Chade. O trabalho do jesuíta inventor que liberta as mulheres da escravidão do fogo

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03 Novembro 2017

Por meio de fogões solares e "foyers améliorés", o Irmão Pietro Rusconi valoriza a energia renovável sem custo algum e evita que as esposas e mães "partam suas costas na savana para colher lenha e arbustos" ou "comprem carvão ou óleo caros".

A reportagem é de Marco Roncalli, publicada por Vatican Insider, 01-11-2017. A tradução é de André Langer.

Da Itália para a África e vice-versa. Durante quase trinta anos. Desde que, após entrar como "coadjutor temporal" na Companhia de Jesus com 28 anos (entre os religiosos não sacerdotes, geralmente chamados de Irmãos Jesuítas), com 42 anos respondeu concretamente a um pedido de ajuda que veio do Chade. “Eu dei voltas na carta durante alguns dias, depois decidi ir. Eu não sabia nada sobre a África, sobre a realidade política, as causas dos conflitos entre Norte e Sul, que mais tarde descobri que eram uma desculpa política. Por isso, não me podia me furtar a fazer algo pelos mais pobres. Desta forma, cheguei ao meu irmão religioso, aterrissei em Bangui, a 700 quilômetros ao sul de Sarh, através de uma estrada onde a única indústria que se via era uma usina de açúcar. Isso foi lá em 1980. E eu decidi ficar no Chade convencido de que não se pode falar de Deus se antes não se oferece nada para comer”.

A partir de então, todos os anos, ele passa quase sete meses entre as comunidades dos jesuítas de Bérgamo (agora fechada) e a Selva di Valgardena (na casa de retiros conhecida como Villa Capriolo), ou percorrendo a Itália em busca de materiais e para manter contatos com os (poucos) benfeitores; depois, passa os outros cinco meses no Chade, em Sarh (no sul), às vezes em Mongo (no norte), em lugares ainda bastante primitivos: cabanas e deserto, miséria e doenças, clima insuportável, mas não menos que a imperante cultura tribal, oligárquica e machista. E justamente para essa realidade – alternando períodos relativamente tranquilos com outros em que ele até acabou nas mãos de rebeldes armados anti-governo – ele trouxe o que chama de "o Evangelho das mãos".

É assim que o irmão Pietro Rusconi define o significado da sua presença em uma região onde a Igreja católica local é relativamente jovem, em um país de maioria islâmica, em que o animismo ainda é a religião dos pais, a mais antiga, embora um pouco em declínio. "Eu, no entanto, não sou um pregador. Não comecei a falar sobre Deus com os operadores que formei, quase todos da religião islâmica. Em todo caso, quando se apresentaram ocasiões de confronto ou diálogo religioso, não o evitei. Eu estou interessado em uma relação de igual para igual, de amizade, de solidariedade. Estou interessado em evangelizar pelo exemplo, ajudando os pobres com respeito e na prática", nos diz este religioso, um bom mecânico com habilidades de inventor.

Sim, porque o irmão Pietro originalmente inventou ferramentas rudimentares para os camponeses; depois, as "cadeiras de rodas para o deserto", triciclos com pedais e correntes no guidão usadas por pessoas afetadas pela atrofia muscular espinhal, infelizmente muito comum na região; além disso, ele fez redes especiais para centros médicos e dispensários; e trabalha para produzir tijolos e bombas manuais para extrair água dos poços; finalmente, durante vários anos, ele levou para lá "fogões solares" (na prática, painéis parabólicos com as dimensões e ângulos adequados para o melhor uso do calor) e agora ensina a construir no mesmo lugar estufas metálicas (os chamados 'foyers améliorés'). Todas micro-realizações das quais o irmão Rusconi se orgulha.

Das últimas, especialmente, porque elas são seu modo – diz ele – de “libertar as mulheres de tantas fadigas e da escravidão do fogo, valorizando uma energia limpa e renovável a custo zero, como a energia solar, respeitando o meio ambiente, economizando árvores, reduzindo a desertificação e o desmatamento". Assim se usa o sol, em vez do fogo e da lenha: para cozinhar, ferver água, obter energia: "É verdade, um excelente presente para essas mulheres africanas que desde sempre passam horas sob o sol escaldante para encontrar lenha a quilômetros e quilômetros de suas cabanas, ou se ajoelham para proteger o fogo, alimentando-o com o que elas encontraram em ambientes onde a vegetação já é deficiente para preparar o prato diário habitual, a “boule”, uma polenta de milho pouco saborosa", diz o irmão Pietro.

