O que a Igreja Católica deveria tirar de lição do primeiro ano do governo Trump?

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09 Novembro 2017

O que a Igreja Católica aprendeu desde a vitória surpreendente de Donald Trump na eleição para presidente no ano passado? Ou, talvez a pergunta mais apropriada seria: O que a Igreja Católica deveria tirar de lição este ano? Essas são as questões finais que formulo na série que marca o aniversário das eleições americanas do ano passado aqui National Catholic Reporter.

A reportagem é de Michael Sean Winters, publicada por National Catholic Reporter, 08-11-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Quando se aproxima o aniversário da eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, a equipe do National Catholic Reporter se perguntou sobre se continuavam urgentes os chamados à ação feitos imediatamente após a eleição. Identificamos várias questões importantes a explorar e pedir para os nossos repórteres entrevistar figuras-chave sobre o que de importante aconteceu desde 08-11-2016. A série completa pode ser encontrada aqui. [1]

É lugar-comum notar que a Igreja Católica, neste país, está polarizada. Houve um congresso inteiro sobre o assunto da polarização em que participei, na Universidade de Notre Dame, evento que resultou no livro “Polarization in the US Catholic Church: Naming the Wounds, Beginning to Heal”. Em grande parte, as fontes da polarização debatidas aí eram eclesiais: alguns preferem modos tradicionais de culto, outros invocam o “espírito do Vaticano II”, já outros querem que a Igreja seja mais acolhedora aos fiéis LGBTs, enquanto outros pensam que o casamento homoafetivo é o sinal claro de uma cultura cristã em extinção, e assim por diante.

No congresso, todas as contribuições foram excelentes, porém uma assumiu uma significação maior para mim no ano passado com Trump: a apresentação da professora Nichole Flores, intitulada “Quando o discurso se desmembra: raça e solidariedade estética na Igreja Católica dos EUA”. Quando ouvi a palestra de Flores em 2015, achei-a interessante e provocativa, mas hoje percebo que a questão da raça corre solta em nossa sociedade e em nossa igreja de um jeito que eu esperava que já tínhamos ultrapassado.

Como muitos americanos, eu esperava que tivéssemos ultrapassado uma fronteira com a eleição do nosso primeiro presidente negro. Sim, ainda havia inúmeros incidentes nos quais jovens negros eram vítimas de violência nas mãos da polícia e, sim, as diferenças de renda entre as raças continuaram persistentes e fortes, mas eu não via a raça como um motor motivador da política, como era, digamos, nas décadas de 1950 e 1960. Eu estava errado.

Enquanto igreja, aprendemos que o racismo ainda tem o poder de conduzir a narrativa política, uma narrativa feia com certeza e que encontra espaço no coração de muitíssimos católicos. Mesmo se estipularmos que muitos católicos brancos não coadunam com o ímpeto racial deste governo, inúmeros católicos americanos estão abertos para ignorar ou desconsiderar o racismo que Trump defende. Muitíssimos católicos não veem o pecado que o próprio racismo é, nem se importam em examinar os efeitos maléficos deste pecado.

O padrão é óbvio: sempre que sente a necessidade de um reforço, Trump volta-se à alt-right, a temas brancos nacionalistas que reacendem suas bases. Esta é a sua principal zona de conforto porque ela anima os seus apoiadores mais devotos. E muitos destes são católicos. Numa época em que o nosso maravilhoso papa nos convida continuamente a uma visão inclusiva de igreja e sociedade, nós temos um presidente que edificou a sua força política com base na divisão e exclusão.

O ensino da Igreja está claro: “Define-se o racismo como um pecado porque ele ofende a Deus como uma negação da bondade da criação”, escreve Donald Wuerl, cardeal-arcebispo de Washington, em uma recente carta pastoral. “É um pecado contra o próximo, particularmente quando manifesto em apoio de estruturas sociais, econômicas e políticas sistêmicas de pecado. [O racismo] é também um pecado contra a unidade do Corpo de Cristo ao minar aquela solidariedade com pecados pessoais de preconceito, discriminação e violência”.

O cardeal citou uma variedade de documentos católicos anteriores e, claro, as palavras de abertura do Livro de Gênesis, que claramente demonstram a fraternidade de toda a raça humana originada da paternidade comum de Deus. Este ensinamento não é novo, no entanto, o pecado do racismo perdura.

Os bispos formaram uma comissão ad hoc para abordar o problema do racismo. Desconheço o que sairá daí. O certo é que ouvimos pouquíssimos sermões sobre o racismo. Quantas vezes nos deparamos com inserções neles sobre o artigo legislativo que trata dos métodos contraceptivos no país, mas nada vemos sobre o racismo?

