A conflitiva relação do papa João Paulo II com as mulheres e o sexo

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17 Fevereiro 2016

A relação do papa João Paulo II com a filósofa Anna-Teresa Tymieniecka, mãe de três filhas, que durou 30 anos, não foi a única amizade intensa do Papa polonês com uma mulher. Antes da relação com a filósofa, João Paulo II manteve outra forte relação com a médica psiquiatra Wanda Poltawska, casada com o também psiquiatra André e mãe de seis filhas. A amizade, que durou 50 anos, se iniciou quando Wojtyla era padre, com 30 anos, e a psiquiatra buscava alívio em um confessor após ter sofrido cinco difíceis anos no campo de concentração de Ravesbruck.

A reportagem é de Juan Arias, publicado por El País, 16-02-2016.

Wanda se resistiu a entregar todas as cartas recebidas durante anos de Wojtyla ao processo de canonização de João Paulo II. Ele a chamava de “irmãzinha” e afirmou que Deus lhe “havia encomendado” aquela amizade. A amizade do futuro Papa com Wanda e suas filhas chegou a ser familiar. Juntos, às vezes com seu marido, às vezes somente com ela e suas filhas, passavam dias acampados nas montanhas de Cracóvia

Uma revista italiana publicou fotos do então bispo Wojtyla de shorts e camiseta fazendo piqueniques no campo com Wanda e suas filhas. A amizade com a psiquiatra polonesa durou até a morte do Papa, a quem as filhas de Wanda chamavam de “tio Karol”. 

Eu as conheci em uma tórrida manhã de agosto em Roma. Estava em uma comunidade de religiosas leigas, sem hábito, que para ganhar algumas liras alugavam quartos para pessoas de absoluta confiança. Eu queria alugar um quarto ao militar espanhol que ensinou o então Príncipe Juan Carlos a pilotar helicópteros, que era o encarregado de comprar e levar à Espanha os helicópteros Augusta para o governo espanhol.

Enquanto conversava com as religiosas chegou um grupo de jovens loiras, com o rosto queimado de sol, que contaram maravilhadas que haviam estado em Castelgandolfo, a residência de verão dos papas nas cercanias de Roma, “tomando banho de piscina com o Papa”. Quando se retiraram, as religiosas me explicaram que aquelas garotas eram “como filhas” para o papa Wojtyla pois as viu crescer e sua mãe era uma psiquiatra, velha amiga sua desde muito jovem. Eram as filhas de Wanda.

A desenvoltura do Papa polonês com as mulheres sempre foi proverbial e não era escondida. E ao mesmo tempo, apesar de se dizer “feminista”, Wojtyla foi um dos papas mais conservadores em matéria de sexo. Defendia que o papel da mulher na Igreja era, como Maria, “estar de joelhos e em silêncio aos pés da cruz”, como disse, em Washington, à religiosa Theresa Kane, presidenta das religiosas dedicadas ao ensino.

Kane criticou João Paulo II por não dar mais espaço à mulher na Igreja. Era a primeira vez que uma religiosa criticava o Papa em público. Wojtyla sempre manteve uma relação conflitiva com a mulher e o sexo. Mieczslav Malinski, sacerdote e poeta, foi durante a vida de Wojtyla, antes de chegar ao pontificado, seu fiel secretário e escudeiro, assim como seu confidente. Costumava ir com frequência almoçar no Vaticano convidado pelo Papa. Quando saía do almoço nós tomávamos um café juntos e conversávamos. Segundo ele a relação de Wojtyla com a mulher sempre foi de “sublimação e conflitiva”, já que via na mulher “o reflexo de Maria, a mãe de Jesus”.

Segundo Malinski, justamente por isso, Wojtyla conseguia ser ao mesmo tempo desinibido em seu trato com as mulheres até “quase escandalizar”.  Foi ele quem me contou que, sendo ainda um jovem padre, Wojtyla gostava de ir com grupos de rapazes e garotas acampar durante dias em lagos e montanhas. Em uma dessas vezes marcou um encontro na estação de trem com um desses grupos para saírem em excursão, mas somente cinco garotas apareceram. Acreditando que sem os garotos a excursão seria suspensa, ficaram tristes. Então Wojtyla lhes disse: “Não importa, nós vamos sozinhos”, e acrescentou: “Diante das pessoas, me chamem de tio ao invés de padre”.

