Cardeal Dolan considera vender a sede arquidiocesana de Nova York

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13 Janeiro 2017

O cardeal de Nova York Timothy Dolan informou a seu clero que está considerando mudar a sede da arquidiocese que hoje ocupa um prédio no centro de Manhattan, numa tentativa de economizar dinheiro e corrigir o que diz ser uma “percepção injusta e imprecisa da arquidiocese como uma corporação inflada, dedicada a arrecadar dinheiro”.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 11-01-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O cardeal revelou a possível mudança em uma carta altamente carregada aos padres e diáconos no fim de novembro onde também repreende o clero por se queixar sobre a forma como a arquidiocese coleta dinheiro das paróquias e exorta-o a desafiar os paroquianos a doarem com mais frequência e abundância.

Ao longo de toda a carta de quatro páginas, obtida pelo National Catholic Reporter, Dolan adota um tom amargo, ao lamentar que os sacerdotes supostamente se queixam de a arquidiocese estar interferindo nos assuntos das paróquias ou de que a sua administração não está fazendo o suficiente para apoiá-las nas suas áreas particulares de ministério.

Ao pedir aos sacerdotes que incentivem os paroquianos a dar mais dinheiro à arquidiocese, o cardeal escreve: “Por que temos medo de exortar o nosso povo à generosidade sacrificial?”.

“Os evangélicos com certeza demandam serviço!”, exorta o cardeal. “Os mórmons com certeza também! As nossas sinagogas judaicas igualmente! A organização Planned Parenthood certamente pressiona os seus doadores! As causas seculares também!”

Em um outro momento no texto, intitulado Pastores Dabo Vobis (“Dar-vos-ei pastores”), o cardeal identifica que um “problema global” que ele enfrenta é uma “desconfiança, e um antagonismo, para com a arquidiocese”.

Para combater essa desconfiança e a suposta percepção pública equivocada sobre a saúde financeira da arquidiocese, Dolan afirma que está avaliando tirar a chancelaria arquidiocesana de seu local atual, na 1ª Avenida.

“Estamos seriamente em busca de uma sede menor”, escreve. “O atual prédio precisa de reparos, e eis um bom momento para economizar dinheiro e ajuda com uma nova imagem mudando-nos para uma sede menor, mais simples”.

Vários sacerdotes arquidiocesanos de Nova York contatados pelo National Catholic Reporter não quiseram comentar a carta ou a possível mudança da sede, citando o desejo de respeitar o processo decisório da arquidiocese.

Joseph Zwilling, diretor do departamento de comunicação da arquidiocese, disse, por telefone nesta quarta-feira, que a ideia de mudar a sede está em discussão há anos, remontando antes de Dolan se tornar arcebispo em 2009.

Zwilling falou que o prédio, construído na década de 1970, precisa de muitos reparos.

“Estamos neste momento considerando a possibilidade e nada está decidido a esta altura”, disse. “É algo que obviamente iremos discutir com o conselho de finanças da arquidiocese, e buscaremos uma resposta deles quanto à melhor forma de proceder, quer seja vender a propriedade, quer seja alugá-la”.

Zwilling também declarou que quando Dolan escreve em sua carta sobre a sensação de uma desconfiança da arquidiocese, ele está se referindo a uma “inclinação natural por parte do povo de culpar a arquidiocese”.

“A arquidiocese quer expandir os ministérios e seu trabalho social”, disse. “Mas toda vez que falamos da necessidade de angariar fundos ou da necessidade de economizar, as pessoas sempre olham para a arquidiocese e dizem: ‘Vocês só se importam é com o dinheiro’”.

“É um obstáculo difícil de superar, fazer as pessoas perceberem que, se quisermos continuar com o trabalho de servir o povo em suas necessidades, precisamos encontrar meios de sustentar a obra”, disse Zwilling.

Um especialista em angariar fundos na Igreja disse que não ficou surpreso ao ouvir que Dolan estava considerando alugar ou vender o prédio da sede arquidiocesana – que provavelmente estaria entre os mais caros dentro do mercado imobiliários da cidade –, mas falou que o tom da carta do cardeal, este sim foi uma surpresa.

“O tom me pegou desprevenido”, disse Charles Zech, diretor do corpo docente do Centro de Administração da Igreja e Ética Empresarial da Villanova University, na Filadélfia. “Achei que foi muito sarcástico”.

“Acho também que ele está querendo dizer algo importante com isso”, disse Zech, que também já publicou livros sobre as estruturas e tendências financeiras paroquiais e diocesanas. “Talvez ele tentou educar os sacerdotes e não deu certo, então achou que talvez um tom diferente possa ser melhor para chamar a atenção deles”.

Dolan atrai a atenção na carta com declarações em negrito e sublinhadas, e com perguntas abertas dirigidas aos padres. “Como essa ‘arquidiocese inflada, dedicada a arrecadar dinheiro’ obtém o seu dinheiro?”, pergunta o cardeal a certo ponto, antes de delinear uma meia dúzia de fluxos de renda da arquidiocese.

