EUA: cardeal Dolan entrega a Igreja a Trump e ao Partido Republicano

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29 Abril 2020

"A voz católica, capaz de uma contribuição inestimável para o debate público, foi vendida a preço baixo a vendilhões políticos", assevera editorial de National Catholic Reporter, 28-04-2020, ao comentar o encontro de Trump com os cardeais Dolan e O'Malley juntamente com o presidente da Conferência Episcopal dos EUA.

Segundo o editorial, "no passado, existiram amizades entre presidentes e príncipes da Igreja dos EUA. O modo como elas afetavam o envolvimento da Igreja na política e nas políticas, negativa ou positivamente, diferia de uma circunstância para outra. Mas é raro, senão sem precedentes, que o aparato da liderança da Igreja seja cooptado no grau visto no caso de Trump".

"Certamente - continua o editorial - é sem precedentes que as lideranças se aconcheguem tão covardemente a um presidente cujo atributo mais consistente é uma propensão incontrolável à mentira, continuamente e sobre tudo. Ele está perigosamente desconectado da realidade e é definido por características que normalmente são condenadas nos púlpitos".

E o editorial prossegue:

"Essa aliança profana com Trump, junto com o empilhamento de republicanos da Suprema Corte, pode dar aos bispos a proibição do aborto que eles tanto desejam, mas isso não encerrará o debate. Eles podem até receber a verba federal de que precisam desesperadamente para prolongar a vida evanescente das escolas católicas. Mas tudo isso terá sido comprado às custas de toda uma série de outras questões relacionadas à vida e à justiça".

"Isso terá sido comprado em conjunto com um presidente cujo principal modus operandi é o de um valentão desprovido de empatia ou preocupação pelo bem comum - conclui o editorial. Se alguém realmente acredita na atual defesa de Trump das escolas católicas e do direito à vida, Dolan também está caindo no conto do vigário".

 

Eis o editorial.

 

A capitulação está completa.

Sem um pio de qualquer um de seus irmãos bispos, o cardeal arcebispo de Nova York ligou inextricavelmente a Igreja Católica dos Estados Unidos ao Partido Republicano e, em particular, ao presidente Donald Trump.

Já era bastante ruim que os cardeais Timothy Dolan, de Nova York, e Sean O’Malley, de Boston, acompanhados pelo arcebispo de Los Angeles, José Gomez, atualmente também presidente da Conferência dos Bispos dos EUA, participaram da versão telefônica de um comício de campanha de Trump no dia 25 de abril.

Com centenas de outras pessoas na teleconferência, incluindo educadores católicos, os bispos foram mais uma vez manipulados com maestria. Anteriormente, eles deram a Trump muitas imagens de campanha quando levaram os católicos ao seu discurso no comício da Marcha pela Vida, em Washington, no início do ano.

Agora, Trump terá em mãos o que Dolan falou no telefonema, ao dizer a todos que ele se considera um “grande amigo” de Trump, por quem ele expressou admiração mútua como “um grande cavalheiro”. O cardeal continuou dizendo que estava “honrado” por liderar os comentários do telefonema.

Toda a troca digna de tristeza (sim, Trump se autodescreveu como “o melhor” presidente da “história da Igreja Católica”) foi agravada no dia seguinte, quando Dolan forneceu mais imagens de campanha dentro da Catedral de São Patrício, ao anunciar que o presidente estava “rezando conosco”, supostamente assistindo a transmissão da missa na Casa Branca.

No passado, existiram amizades entre presidentes e príncipes da Igreja dos EUA. O modo como elas afetavam o envolvimento da Igreja na política e nas políticas, negativa ou positivamente, diferia de uma circunstância para outra. Mas é raro, senão sem precedentes, que o aparato da liderança da Igreja seja cooptado no grau visto no caso de Trump.

Certamente, é sem precedentes que as lideranças se aconcheguem tão covardemente a um presidente cujo atributo mais consistente é uma propensão incontrolável à mentira, continuamente e sobre tudo. Ele está perigosamente desconectado da realidade e é definido por características que normalmente são condenadas nos púlpitos.

EmPeople of Hope, uma longa conversa que Dolan teve com o jornalista John L. Allen Jr., publicado em 2012, um capítulo é dedicado às políticas em que o cardeal admite que há uma percepção compreensível de que os bispos dos EUA estão em uma aliança “de facto”, nas palavras do interlocutor, com o Partido Republicano.

Dolan afirma que a realidade é mais complexa. “A minha experiência é de que nós, bispos, na verdade, somos bastante escrupulosos ao querer evitar qualquer sabor partidário.”

Hoje, pode-se concluir razoavelmente que essa escrupulosidade se foi pela janela. Para Dolan e seus companheiros de viagem episcopal, a questão que tudo consome é o aborto. Ela encabeça a agenda em qualquer consideração política. Allen perguntou: “Você está dizendo que a percepção de ‘estar na cama’ com os republicanos, ou com a direita política, é o preço de relações públicas que deve ser pago por se ter um forte posicionamento sobre o aborto?”.

