O que é certoː sem mulheres não há futuro para a Igreja

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05 Novembro 2018

Colaborar, até mesmo co-gerenciar? Para as mulheres da Igreja Católica é absolutamente impossível. O movimento "Wir sind Kirche" (Nós somos Igreja - Alemanha) gostaria de mudar as coisas, diz a porta-voz Sigrid Grabmeier.

A entrevista é Korbinian Bauer, publicada por www.zdf.de, 02-11-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eles disseram que não, e depois não, e mais uma vez não. Cristo era um homem, um ser masculino. Esta é a argumentação do magistério contra a equiparação das mulheres, agora mais do que nunca, desde que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé acredita ter pronunciado uma palavra decisiva na primavera de 2018. Quem não a aceita ouve como resposta da vertente liberal-católico: "Por que você quer insistir em bater a cabeça contra a parede? Existem temas muito mais importantes".

Como podem e devem agir no futuro as forças que querem reformar a Igreja Católica? O movimento eclesial "Wir sind Kirche" (Nós somos Igreja) convida para uma conferência sobre um tema tão extremamente atual e para a 42ª assembleia do movimento.

Eis a entrevista.

Como definiram o tema da conferência?

O tema já havia sido estabelecido no ano passado, mas, no meio tempo, tornou-se ainda mais urgente. O quanto seja atual o tema da mulher, foi vivenciado justamente no Sínodo sobre os jovens em Roma: as mulheres não têm nenhuma possibilidade de intervenção.

Vocês querem melhorar esta situação?

Sim, esse é o nosso objetivo. Um dos nossos pedidos é a plena equiparação das mulheres na Igreja. Todos os ministérios devem tornar-se acessíveis às mulheres - mesmo o de papisa. Não há absolutamente nenhum motivo teológico sensato pelo qual as mulheres não possam exercer tais ministérios. Em nossa sociedade, a emancipação feminina é relativamente avançada, mas na Igreja Católica esse progresso é bloqueado. As mulheres não podem se tornar padre. Desta forma, nenhum direito de participação lhes é reconhecido, e aqueles que decidem no final são sempre os padres.

O título da conferência principal do encontro é "Revolta das mulheres - como fazê-la?". Haverá instruções para o emprego da revolta das mulheres?

Eu não sei isso com certeza. Mas eu acho que é importante ampliar as bases para lidar com esse problema que continua a ser discutido há mais de 30 anos. Antes, as mulheres estavam fortemente presentes na Igreja e desenvolveram um incrível trabalho social. Mesmo hoje há muitas mulheres ativas na Igreja, porém muitas também dizem: o que vou fazer lá? Eu posso me realizar muito mais em outro lugar. Eu posso muito bem usar minhas capacidades melhor em outro lugar. Na Igreja, devo sempre me colocar sob a direção de um homem que pode, inclusive, ser incompetente.

Você vê isso principalmente como falta de respeito pelas mulheres ou também se preocupa com a Igreja?

Ambas as coisas. Não é bom que a Igreja exclua categoricamente metade de seus membros de todos os ministérios. Por exemplo, agora no Sínodo sobre os Jovens, as mulheres não podiam votar. Em vez disso, havia homens que, embora não fossem padres, tinham o direito de voto. Isso é simplesmente uma falta de respeito pela mulher. Com tal atitude, em países onde existe uma cultura misógina, a Igreja Católica reforça ainda mais esse problema. Se as mulheres não podem exercer nenhum ministério na Igreja, elas não podem ter qualquer direito de participar e assumir qualquer responsabilidade, isso significa que elas não valem nada e, portanto, também podem ser maltratadas.

Os abusos continuam a ser um problema sério na Alemanha. Você acredita que com as mulheres em posições "consagradas" esse problema poderia ser melhor enfrentado?

Sim, eu realmente acredito nisso. Claro que também há mulheres que cometem violências sexuais. Mas entre os padres existe uma relação de proteção mútua. Eles se conhecem entre si. Um é o chefe, chega outro é diz: "Aconteceu algo errado". O padre é transferido e para a vítima simplesmente é dito: "Cale a boca. Deve ter tido um motivo". Acho que não teria sido tão fácil manter esse sistema por tanto tempo se houvesse mais mulheres com funções de tomada de decisão.

O debate sobre a ordenação de mulheres já foi declarado encerrado por João Paulo II. Até que ponto pode ir o movimento, se até mesmo o que o magistério diz e o que o Papa diz não são mais válidos?

João Paulo II encerrou a discussão? Há o magistério acadêmico e o magistério canônico - aquele que está nas mãos dos bispos. No magistério canônico, às vezes temos uma teologia completamente antediluviana. E muitos conhecimentos científicos, tanto na pesquisa bíblica quanto na história da Igreja, bem como nas ciências antropológicas afins, são simplesmente ignorados. O aspecto apaixonante na teologia, no entanto, é que ela tem algo a ver com Deus, mas acima de tudo com o ser humano. Se for feita uma teologia distante dos seres humanos e das necessidades vitais, torna-se naturalmente difícil transmitir uma boa modalidade de viver junto, que era o que Jesus queria transmitir com a sua mensagem.

Qual é a consequência do movimento "Nós somos Igreja" ser visto de uma forma muito crítica nos círculos conservadores e, muitas vezes, choca-se com uma evidente recusa?

Certamente nós temos outra imagem e outro conceito de Igreja. Para os conservadores, a igreja é baseada no clero ordenado. Nós dizemos que "nós somos a Igreja". Nós, membros da Igreja, mulheres e homens, individualmente temos a responsabilidade de assegurar que a comunidade dos crentes seja representada no mundo e que a mensagem de Jesus seja transmitida e vivida. Para nós, certamente, a liturgia também é importante, mas Jesus simplesmente não era um liturgista. A liturgia é algo muito lindo e também é útil ao homem para sua alma, mas Deus não precisa dela. E nem precisam dela as pessoas a quem devemos fazer o bem.

As reivindicações da conferência são decididamente provocativas. O que pensa que vocês possam realisticamente conseguir?

Não são mais tão provocativas. No final dos anos 1980 e 90, na Alemanha, houve vários sínodos diocesanos, e em todos os documentos finais daqueles sínodos e daqueles fóruns pastorais podem ser encontradas as nossas reivindicações. É claro que agora as formulamos de maneira um pouco mais crítica, mas do ponto de vista do conteúdo, todas já estavam presentes. Nós não as inventamos.

Você acredita que esta conferência terá tanta ressonância para realmente trazer progresso ao movimento das mulheres?

Seria ingênuo acreditar que numa conferência se possam alterar relacionamentos. Este é um projeto de longo prazo. Estamos trabalhando neste e em outros temas há mais de 20 anos. O tema das mulheres na Igreja também foi discutido no Sínodo sobre os jovens. A situação não nos deixa eufóricas, mas vejo que algo está se mexendo. Eu não acredito que uma conferência possa provocar um terremoto. Mas nos permite dar outro pequeno passo à frente.

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