Reflexões sobre duas questões LGBT presentes no Sínodo 2018. Artigo de James Martin, SJ

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18 Outubro 2018

“Mesmo em situações onde os católicos LGBT se sentiram feridos pela Igreja, muitos deles ainda querem criar seus filhos na fé — um sinal inconfundível da graça de Deus. Essa é a poderosa fonte de vida do Corpo de Cristo, e é importante para a Igreja reconhecer e afirmar isso”, escreve James Martin, S.J., autor de “Building a Bridge”, consultor do Dicastério para Comunicação e editor da revista America, em artigo publicado por America, 12-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Questões sobre o preconceito contra os LGBT estão sendo discutidas no Sínodo dos Bispos sobre Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional, que está acontecendo em Roma. Os jovens de hoje estão cada vez mais interessados nestas questões. Para muitos, os LGBT são seus irmãos e irmãs, tias e tios, amigos e vizinhos — e, às vezes, eles mesmos. Isso se reflete no documento do sínodo, que diz “Parte da juventude LGBT… quer ter mais proximidade e se sentir mais acolhida pela Igreja.”

Em algumas partes da Igreja, isso pode ser considerado uma ideia “ocidental”. Mas a diversidade étnica da comunidade LGBT no ocidente, em parte porque é onde alguns procuram refúgio ou asilo em virtude de sua sexualidade, demonstra como o tratamento com as pessoas LGBT é um problema para a Igreja global. Além disso, cresce o número de católicos que se identificam como LGBTs mundialmente.

Como resultado, algumas questões sobre esse grupo acabam chegando aos representantes do Sínodo. De acordo com os participantes, as discussões até o momento foram focadas em dois pontos, ambos sobre nomenclatura: Primeiro, o sínodo pode usar o termo LGBT em seus documentos? Segundo, o sínodo pode reconhecer que casais gays podem formar uma “família”? Como poderemos chegar nessas questões sem confrontar os ensinamentos da Igreja sobre a homossexualidade ou sua oposição ao casamento de mesmo sexo?

Em primeiro lugar, o sínodo pode usar o termo “LGBT” em seus documentos?

Deixe-me sugerir três motivos pelos quais o termo “LGBT” pode ser usado nos documentos do sínodo.

1. Chamar de LGBT pessoas que querem ser chamadas assim é uma forma do “respeito” que o Catecismo da Igreja Católica pede.

Esse deve ser o motivo mais importante para usar o termo comum “LGBT”. Referir-se aos LGBT com o nome que a maioria deles usa para si é, de alguma forma, parte do “respeito” que o Catecismo pede (No. 2358). Como outro exemplo, o uso contemporâneo evita o termo “Negro” [em inglês, o termo nesta forma tem forte conotação de discriminação racial, ndt] e, ao invés disso, opta por “afrodescendente” ou “afro-americano”, que refletem a preferência desses grupos. Recusar chamar um grupo pelo nome que a maioria dentro dele prefere beira o desrespeito. A juventude LGBT, que sofre assédio, discriminação e é frequentemente desrespeitada com palavrões, é extremamente atenta a esse tipo de linguagem desrespeitosa.

Além disso, se a Igreja usa termos que são datados, desconhecidos, exageradamente clínicos ou considerados desrespeitosos — ou mesmo ofensivos (o termo “atraídos pelo mesmo sexo” é considerado por grande parte dos LGBT), ela arrisca não chegar a um diálogo verdadeiro com o grupo. E se a Igreja não consegue dar início ao diálogo, então não consegue praticar a teologia de maneira correta — pois essa ação vai contra a ideia do Concílio Vaticano II sobre ser uma igreja no mundo moderno (“Gaudium et Spes”). Portanto, reconhecer um termo comum, especialmente para os jovens LGBT é, ao mesmo tempo, útil e respeitoso teologicamente.

2. Usar o termo “católicos LGBT” os inclui na Igreja.

Algumas pessoas têm argumentado que usar este termo distingue as pessoas LGBT do resto da Igreja. Mas esse argumento não é apresentado sobre outros grupos na igreja. Existem tantos outros grupos que são frequentemente identificados por uma característica particular — jovens adultos católicos, católicos latino-americanos, católicos veteranos, pais católicos — e poucos sugerem que tal identificação os separa do resto da Igreja. Isso apenas os identifica como membros que constituem o Corpo de Cristo e nos lembra de sua rica diversidade (1 Cor 12:20). Nesse caso, a juventude LGBT quer se sentir parte da igreja. É um sinal de diversidade, e não de divisão.

3. Usar o termo “católicos LGBT” não conota a aceitação de uma ideologia.

Quando as pessoas se identificam como LGBT, não significa que consideram sua sexualidade ou identidade como traço dominante de suas personalidades. Usar o termo não significa que ser LGBT seja a parte mais importante de quem eles são.