Ele acrescenta: "Esta parábola solar faz das mulheres verdadeiras senhoras; elas já não são mais escravas. Já não partem suas costas na savana para recolher lenha e arbustos, arrastando sacos durante horas; elas nem precisam mais depender dos seus maridos para comprar o caro carvão ou o combustível. E, além disso, elas têm tempo para cuidar de pequenos pomares e levar ao mercado algumas coisas para vender. Com o sol, uma panela de vinte litros ferve em 45 minutos. A mulher limita-se a mover a parábola solar, não inala fumaça, não há o risco de queimaduras para as crianças menores... E isso não é tudo, porque usada de uma certa maneira, o "fogão" também permite alimentar refrigeradores e recipientes para conservar estoques de medicamentos, algo realmente útil nos hospitais, nas missões".

Deve-se dizer que foram os alemães que o projetaram e tornaram conhecido na África e na América Latina. Trata-se de um kit relativamente barato, mas obviamente feito para ganhar dinheiro. "Eu queria que também os pobres pudessem ter acesso a essa tecnologia. Como? Abaixamos os custos acoplando as diferentes peças aqui, ensinando a construir no próprio lugar as peças de metal, e os preços caíram. Nós importamos os materiais da Europa e talvez fazem a última parte da viagem nas corcovas dos camelos, mas parte da produção é feita aqui... Assim, uma família consegue amortizar em pouco tempo a aquisição do fogão solar, graças à economia de combustível. Sem esquecer que com essa contribuição de dinheiro pagamos os salários das pessoas que trabalham conosco, muitas vezes maridos e pais das mulheres que se beneficiam dos fogões. E pensar que no começo as pessoas do povo pensavam que a parafernália era "diabólica": depois, pouco a pouco, muitas mulheres – vendo os benefícios – foram solicitando os fogões".

"Claro, sendo sinceros, nos demos conta de que os ‘fogões solares’ beneficiam especialmente as mulheres, que podem estar em casa, com maridos que têm um salário seguro; não para aquelas que, ao contrário, devem ir aos campos muitas vezes muito longe, saindo pela manhã e voltando de noite para as suas cabanas... Nos perguntamos como intervir, acompanhando seu passo, porque o importante é compartilhar. Com base em suas exigências, fabricamos agora os chamados fogos ‘ameliorés’, fogões de metal, abertos na frente, com a cavidade preenchida pelos três lados com material como folhas de metal e pedras, que podem ser encontradas na região. Houve uma sensível queda no consumo de combustível: bastam os paus que as próprias crianças podem recolher não muito longe das cabanas. Na verdade, são uma espécie de estufa. Dado o preço da compra, que para eles seria insustentável, decidiu-se não dá-los de presente, mas pedir uma contribuição razoável. Também neste sentido, é um bom passo para a frente: os velhos fogões são substituídos, isto é, um buraco no chão recheado de pedaços de madeira sobre três pedras que apoiam a panela na qual se cozinha, duas vezes por dia, a “boule”, com um desperdício de calor imenso, que se torna um tormento pela temperatura e pela fumaça e, em seu lugar, temos esses fogões econômicos de metal que aquecem rapidamente, mantendo o calor, sem desperdiçá-lo".

Detalhes técnicos à parte, entende-se que se está falando de meios para reconhecer dignidade à condição das mulheres, de salvaguardar o meio ambiente, de lutar contra a pobreza. É isso trabalho de um missionário? Foi o que perguntava o irmão Pietro na última edição de Gesuiti Missionari Italiani, a revista do Magis, em um artigo sobre a sua experiência no Chade. Sua resposta – ele recordava as novidades mencionadas, as novas possibilidades de trabalho, o papel dos Bancos de Cereais, graças aos quais a população rural foi libertada de tantos usurários, as melhorias advindas com a abertura de escolas não apenas para as crianças, mas também para os adultos – destacava, em primeiro lugar, o espírito de partilha e de solidariedade que subjaz a tudo isso, não dissociado da pertença a uma terra que exige não ser abandonada.

"É nessa direção que trabalhamos: para manter a coesão mediante a melhoria das condições de vida, da saúde, da dignidade humana, da proteção de suas terras... Então, o Evangelho que anunciamos é credível porque a palavra não bate no ouvido e volta, mas entra dentro deles, é vivida, feita carne no dia a dia e brota. Sim, eu me sinto um missionário".

Um missionário que, dentro de algumas semanas, voltará ao Chade, solicitado pelos jesuítas do Hospital do Bom Samaritano de N'Djaména para capacitar jovens que farão a reforma dos móveis deteriorados da entidade. "Eu vou ficar com eles o tempo necessário para abrir uma oficina e ocupar-me com a sua aprendizagem; depois vou deixá-los trabalhar sozinhos. Vou voltar para supervisioná-los? Para fazer outra coisa? Trabalho para fazer há! Sim, é o dom do trabalho que o Senhor me dá, que é tão generoso comigo que me permite pensar – com 78 anos – em outros projetos. Os do Evangelho das mãos”.

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