Francisco entre a multidão como Wojtyla, mas sem dominá-la

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26 Julho 2013

Os papas atraem as multidões como o mel as formigas, mas cada papa tem um modo próprio de lidar com o magnetismo das multidões. O de Wojtyla – papa das multidões mais do que qualquer outro – era um magnetismo suscitador e demiúrgico, enquanto este de Bergoglio, que talvez se destina a igualar o antecessor na projeção ad gentes, aos povos, é um magnetismo de empatia ou de ressonância.

A reportagem é de Luigi Acattoli, publicada no jornal Corriere della Sera, 24-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Vendo a multidão que nessa segunda-feira ondulava ao redor do Fiat Idea de Francisco pelas ruas do Rio, parecia assistir ao assédio de um formigueiro em torno de uma tigela de mel. O papa não fazia nada para atrair as pessoas – simplesmente havia decidido fazer um giro maior pela cidade, assim como gira interminavelmente pela Praça de São Pedro –, e todos queriam tocá-lo, ou fotografá-lo, ou encostar a mão no automóvel.

Wojtyla, ao invés, chamava e governava as multidões como um regente de orquestra. Ele também usava as mídias, em particular a televisão, para chamar as multidões para si e construía a sua mensagem em diálogo com eles. É preciso refazer a viagem ao México, de janeiro de 1979, sua primeira saída ao mundo, para entender as duas novidades do seu "peregrinar": as falas improvisadas e o uso criativo daquele que foi chamado de mass-appeal, o apelo sobre as massas.

As entrevistas no voo com os jornalistas nasceram nessa viagem e se viu então de que porte podia ser, no nosso tempo, o apelo de um papa às multidões. Para a chegada na Cidade do México, entre o aeroporto e a catedral, calculou-se que o saudaram 3 milhões de pessoas, e foi avaliado em 15 milhões o total de mexicanos que saíram de casa ao longo daquela semana para festejá-lo: um quarto da população. Era preciso vê-lo, o caminhante dos montes Tatra, no vigor dos 58 anos, levantando as crianças, brincando com os jovens, beijando a testa dos jovens, respondendo ao lançamento das flores com a mímica e a inventividade de um homem de espetáculos.

Pode-se dizer que as novidades mostradas pela primeira visita do papa argentino são de sinal contrário às do papa polonês: Francisco não faz nada para agitar as multidões, simplesmente se oferece à sua visão e ao seu contato, e menos ainda usa as mídias para convocar a multidão. Quando a viatura foi bloqueada pelo tráfego, ele fez com que algumas crianças lhe fossem levadas para um beijo abençoador. Ele mantém a janela aberta, apesar das demasiadas mãos que tentam entrar.

O Papa Bergoglio vai desarmado ao encontro das multidões – renunciando ao papamóvel blindado e escolhendo o deslocamento veloz em um carro popular –, porque o seu objetivo é o encontro com a multidão à qual ele quer levar a palavra do Evangelho, mas vai precavido ao encontro dos jornalistas, porque teme que as mídias possam dificultar a comunicação dessa palavra. Wojtyla aceitava qualquer pergunta dos jornalistas, e as entrevistas em que falava de tudo eram uma atração para as multidões.

Ao contrário, no avião, Francisco falou com todos, mas não aceitou perguntas. "Realmente eu não dou entrevistas, mas porque eu não sei, não posso, é isso", disse ele em sua justificativa. Respondendo durante os voos a todas as perguntas, os papas João Paulo II e Bento XVI acabavam sem querer colocando acima das suas viagens o caso Marcinkus ou a questão do preservativo, a contestação das feministas ou o celibato dos padres.

O Papa Bergoglio, ao invés, quer que a sua viagem continue ancorada no tema dos jovens, para os quais ele se movimentou. Por isso, ele vai confiante – até demais – ao meio das multidões, mas continua precavido com as mídias, porque está escrito: "Sejam mansos como as pombas e prudentes como as serpentes".

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