Da mesma forma, usar o termo não implica em declarar apoio a uma ideologia política ou posição teológica. Por exemplo, quando um jovem se identifica como “gay” ou “lésbica”, ele ou ela está simplesmente expressando algo que ele ou ela é, e não questionando sobre qualquer problema controverso. Até porque as pessoas LGBT fazem parte de diferentes espectros sociais e de diferentes posicionamentos políticos e econômicos.

Por todos esses motivos, eu sugiro que o sínodo possa usar o termo comumente aceito “LGBT”.

Em segundo lugar, o sínodo pode reconhecer que casais gays possam formar uma “família”?

Novamente, deixe-me sugerir três razões pelas quais, sem confrontar a oposição da Igreja ao casamento de pessoas do mesmo sexo, faria sentido para o sínodo usar essa nomenclatura.

1. Existem diferentes formas de ser uma “família”.

Considerando a vasta diferença cultural no mundo, existem vários tipos de famílias além da família nuclear de mãe, pai e filhos. E também existem diferentes tipos de famílias historicamente — na Bíblia, por exemplo, as famílias aparecem em diferentes formatos e tamanhos.

Nos dias de hoje, as famílias nem sempre são constituídas somente pelo casamento, mas também por outras maneiras de amor e afinidade — por exemplo, uma mãe e seu filho; um homem divorciado e seu filho adotivo; um casal divorciado e seus filhos; uma mãe, seu filho e o padrasto de seu filho; um avô, uma avó, um tio ou uma tia criando netos ou sobrinhos; múltiplas gerações de adultos vivendo com irmãos e primos; e uma extensa família de irmãos e irmãs cujos pais faleceram. Talvez a forma mais comum de todas, pelo menos no ocidente, é o crescente número de crianças nascidas de casais não casados (homens e mulheres). Todos esses grupos, mesmo não estando na configuração tradicional, são considerados família.

A Igreja certamente não aprova algumas dessas situações, mas se refere a elas, sem exceção, como famílias. A Igreja usa e tem usado o termo no sínodo de forma ampla e coloquial. Talvez até mesmo alguns representantes do sínodo vêm de famílias não tradicionais. Os padres sinodais também reconhecem que as famílias são muito mais complexas do que podemos imaginar. Da mesma maneira, casais gays podem formar famílias e merecem ser referenciados pelo termo.

2. Casais gays são “famílias” tanto no âmbito legal quanto no âmbito emocional.

A Igreja se posiciona contra o casamento de mesmo sexo. Mas, cada vez mais, os casais gays são reconhecidos como família por autoridades civis. Em muitos países, os órgãos civis consideram casais de mesmo sexo famílias legais e, em outros lugares, como affinitas (parentes). Portanto, são famílias em termos legais.

Essas famílias também são lugares onde o amor reside — cuidam uns dos outros, cuidam das crianças, cuidam de seus parentes mais velhos, cuidam da comunidade — bem como o amor reside nas famílias de formato tradicional. Muitos casais gays também adotam heroicamente crianças desprivilegiadas e marginalizadas. Tais famílias fornecem uma medida social de estabilidade no mundo e contribuem com a prosperidade da sociedade ajudando outras pessoas e colaborando com o bem comum.

Acima de tudo, se a Igreja quer efetivamente se adaptar ao mundo contemporâneo, deve considerar o uso de termos que o mundo compreende. E, novamente, se a Igreja se negar a isso, estará se afastando do diálogo com esses diferentes tipos de família.

3. Casais gays adotam crianças que necessitam de cuidado espiritual enquanto membros de uma família.

A oposição da Igreja ao casamento de mesmo sexo é clara. Mas mesmo que se case sem a aceitação da igreja, pais gays praticam a mesma coisa que os outros pais: amam seus filhos, dão a eles educação e se esforçam para que eles se tornem as pessoas que Deus quer que elas sejam.

Eles também querem que seus filhos façam parte da Igreja. Desse modo, casais gays têm seus filhos batizados, os levam para a missa, os ensinam a rezar, os colocam em aulas de educação religiosa, os ajudam na recepção dos sacramentos e, acima de tudo, desejam para seus filhos a graça preciosa da Igreja. Esse é o fruto da fé, a graça de Deus se manifestando no coração desses pais.

Mesmo em situações onde os católicos LGBT se sentiram feridos pela Igreja, muitos deles ainda querem criar seus filhos na fé — um sinal inconfundível da graça de Deus. Essa é a poderosa fonte de vida do Corpo de Cristo, e é importante para a Igreja reconhecer e afirmar isso. Os filhos desses casais também se enxergam naturalmente como parte de uma família.

A família sempre foi chamada de “primeira Igreja”, onde os filhos aprendem pela primeira vez sobre Deus e sobre o amor. Portanto, talvez o melhor motivo para usar o termo “família” para esses casais e seus filhos é que eles são esse lugar de amor. Argumentar o contrário é arriscar fazer com que essas crianças e jovens se sintam excluídas de sua própria Igreja.

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