Cuidadores da Casa Comum: dignificar a vida dos jovens argentinos desde Laudato Sí

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31 Março 2020

Os jovens entenderam o cuidado da Casa Comum como uma emergência, como algo que não pode ficar para amanhã. Foram eles que pegaram a proposta do Papa Francisco lançada em Laudato Sí, assumindo uma posição que se torna realidade em uma infinidade de experiências espalhadas pelo mundo.

Uma delas se encontra na Argentina e leva o nome de Cuidadores da Casa Comum, coordenado por Dom Jorge Lugones, bispo de Lomas de Zamora. Hoje, está presente em cerca de 70 organizações em várias províncias do país, de norte a sul, como um local de encontro onde, começando pela encíclica de Francisco, estão sendo capacitadas pessoas, principalmente jovens.

Joaquín Cocconi é de La Plata, Argentina, onde surgiu o projeto e, aos 23 anos, é estudante de Ciência Política. Milagros Lugones também vive na mesma cidade e, na mesma idade, estuda na Universidade Nacional de La Plata. Ambos são referências nacionais dos Cuidadores da Casa Comum, que desde o início tem como preocupação fundamental os descartados da sociedade, trabalhando nos bairros mais humildes, onde os jovens que participam do projeto se tornaram referência para os demais.

Milagros e Joaquín sonham, uma atitude fundamental para construir o futuro, fazem-no com “um mundo que não seja construído contra o homem, mas que é construído a partir do homem, principalmente dos mais pobres e descartados”. Um mundo construído a partir dos mais pobres, "onde eles podem viver a vida plenamente, onde podem amar e ser amados". Para isso, Laudato Sí pode ajudar, na medida em que for respondida, "algo seja feito para cuidar de nossa Casa Comum".

A entrevista é de Luis Miguel Modino.

Eis a entrevista.

O que é Cuidadores da Casa Comum?

Milagros: Cuidadores da Casa Comum é um projeto que começou no final de 2015, quando Dom Jorge Lugones chegou a La Plata para nos contar o que Laudato Sí disse, a encíclica do Papa, que é o que o Papa nos disse em esse momento. Então, estavam reunidos Martha Arriola, coordenadora nacional do projeto de cuidadores, Marcelo Vernet, já falecido, mas também na época pensando, ouvindo o que era Laudato Sí e mais duas pessoas. Eles são militantes territoriais, educadores populares, de um bairro de La Plata, que é Villa Alba, onde nasce sua militância social territorial com a “Casita de los Pibes (crianças)”.

Seu trabalho estava sempre pensando nas crianças descartadas pela sociedade, as mais vulneráveis, as mais vulneradas. Pensando nisso, e o que Dom Jorge Lugones estava nos dizendo na época, o que Francisco nos chama em Laudato Sí? O que isso nos diz? Nesse momento, acenderam-se as luzes dos dois grandes pensadores, dizendo aqui que temos que fazer algo pelos cuidados de nossa Casa Comum e temos que fazer algo por essa falta de trabalho jovem que existe na Argentina. Lá eles começaram a desenvolver algo em suas cabeças, começaram a se reunir, a ler a encíclica, ali na casinha, a pensar naquele projeto, no que hoje é o Cuidadores da Casa Comum.

Joaquín Cocconi (Foto: Luis Miguel Modino)

Como esse projeto foi se concretizando nesses quase cinco anos?

Joaquín: Nosso pé está no território, trabalhamos nos bairros mais humildes e necessitados da Argentina e trabalhamos com organizações que já trabalham nesses bairros, que já têm uma história, que já estão consolidadas no vínculo com os vizinhos e vizinhas do bairro. Por isso, reunimos uma grande rede de organizações que trabalhavam com adolescentes e jovens e, com base nessas organizações, propusemos começar a trabalhar nessa novidade que Francisco nos trouxe, que era Laudato Sí.

