Em novo livro, John O’Malley compara, lado a lado, três concílios da Igreja

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04 Outubro 2019

Qualquer pessoa familiarizada com a história da Igreja sabe que o padre jesuíta John W. O’Malley é um dos maiores historiadores da Igreja Católica do último século. Atualmente professor do Departamento de Teologia da Georgetown University, ele possui um doutorado em História pela Universidade de Harvard. Sua especialidade é a cultura religiosa do início da Europa moderna. Provavelmente, sua obra mais conhecida é “Os primeiros jesuítas”, publicada pela Harvard University Press em 1993 e traduzido para 12 idiomas [em português, pela Ed. Unisinos/Edusc, 2004].

O comentário é de Frederick J. Parrella, teólogo estadunidense e professor da Santa Clara University, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 02-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Com essas credenciais acadêmicas de destaque, foi com grande entusiasmo que li “When Bishops Meet: An Essay Comparing Trent, Vatican I, and Vatican II” [Quando os bispos se encontram: um ensaio comparando Trento, Vaticano I e Vaticano II]. Eu não fiquei decepcionado.

Inúmeros livros, é claro, foram escritos sobre os três grandes concílios pós-Reforma da Igreja Católica Romana:

- Trento (1545-1563), que solidificou a tradição católica depois de Lutero, Calvino e outros reformadores;

- Vaticano I (1869-1870), que viu o triunfo do ultramontanismo, a declaração da infalibilidade papal e uma Igreja isolada do mundo social e político em que vivia;

- finalmente, o Vaticano II (1962-1965), que testemunhou o início da compreensão da Igreja sobre a sua natureza histórica, o pluralismo social e religioso do mundo em que vivia e a necessidade de reformas contínuas.

O’Malley escreveu livros monográficos detalhados sobre cada um desses concílio (“Trent: What Happened at the Council”; “Trent and All That: Renaming Catholicism in the Early Modern Era”; “Vatican I: The Council and the Making of the Ultramontane Church”; e “What Happened at Vatican II”).

No entanto, de acordo com O’Malley, seu último trabalho é único, porque ninguém escreveu um livro comparando e contrastando os três concílios e explorando a relação entre eles. O’Malley se propõe a estudar os três concílios de maneira síncrona, em vez de diacrônica; ou lado a lado, em vez de historicamente, do mais antigo ao mais recente.

O livro é precioso e vale a pena ser lido por pessoas de origens muito diferentes. Para aquelas que sabem poucos detalhes sobre os três concílios, elas aprenderão muito; para outras que já conhecem a eclesiologia conciliar moderna, elas ficarão surpresas com as novas intuições que descobrirão através da profundidade da apresentação e da sutileza de interpretação de O’Malley.

Se há uma frase que resume aquilo que O’Malley vê como central para a mudança radical de compreensão por parte dos bispos no Vaticano II em relação aos dois concílios modernos anteriores, é a seguinte: “A tradição não é inerte, mas sim dinâmica”.

Como ele diz, “o que há de especial no Vaticano II em relação aos dois concílios anteriores é, portanto, que ele tomou suas decisões com plena consciência da realidade da mudança e com plena consciência de que essa realidade afetava a Igreja em todos os aspectos. Para um concílio, agir com tal consciência da mudança é, em si mesmo, uma mudança significativa”.

E ele afirma este ponto final sobre a mudança: “Se tal mudança alcançou seu objetivo, ela também implicou um processo de redefinição que era tanto contínuo quanto descontínuo em relação ao passado”.

Um aspecto significativo do livro de O’Malley é o seu notável detalhe histórico na apresentação de cada um dos três concílios, embora não sacrifique uma visão mais ampla e histórica que é essencial à natureza da obra.

Na primeira parte do livro, O’Malley aborda três questões vitais: o que os concílios fazem? O ensino da Igreja muda? Quem está no comando?

Na segunda parte, ele examina os participantes dos concílios: os papas e a Cúria, teólogos, leigos e um grupo incomum que ele chama de “Outros”. Os “Outros” poderiam incluir pessoas como governantes civis, tais como reis e príncipes. Mas, muito mais importante, o “Outro” era o contexto histórico e o mundo em que os concílios ocorreram.

Para Trento, é claro, era a realidade do protestantismo; no Vaticano I, o “Outro” era o liberalismo clássico, incluindo “racionalismo, ateísmo, democracia, desrespeito à autoridade, desprezo pela tradição, menosprezo pela religião e a secularização radical da sociedade”, a ladainha de erros descritos com tanta vivacidade pelo Papa Pio IX no seu “Sílabo de Erros” em 1864.

No Vaticano II, o “Outro” incluía representantes de outras tradições cristãs, até mesmo de outras religiões do mundo. Mas o “Outro” extremamente importante era o próprio mundo contemporâneo, e tudo o que o mundo havia se tornado como resultado de duas Guerras Mundiais, o salto quântico na ciência e na tecnologia, e a separação final entre religião e cultura, de modo que uma cultura verdadeiramente secular controlava vida cotidiana.

Na seção das conclusões, O’Malley faz duas perguntas cruciais: que diferença os concílios fizeram; e haverá outro?

A resposta para a última pergunta, como a tradição nos diz, é redondamente “sim”. Embora Trento tenha sido “bispo-cêntrico por excelência”, e o Vaticano I, “papa-cêntrico”, o Vaticano II foi um concílio para a nova Igreja mundial emergente, cujo objetivo foi “explorar em profundidade a identidade da Igreja, recordar e tornar operativos os seus valores mais profundos e proclamar ao mundo a sua sublime visão da humanidade”.

When Bishops Meet” é uma leitura obrigatória para o historiador da Igreja, para o teólogo ou para qualquer pessoa interessada na continuidade e na descontinuidade na tradição histórica da Igreja. O livro é uma lente para ver a Igreja como um mistério da graça e também como uma comunidade de pecadores. Quando eu lecionar novamente sobre eclesiologia, a mais recente contribuição de O’Malley para a história da Igreja estará no topo da minha lista de leitura.

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