Trump não pode receber o apoio católico

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12 Mai 2020

"Rodeado de dificuldades em ano eleitoral e vendo as pesquisas de opinião apontar-lhe perdas de votos, claro está que Trump quer desesperadamente o apoio da Igreja Católica. Ele não pode receber esse apoio. Os bispos devem deixar a política aos leigos", escreve Stephen Schneck, diretor-executivo da Franciscan Action Network, organização americana de frades e irmãs franciscanos dedicada a questões ecológicas, de direitos humanos, pobreza, entre outros, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 08-05-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Nota do editor do National Catholic Reporter: este artigo foi originalmente publicado na revista U.S. Catholic, revista dos padres claretianos,  e retirado sem aviso prévio. Com a permissão do autor, estamos republicando o artigo completo, com o título original.

Eis o artigo.

A campanha eleitoral de Trump tem se voltado aos eleitores católicos brancos, que formam um bloco importante em certas regiões dos EUA. No início deste mês, originalmente planejado como um evento restrito a Milwaukee, a campanha de Trump transmitiu ao vivo uma atividade envolvendo apoiadores católicos. Grupos amigos do presidente se puseram a contatar católicos no nível paroquial da região centro-oeste do país.

Recentemente, um funcionário do primeiro escalão do governo, o procurador-geral William Barr, telefonou para lideranças religiosas, incluindo clérigos e bispos católicos, e buscou amenizar as preocupações daqueles que temem um uso da Covid-19 para manter fechados os serviços religiosos e escolas confessionais.

Não há nada de errado aqui. Ambas as campanhas devem reconhecer a importância desses eleitores, muitos dos quais apoiavam Barack Obama e passaram a apoiar Trump na última eleição. Como católico, no entanto, preocupo-me sobre como a minha igreja reagirá a esse apoio.

Em 25 de abril, Trump, juntamente com a secretária de Educação Betsy DeVos e o secretário de Saúde e Serviços Humanos Ben Carson, telefonaram para os bispos católicos. Várias gravações e transcrições destes telefonemas acabaram publicadas.

Aparentemente, no caso das escolas católicas, os telefonemas serviram como um evento de campanha. O presidente afirmou que “para a Igreja Católica ele era o melhor da história”. Repetidamente, Trump apontou consequências terríveis aos católicos caso não se reeleger, dizendo que os democratas “querem o aborto até o final do nono mês e além”, citando Hillary Clinton e o governador democrata da Virgínia Ralph Northam.

Em seguida, o presidente prometeu, em relação às escolas católicas, que “vamos ajudá-los mais do que imaginam”. E, para que não houvesse dúvida sobre o que ele queria, o presidente elogiou a sua oposição à Emenda Johnson, que impede instituições isentas de impostos de apoiarem candidatos políticos, e insistiu em que instituições como a Igreja Católica podem agora “expressar seus pontos de vista com grande vigor”, além de que o dia 3 de novembro [eleições americanas] “nunca foi tão importante para a Igreja”. (Observação: Senhor Presidente, a Emenda Johnson NUNCA foi revogada.)

Trump age certo aqui; estamos em ano eleitoral, e o eleitor católico branco está em disputa, afinal política é política. A preocupação que tenho não tem a ver com você; tem a ver com a minha igreja. Por tradição, de acordo com as diretrizes da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos e de acordo com as diretrizes papais e o direito canônico, a Igreja Católica e suas autoridades devem evitar o partidarismo.

Muito depois do ponto em que ficara óbvio que o presidente estava orquestrando um evento de campanha, quatro bispos haviam se pronunciado: o bispo de Oakland, Dom Michael Barber, coordenador da comissão da conferência episcopal de educação católica; o cardeal de Nova York, Timothy Dolan; o arcebispo de Los Angeles, Dom José Gomez, atual presidente da Conferência dos Bispos; e o cardeal de Boston, Sean O’Malley.

O’Malley e Gomez permaneceram neutros nos comentários feitos, mas nenhum dos bispos chamou a atenção às dezenas de questões de justiça social que a Igreja tem com as políticas adotadas pelo atual governo: políticas que afetam a pobreza, os refugiados, os imigrantes, as mudanças climáticas, a justiça racial e assim por diante.

O menos neutro foi o Cardeal Dolan, que mostrou sua aprovação ao presidente e reiterou os elogios feitos ao político em entrevista à Fox News dias depois. Barber, bispo de Oakland, disse que esperava continuar com a parceria junto ao governo, agradeceu ao presidente pelas nomeações dos juízes da Suprema Corte Neil Gorsuch e Brett Kavanaugh e elogiou DeVos por ser um “grande aliado dos católicos”.

Que haja católicos para Trump e católicos para Biden, e católicos para nenhuma das opções anteriores. Que haja uma participação justa da minha igreja em questões como o aborto, a imigração, mudanças climáticas, etc. Mas que não vejamos indícios de partidarismo entre aqueles de colarinhos romanos e daqueles vestem mitras episcopais.
João Paulo II advertiu contra o envolvimento do clero nas eleições partidárias. Bento XVI instruiu que a política é dever dos leigos, não do clero.

Não acho que Dolan e Barber foram desonestos. Talvez, eles acharam ingenuamente que o telefonema não seria gravado. Talvez se viram apanhados pelo bem conhecido senso de humor do presidente. Afinal, Trump é um cara engraçado. Tenho certeza de que não pretendiam se mostrar partidários. No entanto, mostraram-se, e o fizeram escandalosamente.

A minha dúvida é: O que os companheiros bispos de Dolan e Barber devem fazer para consertar esta bagunça? Qual deveria ser a mensagem de Gomez, como presidente da Conferência dos Bispos dos EUA?

Rodeado de dificuldades em ano eleitoral e vendo as pesquisas de opinião apontar-lhe perdas de votos, claro está que Trump quer desesperadamente o apoio da Igreja Católica. Ele não pode receber esse apoio. Os bispos devem deixar a política aos leigos.

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