Um Wojtyla de esquerda? Artigo de Massimo Faggioli

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31 Julho 2013

Há no horizonte inovações pastorais de grande porte (sobre os gays, sobre os divorciados, sobre as mulheres na Igreja). Mas é uma operação não isenta de riscos: o papa que veio da América Latina está dilatando os limites do catolicismo, rumo às dimensões de uma Igreja-mundo.

Essa é a opinião de Massimo Faggioli, historiador do cristianismo e professor da University of St. Thomas, em Minneapolis, em artigo publicado no jornal Europa, 30-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A primeira Jornada Mundial da Juventude do Papa Francisco sancionou, de algum modo, o verdadeiro início do pontificado de Bergoglio: ironia da história, com um evento de massa de estilo wojtyliano e em um lugar decidido pelo pontificado de Bento XVI, bem antes da sua inesperada renúncia. Apuradas as diferenças com relação ao seu antecessor (basta lembrar a fria acolhida reservada a Bento XVI no Brasil em 2007), que tipo de pontificado está tomando forma? Um retorno ao "pontificado carismático" de João Paulo II, ou algo diferente?

Não há dúvida de que o Papa Bergoglio está mais próximo de João Paulo II do que de Bento XVI, mas as dimensões e a fórmula da Jornada Mundial da Juventude poderiam alterar a perspectiva. A JMJ, contudo, é sempre um evento que se baseia em uma participação de massa, de jovens de todo o mundo, juntamente com o papa e que, portanto, focaliza a atenção nas palavras e nos gestos do papa. É um dos motivo pelos quais o catolicismo liberal sempre viu com suspeita essas manifestações de massa e desejaria, no lugar da JMJ, encontros de nível nacional ou continental – dos quais, obviamente, o papa não poderia participar por motivos práticos.

No entanto, parece que o Papa Francisco está ciente dos riscos de uma carismatização do papado além da medida. Em primeiro lugar, os tempos e os modos da transição de Bento XVI a Francisco, de alguma forma, "vacinaram" o catolicismo da ideologia do papado monárquico. Em segundo lugar, o Papa Francisco repetidamente tem dado sinais de querer ser, como bispo de Roma, apenas o "sinal" que conduz ao verdadeiro chefe da Igreja, Jesus Cristo.

Do ponto de vista do funcionamento do catolicismo, além disso, o conclave de 2013 apresentou à Igreja a conta de uma excessiva centralização do governo da Igreja, não só na gestão burocrática, mas também quanto aos resultados pastorais provenientes de mecanismos de nomeação e carreira que visam a premiar os lobbies e os "yesmen".

A JMJ do Rio, no entanto, ofereceu sinais a mais para compreender o tipo de pontificado do Papa Francisco: uma continuidade no que diz respeito à fórmula cunhada pelo Papa Wojtyla e uma continuidade com João Paulo II também no abraço a todas as culturas como "capazes do Evangelho", sem se iludir em reconduzir o catolicismo mundial sob o jugo da cultura europeia filha de Atenas e de Roma.

Também se viu uma continuidade com João Paulo II com respeito a um certo estilo litúrgico e paralitúrgico de tipo "evangélico": músicas, danças, acontecimentos de vários tipos. Isso tem a ver com a pouca idade dos participantes, mas também com a consciência da Igreja de que o desafio do catolicismo em escala mundial é com o cristianismo pós-eclesial dos carismáticos e pentecostais, ou seja, no campo de uma piedade menos "iluminista" e mais "emocional".

O catolicismo do coração do Papa Francisco não é distante do evangelicalismo de novo cunho (nos Estados Unidos, um "evangelicalismo social", sobrevivente dos desastres da era de George W. Bush), aquele que conjuga com um forte senso da tradição cristã uma sensibilidade social e política em sentido alto: um cristianismo pró-vida que não se contenta em denunciar a mentalidade abortista, mas inclui o discurso pró-vida em um quadro de doutrina social cristã sobre o trabalho, a saúde, a justiça social.

A JMJ de 2013 fez desfilar na praia de Copacabana um "catolicismo evangélico": um evangelicalismo que não tem como modelo o norte-americano dos anos 1970-1990 de tipo político-ideológico e que não se refere, para que nos entendamos, ao evangelicalismo católico desejado por neoconservadores como George Weigel. Trata-se de um evangelismo católico, que não tem nada em comum com o fundamentalismo bíblico, mas se refere, ao invés, a uma sabedoria espiritual pouco calvinista e muito misericordiosa e inclusiva.

Isso não significa um retorno ao catolicismo dos anos 1950, longe disso: basta ler as declarações do papa no avião de retorno do Brasil para entender que há no horizonte inovações pastorais de grande porte (sobre os gays, sobre os divorciados, sobre as mulheres na Igreja). Mas é uma operação não isenta de riscos: o papa que veio da América Latina está dilatando os limites do catolicismo, rumo às dimensões de uma Igreja-mundo.

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