'Catholic Women Speak' pede reforma da Igreja com foco nas mulheres

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04 Outubro 2018

Teólogos e defensores organizam simpósio antes do sínodo da juventude em Roma.

Os delegados reunidos hoje para o sínodo dos bispos, que durará um mês, ouvirão poucas vozes de mulheres, se é que ouvirão alguma, dentro de sua sala de reuniões do Vaticano. Essa é uma situação que a teóloga Tina Beattie quer remediar, mesmo que seja do outro lado da cidade.

A reportagem é de Jamie Manson, publicada por National Catholic Reporter, 03-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Em 1º de outubro, Beattie e várias colegas organizaram um simpósio composto majoritariamente por vozes de mulheres católicas na Pontifícia Universidade Antonianum, a cerca de 6 km de onde mais de 300 bispos católicos estão abrindo o Sínodo de 2018 sobre os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional.

"Neste momento de crise na Igreja Católica Romana, acreditamos que é mais importante do que nunca chamar a atenção para a ausência das vozes das mulheres na liderança da Igreja e nos processos de tomada de decisão", disse Beattie, diretora do Digby Stuart Research Centre for Catholic Studies (“Centro de Pesquisa Digby Stuart para Estudo Católicos”, em tradução livre) e diretora do Catherine of Siena College, na Universidade de Roehampton, Londres.

O evento foi o lançamento oficial do novo livro Visions and Vocations (“Visões e Vocações”), uma coleção de reflexões teológicas e pessoais de mulheres católicas. É uma continuação do volume de 2015 Catholic Women Speak: Bringing Our Gifts to the Table (“Mulheres Católicas Falam: Colocando Nossos Dons na Mesa”, em tradução livre). Ambos foram publicados pela Paulist Press para a Catholic Women Speak.

Visions and Vocations conta com a contribuição de mais de 60 mulheres e meninas de 20 países com idades variando entre 14 e 85 anos.

O mesmo tipo de diversidade estava em exibição no Antonianum, com um programa de oito horas bem preenchidas que contou com mais de 50 participantes de dezenas de países e culturas.

Cada uma delas tinha algo a dizer sobre as crises atuais que a Igreja enfrenta.

'Por que não há mulheres?'

Mas para Lucetta Scaraffia, editora-chefe da Donna Chiesa Mondo ("Mulheres, Igreja, Mundo"), uma revista focada em questões femininas publicada como suplemento ao L'Osservatore Romano, a grande questão era "Por que as mulheres não levantam suas vozes?".

"Nós não dizemos nada" quando as mulheres são excluídas da tomada de decisões da Igreja, disse ela. "Temos que tomar a palavra e dizer: 'Por que não há mulheres?'."

Embora Scaraffia insistisse que não é feminista, ela dizia estar "liderando uma guerra contra o patriarcado da Igreja".

Ela acredita que há muito foco no abuso sexual de crianças, mas não se dá atenção nem próxima da suficiente à violência feita a mulheres por autoridades da Igreja.

"Enquanto formos estupradas por bispos e padres, não vamos mudar nada. Nossa batalha deveria ser reconhecer as mulheres que são abusadas", disse Scaraffia, que em março publicou uma exposição sobre a exploração por parte dos cardeais e bispos de freiras que fazem trabalho doméstico no Vaticano.

Ursula Halligan, jornalista irlandesa, fez eco ao pedido para que os leigos católicos deem um passo à frente e exijam justiça.

"Caso contrário, seremos cúmplices", disse Halligan, que surgiu publicamente durante o referendo irlandês de 2015 sobre igualdade no casamento.

Ao contrário de muitos católicos irlandeses que deixaram a Igreja, Halligan diz que "resolveu ficar na Igreja, mas não permanecer quieta".

Para Halligan, as crises na Igreja não estão simplesmente enraizadas no clericalismo, mas em uma "teologia realmente ruim".

"Estamos em uma Igreja que nos ensinou a não questionar, e temos que romper com isso", disse ela.

Celia Viggo Wexler, autora do livro Catholic Women Confront Their Church: Stories of Hurt and Hope (“Mulheres Católicas Confrontam Sua Igreja: Histórias de Sofrimento e Esperança”, em tradução livre), de 2016, acredita que a falta de curiosidade teológica por parte da hierarquia está levando a um êxodo de mulheres da Igreja.

"Estamos perdendo as mulheres que pensam", disse Wexler. "E elas não vão voltar."

Wexler tem uma sugestão um tanto original de como a Igreja poderia começar a realmente expiar o flagelo do abuso sexual e dos encobrimentos.

