizonte histórico a partir do momento em que, em todos os países democráticos desenvolvidos, se vive na socialdemocracia mais ou menos redistributiva e igualitária, com um Estado de direito e elementos de proteção social. Mas a etapa do desenvolvimento humano e civilizacional a ser realizado é a transformação do modo como produzimos, e não apenas o  modo como redistribuímos. É claro que o PS também se comporta como um “destruidor” quando se recusa a se posicionar contra o projeto do aeroporto Notre-Dame-des-Landes ou, atualmente, o projeto do centro comercial Europacity, perto de Roissy.

E você, Gaël Giraud, o que provocou sua ruptura com o mundo das finanças e seu interesse pela questão ecológica?

Gaël Giraud – O “choque” é anterior ao meu trabalho como consultor científico em Paris e Wall Street; ele remonta vinte anos no tempo, quando fui enviado, como voluntário em missão pela Delegação Católica para a Cooperação (DCC), para o sul do Chade. Eu era professor de matemática e física em um colégio jesuíta e, nas minhas horas vagas, trabalhei em uma prisão para ajudar as mulheres detidas que foram submetidas a terríveis violências sexuais. Havia especialmente essas crianças de rua com quem e para quem eu fundei um centro de acolhida em Balimba, que funciona ainda hoje.

Esses encontros inesperados me reconectaram à realidade. Percebi que um estudante universitário parisiense vive em uma espécie de bolha, anestesiado. A força da vida e da alegria dessas crianças carentes também me trouxe de volta à natureza e à ecologia. Porque, ao lado da violência social e da extrema pobreza, a grande questão no Chade é a desertificação do país: o Saara está avançando mais e mais rápido por causa da mudança climática. Buscar água para as crianças todos os dias em um poço onde, ano após ano, ela é cada vez mais difícil de encontrar, me fez retornar à Terra.

Delphine Batho, seu livro tem como título Ecologia Integral, um conceito diretamente derivado da encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco. Mas, afora uma menção à encíclica na bibliografia, você fala muito pouco dessa dimensão espiritual da ecologia...

Delphine Batho – Veja, eu assumo totalmente essa referência à encíclica do papa. Para ser honesta, esta foi a primeira vez na minha vida que li uma encíclica e lembro-me muito bem que no dia 15 de julho de 2015, no dia da sua publicação, enviei uma mensagem a Nicolas Hulot para lhe dizer o quanto eu achei este conceito inovador. Eu defendo uma perspectiva política secular e não religiosa para a ecologia integral. Mas a encíclica é uma referência. Ela desempenhou um papel decisivo no resultado da COP 21. É significativo que na época o texto mais revolucionário em escala mundial sobre a crítica do modelo de civilização atual e que estabelece uma ligação entre a ecologia e a explosão da desigualdade não foi escrito por um dirigente de um país ou por um líder político, mas pelo Papa Francisco. Isso ilustra o vazio político de que falava antes.

Para você, a ecologia integral, o que é isso?

Delphine Batho – Essa é a centralidade da questão ecológica, sua primazia. É o fato de que em um projeto político, é a ecologia que comanda e não mais dinheiro, o PIB, o índice Dow Jones ou ainda o CAC 40. É o fato de permanecer vivo e manter um planeta habitável para a humanidade. O que acho importante no texto do papa é a reformulação completa da comunidade de origem entre a destruição dos recursos naturais e as desigualdades sociais. De minha parte, estabeleço uma ligação entre a ecologia integral e o ecofeminismo.

Gaël Giraud, você assinou em 2018 um artigo no Le Monde intitulado “A ecologia integral não é o que você acredita”. Por que razões?

Gaël Giraud – Para recordar aos católicos que nós não somos os proprietários do conceito de ecologia integral. É um bem comum que o Papa Francisco coloca sobre a mesa de discussão da comunidade internacional, e isso significa que não é necessário ser católico para aproveitá-lo. Alguns de nós querem reintroduzir questões bioéticas no centro da luta ecológica. Esses irão reprovar Delphine Batho por defender em seu Manifesto que todas as mulheres tenham acesso a contraceptivos modernos. Mas a questão que devemos nos colocar é a seguinte: como entramos em debate com aqueles que se apropriam do conceito de ecologia integral, mas têm outra relação com a bioética e o corpo? Do meu ponto de vista, o essencial é perceber que o corpo humano não é pré-político. As relações que nós estabelecemos com os nossos corpos e os dos outros – aborto, barriga de aluguel, etc. – devem poder ser discutidas em termos de justiça. Caso contrário, não seríamos fiéis à Laudato Si’.

Sobre a questão da “transição”, você, Delphine Batho, convoca todo ecologista consequente a suprimir essa palavra do seu vocabulário. Por quê?

Delphine Batho – Porque se tornou como o desenvolvimento sustentável, um oxímoro. A palavra “transição” apresenta, na verdade, vários problemas. O primeiro problema é que define um estado intermediário entre hoje e amanhã, mas sem descrever esse “amanhã”. Ora, hoje é urgente dizer para onde queremos ir, isto é, para mim, para a ecologia integral, para um modelo econômico “permacircular” que respeite os recursos e a vida para encontrar uma harmonia com a natureza.