“Sim, é exatamente isso”, respondeu Dolan.

Infelizmente, os bispos pagaram um preço muito mais alto do que as más relações públicas em sua estratégia política nas últimas quatro décadas. O aborto é um assunto sério que eles transformaram em uma disputa política em um jogo sem vencedores, exceto os grupos extremos da questão, que embolsam dinheiro a cada quatro anos, sustentando carreiras e um debate sem fim.

Em uma interessante concessão à realidade, Dolan observa durante aquela conversa que ninguém menos do que um herói conservador como o falecido teólogo e cardeal jesuíta Avery Dulles perguntava muitas vezes se uma proibição legal ao aborto poderia ser imposta, observando que Tomás de Aquino aconselhava a não buscar leis não executáveis.

Essa é uma pergunta razoável, particularmente no contexto atual. O NCR sempre defendeu a eficácia do ensino da Igreja sobre as questões da vida, especialmente do modo como isso se encarna na consistente ética da vida do cardeal Joseph Bernardin. Ao mesmo tempo, objetamos regular e fortemente contra aquilo que os bispos fizeram em praça pública em relação à questão do aborto, porque a estratégia se mostrou mais eficaz em dividir a comunidade católica e em transformar a Igreja institucional em um empreendimento partidário.

Se uma proibição seria executável é uma questão legítima. Isso diz respeito à realidade política, algo que até os bispos abordam em seu tristemente datado guia de votação intitulado “Formando Consciências para uma Cidadania Fiel”. No parágrafo 32 do documento, os bispos reconhecem que leis imperfeitas e injustas podem existir, e mudá-las pode ser um processo gradual sujeito à “arte do possível”.

Por fim, é razoável notar que, neste momento particularmente, os bispos têm pouca credibilidade por duas razões. A primeira é que pesquisas após pesquisas têm mostrado, ao longo dos anos, que eles têm sido incapazes de persuadir até mesmo os católicos sobre o seu ponto de vista em qualquer proporção diferente do consenso que já existe no público em geral.

A segunda razão pela qual eles não têm credibilidade tem a ver com o seu próprio comportamento. Essa regra absoluta para as mulheres vem de uma cultura totalmente masculina que se mostrou bastante apta a acomodar um nível de violência contra crianças já nascidas, a encobri-la e a desejar ir além dos fatos e das vidas destruídas de milhares de vítimas e suas famílias.

É muito difícil assumir o papel de um moral absolutista na questão do aborto quando você demonstra uma capacidade de se engajar com um grau de relativismo que é realmente de tirar o fôlego ao lidar com o horrível abuso de menores. Seu próprio comportamento, ao longo de décadas de encobrimento de abusos, põe a mentira em uma postura santimoniosa em relação à dignidade absoluta de cada pessoa.

Essa aliança profana com Trump, junto com o empilhamento de republicanos da Suprema Corte, pode dar aos bispos a proibição do aborto que eles tanto desejam, mas isso não encerrará o debate. Eles podem até receber a verba federal de que precisam desesperadamente para prolongar a vida evanescente das escolas católicas. Mas tudo isso terá sido comprado às custas de toda uma série de outras questões relacionadas à vida e à justiça.

Isso terá sido comprado em conjunto com um presidente cujo principal modus operandi é o de um valentão desprovido de empatia ou preocupação pelo bem comum. Se alguém realmente acredita na atual defesa de Trump das escolas católicas e do direito à vida, Dolan também está caindo no conto do vigário.

Não precisa ser assim. Os próprios bispos, na conclusão do documento “Cidadania fiel”, descrevem uma abordagem diferente. Vale a pena repetir os pontos aqui:

- “A Igreja está envolvida no processo político, mas não é partidária. A Igreja não pode defender nenhum candidato ou partido.”

- “A Igreja está engajada no processo político, mas não deve ser usada. Acolhemos o diálogo com líderes e candidatos políticos; procuramos nos engajar e persuadir funcionários públicos. Eventos e fotos não podem substituir um diálogo sério.”

- “A Igreja tem princípios, mas não ideologias.”

A aliança acrítica dos bispos católicos com os republicanos e Trump oblitera esses princípios e permite que os católicos descartem o documento por falta de intenção séria.

A aliança também distancia ainda mais a Igreja de qualquer alavancagem que ela possa possuir em uma série de questões da agenda da justiça social católica que afetam profundamente a vida dos vulneráveis e dos marginalizados, assim como de qualquer esperança de intermediar modificações no aborto sob demanda com os democratas.

A voz católica, capaz de uma contribuição inestimável para o debate público, foi vendida a preço baixo a vendilhões políticos.

 

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