A grande maioria dessas organizações já veio do trabalho com jovens, mulheres e homens descartados, mas o que entendemos é que o Papa nos traz uma novidade e tivemos que responder a essa novidade. A carta encíclica é precisamente uma carta à qual tivemos que responder, e a respondemos com um projeto concreto que começamos a partir de uma rede de organizações, hoje em dia com cerca de 70 no país.

Como tudo isso afetou a vida de quem participa do projeto, principalmente dos mais jovens?

Milagros: Socialmente, na vizinhança, como o bispo diz, aquelas crianças descartadas que estão no projeto hoje são os exemplos, que estão sendo vistas pelo resto da vizinhança. O bairro começa a ter consciência do que gera, em particular começa a elaborar diferentes trabalhos com o cuidado da Casa Comum e também começa a perceber que precisa terminar algumas coisas por dentro ou pelo que dignifica uma pessoa. Por exemplo a escola, eles percebem que querem sair para trabalhar, mas também não terminaram os estudos secundários. Então eles saem em busca de seus estudos, estão cientes do que cada um é capaz de fazer.

Joaquín: Existem três etapas no projeto, por um lado, temos uma linha de formação integral, na qual, como disse Milagros, é também para terminar os estudos escolares. Junto a formação integral, adicionamos formação relacionada a um trabalho específico, que pode ser com sete eixos de trabalho que temos: cuidado com a água, trabalho com a terra, energia renovável, indústrias e produtos culturais, também trabalhamos com ecoturismo e também com alimentação saudável. Tudo o que queremos fazer são projetos de trabalho que dignifiquem os jovens da Argentina, pensando também que o trabalho deve ser o grande organizador da vida interna.

Na Argentina, a sociedade do trabalho foi destruída, a sociedade em que o trabalho era a espinha dorsal e passamos para uma sociedade onde o centro da vida não era a fábrica, mas o bairro. É por isso que trabalhamos nos bairros e, a partir dos bairros, começamos a pensar em projetos de vida, projetos de trabalho decente com jovens que têm uma perna de formação integral, que está relacionada ao trabalho, uma perna que entendemos como fundamental, que é a espiritualidade, entendemos que os jovens têm feridas, têm problemas para curar também, e que não podemos pensar em trabalho, nem pensar em projetos de vida, pensar em projetos de trabalho dignos, sem pensar em tocar também nas fibras mais íntimas. Por fim, o que estamos procurando é que eles aprendam a se amar, que este será o centro de um projeto de vida digno.

Milagros Lugones (Foto: Luis Miguel Modino)

Poderíamos dizer que o cuidado da Casa Comum não pode ser separado do cuidado das pessoas, especialmente daqueles que vivem em maiores dificuldades, daqueles que a sociedade descarta?

Milagros: Você não pode separar uma coisa da outra, as duas andam de mãos dadas. Assim como Joaquín disse, temos eixos e esses eixos são acompanhados. Os eixos fazem parte do cuidado da Casa Comum e também de si, das pessoas, internamente e também em comunidade. É preciso estar ciente do que é capaz de fazer, a si mesmo e em comunidade. Se estamos cientes disso, podemos fazer grandes coisas.

No último ano, apareceu a figura de Greta Thunberg, que reuniu a luta dos jovens pelo cuidado do planeta, da Casa Comum. Qual pode ser o papel dos jovens no futuro do planeta e do cuidado da Casa comum? Os jovens têm mais consciência do que os adultos da necessidade urgente desse cuidado?

Joaquín: Hoje estamos vendo um processo de conscientização em relação ao cuidado com o meio ambiente, mas é muito interessante acrescentar ao que Greta diz, Greta nos fala da Europa, do Velho Continente, também é interessante pensar nos gritos da América Latina, e como o grito da Europa, que é um grito ambientalista, talvez um grito verde, é articulado e incorporado ao grito da América Latina, que é um grito social, que é um grito político, que é um grito do mundo descartado. A grande novidade desta época, a grande novidade que o Papa Francisco nos apresenta é, precisamente, que não podemos separar a crise ambiental da crise social, que só podemos pensar nos dois assuntos ao mesmo tempo.