Malinski acrescentou: “Naquela época, na Polônia, o gesto de Wojtyla era muito arriscado, já que um padre, vestido como leigo, excursionando durante vários dias com cinco garotas, era quase uma loucura” (extrato retirado de meu livro publicado na Espanha pela editora Grijalbo Um Deus para o Papa). 

Foi Malinski, entretanto, quem me lembrou que a relação de Wojtyla com a mulher, aparentemente desinibida, mantinha sempre um fundo de dor já que, em vida, ainda criança, perdeu as duas mulheres de sua vida: sua mãe que morreu jovem, de infarto, e sua irmã que nasceu morta e que, como seus pais eram muito católicos, ao não poderem batizá-la, não a enterraram.

Por isso não está no túmulo da família no qual Wojtyla, já Papa, reuniu todos os seus parentes. “Falta minha irmã, que nasceu morta”, comentou publicamente uma vez falando do túmulo de sua família. Alguns relacionaram a menina ao fato de, já Papa, Wojtyla abolir do Catecismo Universal do Concílio o limbo das crianças. Não queria que sua irmã morta, sem ser batizada, pudesse estar no limbo, sem gozar de Deus.

O Papa via o feminino como reflexo da virgem Maria. Tanto que chegou a propor, durante uma de suas viagens, a figura de São José como ideal dos maridos, e em 8 de outubro de 1980, durante a audiência geral em São Pedro, afirmou que o marido “que olha com concupiscência sua mulher comete adultério em seu coração”. E mais, propôs, para melhor manter a relação entre casados, “a abstinência sexual”.

Wojtyla dedicou semanas inteiras a desenvolver em suas homílias públicas o tema do “corpo” nos textos bíblicos, e esse problema do corpo e suas angústias se reflete também em suas poesias:

“E em nós que contemplamos o outono,
desencadeia-se a luta através da rachadura,
que cada homem leva dentro de si;
quando o homem ainda está no passado de seu amanhecer,
e quando não consegue aquele amanhecer em seu corpo”.

O sucessor do papa João Paulo II, o cardeal Joseph Ratzinger, sendo já Prefeito da Congregação da Fé, durante jantar na casa de um jornalista alemão amigo seu ao qual compareci, afirmou que o papa polonês “sabia pouca teologia”, e que precisou revisar um texto de Wojtyla “sobre a mulher e a Virgem Maria”. Segundo Ratzinger, Wojtyla era sobretudo um “poeta e filósofo”.

Sobre os escritos de Wojtyla sobre a ética sexual, o teólogo e escritor Piergiorgio Mariotti escreveu: “Pode parecer paradoxal, mas a ética sexual de João Paulo II corre o risco de cair no antropomorfismo”. Segundo Mariotti, Wojtyla nunca encontrou uma “harmonia interior” no campo sexual, já que “não era um homem em paz consigo mesmo”. Ele é defendido, entretanto, pelo político italiano Rocco Butiglione, que diz que para João Paulo II “o amor é a chave para a compreensão da castidade”.

Antes de ser Papa, Wojtyla escreveu: “Toda moral sexual se baseia na interpretação correta do pudor sexual”. A socióloga italiana Ida Magli também me explicou à época que não existia contradição entre o comportamento aberto de Wojtyla e sua cultura antifeminista, já que via a mulher “somente como mãe e como mãe que deve sofrer” e isso, segundo ela, “não é um modelo para as mulheres”. Daí veio a grande devoção de Wojtyla pela figura da Virgem. Duas delas: a virgem negra de Czestochowa e Nossa Senhora de Fátima foram os pilares de sua devoção mariana.

Em 13 de maio de 1981, durante a festa de Fátima, João Paulo II sofreu um atentado na praça de São Pedro que quase o matou. Em agradecimento às duas virgens por salvarem sua vida, o Papa quis que se enviasse aos santuários uma parte da faixa ensanguentada que vestia no dia do atentado. A relação conflitiva e dolorosa do papa Wojtyla com a mulher de carne e osso e com sua idealização o acompanhou desde jovem quando, antes de ser padre, viveu, segundo o Monsenhor Darowski, que foi secretário geral da conferência episcopal polonesa, “um amor doloroso”.

Ainda existe um véu de segredo e mistério sobre a relação amorosa e dolorosa de Wojtyla, ao que parece, com uma jovem judia que morreu em um campo de concentração nazista. Há quem defenda que, antes de ser levada pelos nazistas, os dois tenham selado “um casamento de consciência”, que por isso não foi consignado nos registros civis. Se isso for verdade, João Paulo II foi casado antes de ser Papa. Um amor que se perdeu no inferno de um campo de extermínio.

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