“Quando ouço vocês e o povo, geralmente ouço elogiarem a arquidiocese pelas muitas iniciativas, mas também ouço pedir que façamos ainda mais, acrescentando mais causas e necessidades que a arquidiocese deveria subsidiar”, diz o prelado aos sacerdotes de sua jurisdição. “Em seguida ouço vocês dizerem: ‘O senhor nos pede muito dinheiro!’”.

Dolan se queixa em particular de um grupo de padres na arquidiocese que, segundo ele, estão à frente de paróquias que têm uma renda adequada e reclamam quando a arquidiocese lhes pede dinheiro.

“Essa minoria vai dizer que o dinheiro é deles!”, escreve. “Eles o precisam! Ele pertence à paróquia! É injusto dá-lo à arquidiocese! Nosso povo não pode sustentar a arquidiocese! Nos deixem em paz!”.

O cardeal compara este suposto grupo com “a maioria dos padres que se regozijam com o costume arquidiocesano da taxação extraordinária de 50% sobre as paróquias com grande renda para além do Ofertório de domingo, porque essa quantia pode ser compartilhada”.

Imaginando a resposta das paróquias que não têm uma renda adequada, Dolan escreve: “Por que, perguntam, ‘deveriam estas paróquias, em sua maioria em Manhattan, ficar com todo este dinheiro para reparar reitorias, decorar igrejas, pagar coros e funcionários, quando eu sequer consigo consertar a caldeira por falta de verbas?!”.

Um outro especialista em arrecadação de fundos católico disse achar que o cardeal está tentando responder a uma mudança de mentalidade entre os sacerdotes que se deu nas últimas décadas, de preferir uma maior autonomia financeira na relação com os bispos.

“Me parece que parte desta carta está respondendo a esse tema, e talvez não da melhor maneira, mas, apesar de tudo, o aborda”, disse Richard Burke, consultor executivo para a Escola de Administração Católica, que presta assessoria a dioceses e bispos sobre temas relacionados às instituições de ensino católicas.

Além da desconfiança em relação à arquidiocese, Dolan identifica dois outros problemas gerais na carta.

O religioso apresenta o primeiro problema na forma de uma pergunta: “Eu me pergunto: somos católicos ou somos congregacionistas?”

“Um congregacionista irá identificar a Igreja com a sua própria paróquia, ou com a própria organização de caridade, uma causa pessoal”, escreve. “Todo o dinheiro é local, e permanece aí. ‘Dolan, vá pegar o seu próprio dinheiro! Esse é nosso!’”

“Um católico percebe que a Igreja é sempre para além de nós, é universal, sem fronteiras”, continua ele. “Sim, temos uma aliança pessoal compreensível, louvável com a nossa paróquia, mas como católicos amamos também a nossa arquidiocese e a Igreja em todo o mundo”.

Dolan diz que o segundo problema é temer “desafiar o nosso povo ao serviço, à administração responsável”.

“São pessoas que doam a todos os tipos de causa: candidatos políticos, faculdades, escoteiros, parques, combate ao câncer, abrigos de animais, e eu fico feliz que façam isso”, escreve o cardeal.

“Mas por que então ficamos tímidos em desafiá-los a cumprir o dever bíblico de apoiar, ao ponto do sacrifício, a Igreja (a paróquia, a arquidiocese e a Igreja em geral)?”, pergunta-se.

Zech diz que se fosse ele quem escrevesse a carta, teria endereçado ela também aos leigos da Arquidiocese de Nova York, para que pudessem melhor entender a necessidade de doar à Igreja.

“Um dos grandes problemas que a Igreja Católica enfrenta é que temos, realmente, poucos doadores”, diz ele, citando dados segundo os quais uma família católica típica contribui somente com 1,1% de sua renda para a Igreja.

O professor da Villanova também disse que a Arquidiocese de Nova York leva uma quantia menor do dinheiro que as pessoas dão a suas paróquias do que as demais dioceses em geral levam. Na carta, Dolan identifica que o nível de imposto da arquidiocese sobre as doações paroquiais é de 8%.

Considerando este número “realmente baixo”, Zech disse que “este dado realmente me surpreende como uma coisa que deveria ser enfatizado aos padres”.

Burke falou que teria aconselhado Dolan de que, ao invés de escrever a carta aos sacerdotes, ele poderia tê-los encontrado em grupos regionais para dizer da situação que a arquidiocese enfrenta.

“Penso que isso traria maiores chances de obter uma resposta favorável e faria com que os padres soubessem que ele está junto na causa”, disse Burke.

“Muitos vão ver essa carta como uma reprimenda”, acrescentou. “Alguns vão simplesmente jogá-la fora. Outros a usarão como fundamento para falar mal do bispo”.

O título da carta do Cardeal Dolan, Pastores Dabo Vobis, é também o título de uma exortação apostólica de 1992 escrita pelo Papa João Paulo II na sequência do Sínodo dos Bispos de 1990, que focou a formação sacerdotal na era moderna.

Dolan termina a carta dizendo aos sacerdotes: “Estamos junto nessa, irmãos”.

“Não estou me queixando (…) Estou desafiando!”, escreve. “Não estou reclamando (…) Sou grato”.

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