Acima de tudo, que o clamor da Terra, como ele diz, é o clamor dos pobres. A América Latina, que é um ambiente, é um continente que faz carne esses dois gritos, que os pobres gritam e que a terra grita, porque é saqueada por empresas multinacionais, porque na maioria desses anos o processo foi de saques dos grandes países do norte, como Laudato Sí nos diz, também se combinam e se tornam um com o grito e a ferida dos descartados. Essa é, acima de tudo, a novidade deste tempo, e parece-me que os jovens desempenham um papel fundamental na interpretação e no comprometimento com esse problema, que é socioambiental, que não é ambiental só nem social só.

O Papa Francisco definiu o Sínodo para a Amazônia como filho de Laudato Sí. Para alguém que não mora na Amazônia, qual foi o impacto no seu trabalho, no seu pensamento, de tudo o que foi vivido durante o Sínodo para a Amazônia? Vocês têm visto isso como algo próximo, como algo que os afeta, como algo que também pode ajudar a realidade mais próxima em que vocês vivem?

Joaquín: Talvez consideremos a questão da Amazônia parcialmente distante. Mas é também o coração do continente, a Amazônia, é também o pulmão do continente. Talvez na Amazônia, toda a realidade da própria América Latina, como região, seja refletida e sintetizada. Na Amazônia, os povos são exterminados, o meio ambiente e a natureza também são exterminados. É gráfico, digamos, pensando nisso, a Amazônia é um reflexo fiel do que está acontecendo em todo o continente.

Em sua opinião, qual foi a influência do Papa Francisco ter nascido na Argentina para promover esse tipo de projeto na Argentina?

Milagros: A influência não é que o Papa é argentino, mas que ele vem da América Latina. Que ele leve seus gritos para o Velho Continente é importante. Não é o fato dele ser argentino, mas o que ele sabe, sabe o que está acontecendo, está ciente do que está acontecendo na Argentina. Ao levá-lo até lá, ele reflete o que está acontecendo aqui. Ele sempre teve uma ação pelos pobres, sempre tentou se concentrar nos mais descartados. Nós, ao ler a encíclica e ao ver que ela vem com novos ares para mudar a Igreja, para renová-la, quando lemos, chamou nossa atenção. ele escreveu e acontece, ou não por acaso, que ele era argentino.

O Papa Francisco, na Querida Amazônia, sonha com o futuro da Amazônia, com o futuro do planeta. Para alguém como vocês, que assumiram esse projeto de cuidadores da Casa Comum, de cuidadores do planeta, quais são os seus sonhos para o futuro?

Joaquín: Sonhamos, como um padre de La Plata disse, que o céu é vivido na terra, em suma, e que seja um mundo que não é construído contra o homem, mas que é construído a partir do homem, especialmente dos mais pobres e descartados. Entendemos que o mundo precisa ser construído e tem a ver com os olhos dos pobres. Para nós, os pobres da América Latina são os jovens, são as mulheres descartadas, descartados, porque entendemos que eles são as que mais sofrem com o flagelo desta época. Um mundo construído a partir deles, um mundo onde eles entram, onde são dignos, onde podem viver a vida plenamente, onde podem amar e ser amados. Entendemos que é o projeto do país e o projeto latino-americano que os Cuidadores da Casa Comum desejam, um mundo onde possamos restaurar a dignidade dos jovens por meio de projetos de trabalho decente.

Milagres: Meu sonho é que os cuidadores continuem integrados, que esse movimento que hoje abrange várias províncias do país continue a crescer, que continuemos a espalhar o que o Papa nos diz, que continuemos a levar essa carta e a espalhar o desejo de responder a ela, de querer fazer algo para cuidar de nossa Casa Comum. Sendo cuidadores da Casa Comum não apenas na Argentina, mas que isso pode ser alcançado, pode ser articulado pelo Brasil, Paraguai, em toda a América Latina.

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