"Estou pedindo ao Papa Francisco que inicie o processo para canonizar Barbara Blaine", disse Wexler, que, em seu livro, traçou o perfil da falecida sobrevivente de abusos clericais e ativista.

O abuso sexual não estava apenas no primeiro plano das mentes das mulheres dos EUA e da Europa. A teóloga sul-africana Nontando Hadebe ofereceu um convite à ação.

"Há algo de monstruoso acontecendo que precisa de atenção", disse ela, cuja contribuição para Visions and Vocations, focou no "estupro corretivo" de lésbicas em seu país de origem.

'Este é um momento de kairos'

"Este momento derrubou a cortina e nos permitiu olhar para o abismo de uma irmandade tóxica", continuou Hadebe, pedindo um desligamento total de cada igreja e de cada seminário até que haja um arrependimento comunitário genuíno por parte de cada bispo.

"Este é um momento de kairos", acrescentou ela. "Todo mundo deveria estar se expressando publicamente, dizendo que isso não somos nós; isso não pode ser feito em nosso nome."

Foram intercaladas, ao longo do programa, leituras de jovens mulheres do ensino médio, um lembrete recorrente do sínodo da juventude que precipitou o momento do simpósio.

As estudantes da Ursuline High School, em Wimbledon, no sudoeste de Londres, leram uma carta que escreveram ao Papa Francisco. As alunas receberam a tarefa de ler e refletir sobre a exortação apostólica de Francisco sobre o casamento e a vida familiar, Amoris Laetitia. Sua carta oferecia suas próprias críticas a alguns dos temas da carta papal, incluindo suas noções do chamado gênio feminino e da maternidade como a vocação mais essencial da mulher.

As jovens mulheres também levantaram preocupações sobre algumas das questões que pesam muito sobre seus espíritos, incluindo a situação delicada das mulheres pobres, as crises de saúde mental e a taxa crescente de suicídio.

O último painel do dia, chamado "Women and Priests in Conversation" (“Mulheres e Padres em Diálogo”, em tradução livre), ofereceu a rara oportunidade de ouvir os padres amigáveis não apenas defenderem a ordenação de mulheres, mas também se envolverem em um diálogo respeitoso com mulheres que querem ser padres ou que defendem um sacerdócio católico romano plenamente inclusivo.

"Há 400 mil padres católicos em todo o mundo", disse Colette Joyce, ministra pastoral de uma das maiores paróquias católicas da Inglaterra. "Acredito que haja 400 mil mulheres preparadas e prontas para assumir o ministério sacerdotal assim que forem convocadas a fazê-lo."

Para o padre jesuíta Luke Hansen, que é americano, mas atualmente estuda em Roma, a Igreja precisa de mulheres sacerdotisas para atender às necessidades de um mundo que sofre.

"Precisamos de todas as pessoas e todos os dons. Precisamos de homens e mulheres servindo como sacerdotes", disse ele. "A missão é importante demais e as necessidades são grandes demais para que nos limitemos ao gênero e ao celibato."

Evocando o tema anterior da "má teologia", Luigi Gioia, padre beneditino e erudito, argumentou que a Igreja tem que desmantelar a ligação entre a ordenação e a Encarnação, o que leva os católicos a pensar nos padres como "outros Cristos na Terra".

"Jesus disse: 'Eu estou com vocês até o fim dos tempos'", observou Gioia. "Se acreditamos que Cristo está sempre presente através do Espírito Santo, então temos que pensar no sacerdócio de uma maneira diferente."

"Se queremos avançar num discurso teológico sobre o que significa a ordenação na Igreja", acrescentou Gioia, "temos que começar corrigindo nossa visão de ministério ordenado".

Kate McElwee, diretora executiva da Women's Ordination Conference (“Conferência para a Ordenação de Mulheres”, em tradução livre), fez uma crítica às ativistas católicas que excluem quem advoga por mulheres sacerdotisas em seus eventos e publicações, particularmente por medo de que a campanha pela ordenação de mulheres prejudique sua capacidade de progredir junto aos líderes da Igreja.

"Quando nos calamos ou não ouvimos as mulheres que têm uma vocação discernível, nós fazemos um grande mal para a nossa Igreja", disse ela.

"Não sou chamada ao sacerdócio, mas sou chamada à igualdade", acrescentou McElwee.

Ecoando um sentimento expresso com frequência nos dias de hoje nos EUA em um contexto diferente, McElwee convocou toda a hierarquia da Igreja a dialogar com mulheres que se sentem chamadas ao sacerdócio.

"Precisamos acreditar nas mulheres", disse ela. "Precisamos acreditar em suas histórias."

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