Laudato si’ e Covid-19: ainda é possível cantar louvores diante de tanto sofrimento?

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04 Mai 2020

A pandemia do coronavírus está evidenciando de uma maneira nova e aguda a vulnerabilidade do gênero humano e a nossa interconexão uns com os outros e com as outras criaturas, algo de que as comunidades mais pobres do mundo já estão bem cientes. Estamos diante de um alerta para preservar e celebrar todas as partes da nossa casa comum.

A reflexão é da teóloga Celia Deane-Drummond, diretora do Instituto de Pesquisa Laudato Si’, da Universidade de Oxford. O artigo foi publicado em Thinking Faith, publicação dos jesuítas ingleses, 30-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Este ano deveria ser um ano de celebração em Roma, para comemorar os cinco anos desde o lançamento da Laudato si’, a encíclica papal sobre o cuidado da casa comum. No entanto, em vez da gratidão que deveria caracterizar esse aniversário, o sentimento público subjacente ao testemunhar os acontecimentos que se desenrolaram primeiro na China, depois na Itália, Espanha e agora no Reino Unido, nos EUA e em tantos outros países, é pânico, horror e ansiedade.

Alguns repórteres tentaram encontrar exemplos de boas notícias a fim de suavizar a angústia e o fardo predominantes. Uma é que parar ou reduzir drasticamente as atividades aéreas e outras atividades literalmente limpa o nosso ar.

Mas, antes de fazer um julgamento apressado sobre isso, devemos reconhecer que as comunidades pobres e vulneráveis, como as das ilhas do Pacífico, estão perdendo a sua base econômica como resultado indireto da Covid-19.

Os próprios fatores que levam às “virtudes ecológicas”, como deter a pegada de carbono do mercado global, também abrem outras ameaças aos meios para atender às necessidades humanas básicas. Isso mostra como as nossas vidas estão emaranhadas e como é extremamente complicado tentar resolver as ameaças à casa comum.

No hemisfério ocidental, também esquecemos amplamente o que significa o envolvimento com outras espécies. Sim, cuidamos de um cão ou de um gato de estimação, ou talvez vejamos uma raposa ou um rato urbanos. Mas a nossa interconectividade não é apenas com as espécies que encontramos diariamente, mas também com inúmeras criaturas do mundo biológico do qual fazemos parte.

O significativo no caso da Covid-19, assim como outras de outras novas doenças do século passado, como a SARS ou o HIV, é que ela é zoonótica – ela saltou as fronteiras entre espécie.

Alguns cientistas dizem que ela vem dos morcegos; outros, das cobras, possivelmente através de um intermediário mamífero como os pangolins malaios. Os lotados mercados de animais vivos “molhados” são fontes potenciais. Frequentemente, são mercados ilícitos que hospedam espécies raras ou partes de espécies em alguns casos, como chifres de rinoceronte, partes de algumas cobras ou outros que, acredita-se, fornecem potência afrodisíaca para satisfazer um mercado sempre presente, incluindo o do mundo ocidental.

O que é realmente surpreendente é que algo assim nunca aconteceu nesta escala antes. O mercado global perturba o delicado equilíbrio ecológico e a proteção de espécies que frequentemente caracterizam as comunidades indígenas que vivem em ecologias frágeis. Existem aspectos políticos, sociais, morais e biológicos que explicam por que a Covid-19 apareceu no cenário global no século XXI.

Grande parte da discussão ética pública sobre a Covid-19 tem a ver com questões de justiça. Quem obtém acesso ao que se tornou cada vez mais uma loteria na disponibilidade de serviços de saúde, testes e equipamentos de proteção individual. A experimentação política custa vidas. Os mais vulneráveis sofrem diretamente com essa doença, mas os impactos econômicos e sociais indiretos nacionais e globais são profundos.

A menos que se encontre uma cura ou vacina, o distanciamento ou isolamento social é o único caminho possível. Somos convidados a permanecer distantes. É um sacrifício de amor abnegado, reminiscente da Sexta-Feira Santa, que traz a dor da ausência – a dor de não poder estar presente com aqueles a quem amamos ou até mesmo nos reunir em comunhão para o enterro dos falecidos. Morrer sozinho ou com cuidadores mascarados não é o tipo de morte que alguém desejaria. Parece contraintuitivo.

A questão mais fundamental a se considerar é a nossa humanidade comum compartilhada, para a qual essa dor nos aponta. A antropologia evolucionária ressalta a nossa coevolução com outras espécies e a nossa “hiper”-socialidade altamente distintiva. Cortar a oportunidade para essa socialidade é profundamente perturbador para muitas pessoas. Mas parece não haver outra escolha.

O Papa Francisco argumenta na Laudato si’ que a tecnologia é um substituto pobre para as relações humanas. Ele acolhe a tecnologia que está a serviço do bem comum, mas não quando ela substitui os laços sociais. Agora estamos descobrindo a profunda verdade do que ele diz. Fazer tudo por meio do FaceTime ou de outras ferramentas virtuais é insatisfatório e parece estranho para a maioria das pessoas.