Muitos bispos dos Estados Unidos foram para a fronteira quando o Papa Francisco veio à Ciudad Juárez, no México, em fevereiro de 2016: Quantos retornaram para suas dioceses e denunciaram o que lema característico de Trump, o de “construir um muro”?

Quantas vezes devemos assistir o canal televisivo católico EWTN e ver Sebastian Gorka, ex-assessor da Casa Branca que, por vezes, se apresenta à direita de seu mentor Steve Bannon, apoiarem os discursos de ódio a imigrantes e muçulmanos proferidos pelo presidente?

Também aprendemos que não basta apoiar um candidato por ele professar oposição ao aborto. Alguns de nós sabíamos disto antes de Trump se tornar presidente, mas com certeza isso agora ficou óbvio para todos, exceto para os deliberadamente cegos. Realmente, a causa pró-vida, como a preocupação com a liberdade religiosa, irá sair machucada e maltratada por ter sido associada a este homem.

Compete aos que verdadeiramente se preocupam com a causa dos nascituros reconhecer que, agora, chegou o momento de abraçar uma abordagem que enseja uma ética coerente de vida. Esta abordagem, contudo, distanciar-se-á do presidente que flerta com a perspectiva de guerra nuclear, nega o fato óbvio de que as mudanças climáticas já estão pondo em perigo a vida humana e que nega a cobertura nos seguros de saúde a milhões de cidadãos com implicações óbvias e negativas para a dignidade da vida humana.

A Igreja Católica aprendeu que deve encontrar a sua voz e defender as nossas famílias imigrantes. No ano passado, a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos criou uma força-tarefa para a imigração e pouco ouvimos dela. Sim, os bispos emitiram algumas declarações fortes, mas já passou da hora de eles tomarem medidas mais drásticas. O Rev. Martin Luther King Jr. não limitava o escopo de sua atividade política a emitir notas.

Os nossos bispos estão bem cientes da autoridade moral diminuída deles na praça pública, em grande parte devido à má conduta na questão dos abusos sexuais clericais. Porém, eles podem começar a reivindicar esta estatura moral se estiverem dispostos a se engajar em movimentos de desobediência civil em nome dos nossos irmãos e irmãs imigrantes. Eles se preocupam, com razão, em não engendrar falsas esperanças ao declarar suas igrejas como centros de refúgio, mas deveriam se arriscar caso aqueles que buscam ajuda estejam dispostos a correrem o risco: Será que o governo federal realmente invadiria uma igreja católica para prender os imigrantes?

Aprendemos que, na questão premente das mudanças climáticas e da ação necessária para salvar a casa comum, o nosso país provavelmente irá perder quatro preciosos anos, anos que talvez não deveríamos perder. As calotas polares continuarão a derreter. Os níveis do mar continuarão a aumentar e os próprios mares vão continuar a aquecer, resultando em furacões mais fortes e eventos climáticos mais severos. As emissões de combustíveis fósseis continuarão a envenenar a atmosfera. A biodiversidade será ignorada pelo governo federal.

O chamado do papa a enfrentarmos este problema [a questão climática] se perdeu em Trump. Numa época em que verdadeiras lideranças políticas estariam galvanizando o país para o tipo de mobilização que ele empreendeu após Pearl Harbor, o presidente, ao invés disso, escolhe ignorar a mais grave ameaça ao planeta preferindo a guerra nuclear. Se os nossos bispos e outros líderes religiosos não se colocarem de pé e se não fizerem o que podem, com palavras a atos, nos níveis locais e estaduais, e dentro de suas organizações e propriedades, quem irá?

Hoje sabemos que as chances de uma guerra nuclear estão mais próximas do que achávamos em 1962, por exemplo. A memória da inovadora carta pastoral dos bispos “The Challenge of Peace”, é apenas uma memória. Quase ninguém – exceto o papa! – questiona a indústria armamentícia, a qual Trump impulsionou no Japão, vendo os recentes testes de mísseis norte-coreanos por cima deste país como uma chance de fazer aumentar as vendas.

O presidente é um homem sem compasso moral. Sabíamos disso um ano atrás, quando ele venceu a presidência. Mas o que ficou mais óbvio é que existe um vácuo moral no seio da nossa sociedade, hoje, não somente nesta ou naquela questão, mas de um modo sistemático. Muitos de nós discordamos de certas conclusões morais de presidentes anteriores, mas não precisávamos lutar contra uma falta completa de quadro moral no líder mais visível importante em nossa política.

Na próxima semana, os bispos irão se reunir em Baltimore. Me pergunto se irão discutir a crise moral que o país enfrenta como decorrência da presidência de Trump. Não espero que algo em particular aconteça. A Igreja tem muito mais a aprender.

Nota:

[1] Série intitulada “A nation under Trump”.

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