O Wojtyla secreto

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18 Fevereiro 2014

"Não deixo propriedade alguma da qual seja necessário dispor. Os apontamentos pessoais sejam queimados. Peço que disso se ocupe o Pe. Stanislaw". Assim se expressou o Grande polonês no seu testamento, em 6 de março de 1979. Por que, então, essas disposições foram violadas?

A reportagem é de Marco Ansaldo e Agnieska Zakriewicz, publicada no jornal La Repubblica, 14-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por que os seus apontamentos não foram queimados, conforme solicitado? Essas notas, zelosamente guardadas por anos pelo seu secretário pessoal, na morte de João Paulo II foram transferidas para a diocese de Cracóvia. Onde o Pe. Stanislaw Dziwisz, que depois se tornou cardeal e sucessor de Karol Wojtyla na liderança pastoral da cidade, acaba de fazer com que fossem publicados pela editora Znak, sob o título: Estou firmemente nas mãos de Deus. Apontamentos pessoais 1962-2003.

Nem todos na Polônia aceitaram bem essa operação. Ao contrário, as polêmicas enfurecem, porque as duas agendas secretas de Wojtyla parecem ser transformadas em relíquias. O editor polonês explica que esse é um livro que todos deveriam ler. Mas ele não responde à pergunta sobre o número de cópias impressas, ou se o cardeal Dziwisz receberá royalties de alguma forma. No entanto, ele assegura que as receitas irão para a construção do Centro "Não tenham medo", nos arredores de Cracóvia.

Aqui estão, portanto, os diários do Grande polonês, primeiro como simples bispo e depois como pontífice máximo. Uma agenda remonta a 1962, outra a 1985. Dentro, há as suas reflexões sobre grandes temas – ainda – no centro do debate na Igreja. Como a liderança da Cúria. Ou o celibato dos sacerdotes. Mas também juízos que misturam a espiritualidade do pontífice à curiosidade do homem, do Wojtyla artista e literato.

E assim apontamentos sobre grandes personagens históricos (Hitler, Bismarck) e escritores de fama absoluta (Hemingway, Dostoiévski, Tolstoi, Manzoni, Sartre). Porém, vão se decepcionar todos aqueles que esperam que, nas notas pessoais de João Paulo II, se encontrem informações ou bastidores. Nas duas agendas, Wojtyla manteve apenas o seu diário pessoal.

O estilo

As notas wojtilianas não são caóticas. E um bom grafólogo poderia revelar muito sobre a personalidade do homem que, no dia 27 de abril de 2014, será proclamado santo. No entanto, basta dar uma olhada nas páginas das agendas para entender que estamos lidando com uma pessoa disciplinada, sistemática, muito atentas aos detalhes, com uma grande capacidade de síntese e uma relação íntima e rigorosa com o próprio diário.

Um papa pastor

Agora, com as grandes mudanças desejadas pelo Papa Francisco, as palavras de Wojtyla sobre o papel do sacerdote-pastor e sobre os pobres nos chamam a atenção pela atualidade. Lemos: "Pastor. Primeira característica – um verdadeiro pastor recebe o poder de Cristo. Segunda característica – o conhecimento do rebanho e das ovelhas: isso explica também as estruturas: as dioceses, as paróquias, as comunidades de base. Terceira característica: deve ser o verdadeiro guia (não pode ir rápido demais, nem lentamente demais) – sabendo que os outros o seguem. Quarta característica: estar pronto para buscar a ovelha perdida. Quinta característica: estar disponível".

O governo da Cúria

É um ponto central. Eis o que ele escrevia: "Ser Cúria do papa na Igreja. 'Presidência dinâmica na caridade' e 'complexo antirromano'. Conhecimento – e aplicação do Vaticano II. Nova evangelização. Ministério da santificação. Governa-se animando – anima-se governando. Ministério de Pedro na colegialidade. Algumas prioridades: 1. Aplicação do Vaticano II. 2. Abertura à comunhão, ao ecumenismo, outras religiões etc. 3. Referência às Igrejas particulares. 4. Abertura ao laicato. 5. Espírito de serviço, bondade, palavras de Paulo VI".

O celibato dos padres

Há as suas convicções, mas também as fortes dúvidas pessoais. "Pureza. O corpo provém de Deus. Cristo é a própria pureza e a própria virgindade! O celibato sacerdotal é um mistério sobrenatural (veja as palavras de Cristo: nem todos entendem), e também um dom de Deus. Esse dom se realiza em um homem concreto, apesar das suas fraquezas. É isso que eu penso?".

O amor pelos escritores

É curioso ver, às margens das notas do papa, nomes significativos da história ou da literatura, como Dostoiévski, Hemingway, Manzoni,Dante, Heidegger, Tolstoi, Sartre, Bonhoeffer, São Tomás, João Bosco, Madre Teresa, Hitler, Bismarck. Fragmentos de citações se cruzam com reflexões sobre a fé e a Igreja.

Ao lado da frase "A morte é um mistério. Cristo muda o mistério da morte em testemunho da morte, Evangelho", ele coloca o nome de Tolstoi. E ao lado de " A morte é um absurdo? A vida é só uma peregrinação, depois da qual nos espera o encontro com Cristo na perene felicidade. Então: não é um absurdo, mas Lógica Divina/Plano Divino", ele escreve o nome de Sartre.

Hemingway desponta depois às margens desta nota: "Os Evangelhos relataram apenas poucas frases de Maria. 'Como é possível se não conheço o Marido'... 'A virgindade como testemunho de Deus'. 'Eis aqui a serva do Senhor, cumpra-se a Tua vontade'". Escrevendo essa reflexão sobre Maria, Wojtyla talvez tinha em mente as dificuldades e a solidão do protagonista de “O velho e o mar”, muito popular na Polônia, e que o jovem Wojtyla certamente o leu e o trazia no coração.

Mas como interpretar o nome de Heidegger colocado ao lado da frase: "O celibato sacerdotal é um mistério sobrenatural"? Ao escrever essa nota, o futuro papa, amante das montanhas polonesas, tinha em mente o filósofo alemão na sua cabana da Floresta Negra.

E o que ele pensava anotando o nome de Hitler ao lado da frase: "O maior pecado – como o maior ideal"? À soberba humana que está na base das "estruturas de pecado"?

"O pobre salva o mundo"

Esse é um dos conceitos mais intensos das agendas. "O pobre homem salva o mundo. O pobre transforma o mundo. Cristo escolhe os pobres: Optio pro pauperibus. A pobreza – não: resignação, mas: escolha de amor".

Os últimos anos

O caráter da escrita, antes vigoroso, com o passar dos anos se desvanece. Em 22 de fevereiro de 1999, João Paulo II escreve uma nota: "As conferências são muito ricas em conteúdos. É difícil anotar tudo". A partir de 2001, ele começa a ter dificuldades para centralizar as linhas da agenda.

A última frase: "Jonas, ou seja, o medo de anunciar o amor de Deus", já está escrita com esforço evidente no dia 15 de março de 2003. Um instante simbólico, quando a doença curva as forças intelectuais do papa, e o seu rigor de cronista de todos os retiros espirituais no Vaticano desaparece.

 

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