O segundo problema é como ela foi apropriada pelo sistema, longe de ser concebida por pensadores da ecologia política, definindo apenas objetivos de longo prazo. Por exemplo, a caricatura que se tornou na lei, com prazos fixados para 2040 ou até 2050 – ou seja, não estamos fazendo nada agora ou, pior ainda, continuamos tomando medidas destrutivas, como o projeto da Montanha de Ouro na Guiana ou a importação de 300 mil toneladas de óleo de palma pela Total. A transição ecológica tornou-se, infelizmente, um discurso vazio, enquanto cada segundo, cada minuto conta. O que importa é o que decidimos hoje.

Você, Gaël Giraud, pelo contrário, usa essa palavra, afirmando inclusive em suas entrevistas que “a transição ecológica é um belo projeto político”.

Gaël Giraud – É verdade que falei muito sobre a transição ecológica. Minha posição inicial é o trabalho realizado por cientistas e economistas sobre cenários prospectivos, particularmente durante o debate nacional lançado por Delphine Batho em 2012. A “transição”, para mim, refere-se a uma dinâmica: não devemos achar que passaremos a uma sociedade de carbono zero da noite para o dia. Dito isso, assino o diagnóstico político de Delphine Batho. A apropriação e a subversão semântica permitem que os opositores da ecologia se atenham a uma política de pequenos passos que, de fato, legitima o status quo. Essa é uma observação geral: o imaginário gerencial assume a crítica formulada nas margens, finge levá-la em conta, depois a integra desarmando-a.

O tema do colapso, que se tornou onipresente no debate ecológico, depara-se com a noção de esperança que deveria estar no centro tanto de um projeto político mobilizador, como de uma vida espiritual confiante no mundo?

Delphine Batho – Falar a verdade, mesmo de uma forma impactante e perturbadora, sobre os colapsos em curso é o primeiro passo. Nada pode ser construído sobre a negação. É um julgamento ruim feito aos colapsólogos de assimilar suas proposições a uma espécie de “não futuro”. O título do livro de Pablo Servigne (um de seus líderes, n.d.r.) é Une autre fin du monde est possible (Um outro fim do mundo é possível, em tradução livre), e de seu precedente L'entraide: L'autre loi de la jungle (Ajuda mútua. A outra lei da selva, em tradução livre). Além disso, muitos trabalhos científicos nos mostram hoje que que as florestas – eu penso em tudo o que nós, por comodidade, chamamos de inteligência das árvores – são comunidades baseadas na ajuda mútua. Nossas sociedades humanas fariam bem em se inspirarem nelas.

Gaël Giraud – Existe às vezes uma fascinação mórbida pelo “colapso”, especialmente a corrente de sobrevivência americana. Essa febre “apocalíptica” de inspiração anarquista, tanto na direita como na esquerda, às vezes oculta a esperança secreta de acabar com o Estado. Eu só posso ser contra isso. Uma sociedade sem Estado é a refeudalização do mundo, cujas ameaças são descritas por Alain Supiot. É renunciar ao direito e à aspiração democrática. Ora, nós temos absoluta necessidade do Estado de direito para tornar possível a revolução ecológica, evitar o pior, precisamente, e garantir a emergência de comuns, ao mesmo tempo que a paz civil.

Delphine Batho – Não pode haver, com efeito, ecologia sem democracia. Todos os cenários apocalípticos que apelam seja a uma espécie de ditadura verde, seja a comunidades sobreviventes são becos sem saída que devem ser combatidos. O que periga acontecer é a guerra global do colapso. E diante dessa crescente barbárie, devemos construir uma verdadeira esperança: ecologia integral, não-violência, democracia, cooperação, ajuda mútua para organizar a resiliência em todos os níveis – local, nacional, global.

Exatamente, você não me respondeu sobre a ligação entre ecologia e espiritualidade...

Delphine Batho – A declaração implacável de descobertas científicas não é suficiente, de fato. Às vezes acordo de manhã com imagens da infância. Como quando era pequena e corria em um campo coberto com grama alta, esticando os braços, milhares de borboletas levantavam voo. Hoje, isso não existe mais! Na verdade, estamos destruindo a beleza do mundo. O que eu explico no Manifesto é o modo como nossas civilizações nos isolam da natureza: hoje, quatro de cada dez crianças não brincam fora durante a semana. O abuso das telas está mudando nossa visão, nossos cérebros, nosso modo de ser.

Sim, a ecologia está em conexão com toda forma de espiritualidade, religiosa ou não. Então, ao contrário do que Raphael Glucksmann escreve em Les Enfants du vide. De l’impasse individualiste au réveil citoyen [As crianças do vazio. Do impasse individualista ao despertar cidadão, Allary Éditions], não creio que o sucesso dos livros de desenvolvimento pessoal reflita um individualismo frenético. Na minha opinião, o sucesso dos livros de Christophe André, de Matthieu Ricard e de tantos outros refletem o contrário: há um profundo desejo de que as pessoas encontrem sentido em suas vidas.

Gaël Giraud – Quando Christophe André propõe meditações de plena consciência ao aprender a “pensar como uma montanha”, ele sai do individualismo narcísico no qual corremos o risco de nos trancar quando nos entrincheiramos nas redes sociais. Ele propõe “exercícios espirituais ecológicos” secularizados. Tomar o lugar do outro (sempre guardando o seu) é a interpretação proposta pelo jesuíta Christoph Theobald da regra de ouro evangélica. O outro, que pode ser meu vizinho, mas também meu gato, um lobo, uma montanha...

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