Agora estamos em uma terra estranha, apesar da familiaridade, onde não podemos sequer chorar e lamentar-nos adequadamente com os outros. Até as missas papais e a comunhão eucarística, o ápice litúrgico do ano cristão no Tríduo e a fonte material encarnada da vida cristã são virtuais.

Quais são as lições espirituais dessa noite escura, que os primeiros místicos conheciam tão bem? A sombra do túmulo vazio permanece.

Então, ainda podemos encontrar uma voz para cantar louvores, ou esse gesto seria vazio na esteira de tamanho grito de sofrimento?

Kierkegaard acreditava que a ansiedade é a raiz do pecado, e, quando consideramos muitos aspectos dessa crise, podemos ver que ele estava pelo menos parcialmente correto. É pela ansiedade que os políticos distorcem o que realmente está acontecendo na esfera pública; é por causa da ansiedade que os desejos parecem insatisfeitos e o consolo é buscado nos produtos de origem animal; é através da ansiedade que permanecemos paralisados nas nossas vidas cotidianas, incertos sobre o que fazer; é por meio dos desejos ansiosos de relaxar que desrespeitamos os regulamentos de distanciamento social.

Mas um contraponto a essa ansiedade é a gratidão. Em Roma, as freiras continuam cantando o Ofício Divino em seus apartamentos, e outras pessoas se juntam a elas. Em Madri, todas as noites, as pessoas se reúnem nas sacadas para aplaudir aos trabalhadores da saúde que entram no turno da noite. No Reino Unido, muitos milhares de pessoas aplaudem todas as quintas-feira à noite ao NHS [sistema nacional de saúde] e aos assistentes sociais.

Vários grupos de apoio se formaram em todo o mundo para ajudar aqueles que estão em casa ou estão se autoisolando. A Covid-19 tem uma taxa de mortalidade relativamente baixa em comparação com muitas outras relações parasitárias, então talvez também precisemos ser gratos por isso. De fato, os parasitas de maior sucesso não matam seus hospedeiros.

Consideremos também os milhões de micro-organismos que vivem dentro de nós e que nos ajudam a permanecer saudáveis e a ter uma vida longa. Nem todos os micro-organismos são parasitários; alguns são mutualistas. Nosso microbioma é complexo. Além disso, consideremos as outras espécies vivas que compartilham a nossa casa comum, e celebremos e protejamos a vida e a saúde que eles e nós temos, enquanto as temos.

Precisamos tentar entender esse vírus como um recém-chegado em uma panóplia já existente de criaturas que estão associadas a nós – algumas matam, sim, mas muitas não. Podemos lamentar com profunda solidariedade junto àqueles que choram, mas a ansiedade não ajudará os que ficaram para trás.

Da próxima vez que uma nuvem de ansiedade surgir dentro de nós, reflitamos que as flores, os pássaros, as árvores e outras criaturas vivas ao nosso redor, mesmo em um ambiente urbano, não estão confinados. Pare para ouvir o canto dos pássaros. Seus louvores não podem ser eliminados, apesar da nossa mortalidade e doença. A mensagem cristã de esperança da Páscoa não pode ser suprimida. A graça de Deus está continuamente em ação em atos altruístas de autoesvaziamento, amor e sacrifício, mesmo em meio à pandemia.

Antes que soubéssemos da evolução, muitos teólogos tinham dificuldade em manter a crença em Deus com aquelas criaturas que nos pareciam imorais ou positivamente más. Mas não há nada explicitamente mau na Covid-19. Ela está fazendo aquilo que foi criada para fazer: multiplicar-se em seus hospedeiros, mantendo muitos deles vivos para transmiti-los a novos hospedeiros. Ela não “pretende” matar. Nós usamos uma linguagem antropomórfica de “batalha” e de “fome” na nossa relação com o vírus, pois isso nos ajuda a lidar com suas consequências sombrias e negativas nas nossas vidas.

Assim como as mudanças climáticas, ela é retratada como um horrendo “mal natural”, mas o seu impacto é uma consequência das nossas decisões e relacionamentos diários, muitos dos quais podem parecer inócuos, mas têm consequências devastadoras para outras partes inocentes. É um fenômeno moral, político e natural, mas que também tem um significado teológico.

A Covid-19 está ensinando ao gênero humano lições importantes que ele aprendeu pela primeira vez no crisol do seu surgimento inicial no tempo profundo. Nossas vidas estão emaranhadas entre si e com as outras espécies, e essa é a fonte da nossa força singular, mas também da nossa vulnerabilidade.

Honraremos melhor aqueles que sofreram e morreram ao aprendermos a levar muito mais a sério a nossa interconectividade com Deus, entre nós e com as outras criaturas. Além disso, mesmo o sofrimento mais profundo e sombrio não está fora do alcance da misericórdia e da graça de Deus, proporcionando assim uma oportunidade para a mudança e a renovação.

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