O papa ''frágil''

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27 Outubro 2018

Já estão findando os últimos dias do Sínodo dos bispos dedicado aos jovens e, no turbilhão de iniciativas e de eventos organizados em Roma durante mais de três semanas de trabalhos sinodais, somente a peregrinação ao túmulo de Pedro, realizada nessa quinta-feira, 25 de outubro, pelo Pontifício Conselho para a Nova Evangelização, finalmente ofereceu aos membros do Sínodo a oportunidade de fazer, pelo menos uma vez, o gesto simples que o Papa Francisco pediu a todos os católicos do mundo: rezar em todos os dias do mês de outubro o terço, a oração mariana “Sub tuum praesidium” e a oração a São Miguel Arcanjo, para pedir que “proteja a Igreja do diabo, que sempre visa a nos dividir de Deus e entre nós”. Um pedido de orações que, em muitos aspectos, continua sendo uma das coisas mais relevantes que ocorreram na Igreja nas últimas décadas.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada em Vatican Insider, 26-10-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Com o convite a se colocar “em estado de oração”, dirigido a todos os católicos, o Papa Francisco indicou – com tom submisso e sem alarmismos – pelo menos duas realidades que caracterizam o tempo presente: disse que a condição em que se encontra a Igreja é grave e que não é possível sair desse estado de risco por força de remédios ou de expedientes humanos.

O pedido do papa, quase escondido entre outros avisos publicados pelo Vaticano no dia 29 de setembro passado, foi acolhido por milhões de batizados, em todas as partes do mundo, se encontram em paróquias, capelas e casas das cidades e dos vilarejos para rezar juntos, ou, talvez, rezem o terço silenciosamente enquanto percorrem os trechos do seu deslocamento diário.

Os aparatos eclesiásticos acolheram-no menos. O próprio Sínodo em andamento pareceu absorvido na busca de táticas sociais e posturas voltadas a interceptar supostos universos juvenis com alguns liftings que tornem a imagem da Igreja mais cativante. Sem captar e abraçar realmente a vertiginosa estranheza aos dados elementares do Evangelho e da vida eclesial que galopa entre os jovens, para os quais o cristianismo é cada vez mais “um passado que não lhes diz respeito” (Joseph Ratzinger).

As pulsões autorreferenciais dos circuitos eclesiásticos e midiático-clericais e o seu descolamento do sensus fidei do povo de Deus tornam-nos pouco avessos a compreender as autênticas sugestões proféticas do atual sucessor de Pedro. Até mesmo muitos supostos exegetas da “linha” do pontificado relegaram a sugestão de orações que veio do papa ao pano de fundo das suas “guerrinhas” midiáticas.

Com efeito, só aquilo que resta do Povo de Deus parece ter sentido por instinto a mudança de ritmo na crise eclesial que se catalisou também em torno da chamada operação-Viganò, o ex-núncio vaticano que pediu a renúncia do papa com a acusação de ter protegido e favorecido o cardeal estadunidense Theodore McCarrick, de 86 anos, abusador sexual.

No momento atual, o caso Viganò revela os processos de mundanização e desnaturalização íntima da Igreja, desencadeados justamente por pretensões de usar vestes e máscaras de defensor da ortodoxia. Nunca havia acontecido na história – como, ao contrário, aconteceu com o caso Viganò – que dezenas de bispos, quase todos nos Estados Unidos, atestassem o seu apoio moral a um texto escrito para exigir a renúncia do sucessor de Pedro.

As manobras clerical-midiáticas, construídas em torno das manifestações de Viganò, são o sinal de que setores eclesiais influentes e bem forrados já consideram o papado e a Igreja como propriedade privada, transformando-os em estruturas de poder necessitadas de uma certa legitimação ideológica.

A hybris deles desencadeia e alimenta, nos dinamismos eclesiais, o germe da autodestruição. Como sempre, na história da Igreja, as únicas perseguições verdadeiramente sem remédio são aquelas que os cristãos infligem a si mesmos. Ao mesmo tempo, o mainstream global midiatizado não se concentra no porte destrutivo da nova soberba clerical. Concentra-se em perseguir histórias que falam da Igreja sitiada por escândalos sexuais e financeiros, pecados e crimes de padres, bispos e cardeais. E sugere conectar esse estado de coisas também com as responsabilidades, as carências e as inadimplências do próprio Papa Francisco.

Os papas “pobres coitados” e o novo lobbismo clerical

Ex-torcedores desapontados e difamadores inveterados do Papa Francisco entoam em coro o mantra do “papa frágil”. Registram a queda de consenso nas pesquisas. Criticam reformas anunciadas e fracassadas. Erros de gestão dos dossiês. Escolhas incoerentes. Soluções caóticas. Ex-cultores das falsas retóricas do papa “superstar”, agora torcem o nariz diante do papa “que decepciona”. Enquanto os “agressores” profissionais do pontificado não perdem uma oportunidade para culpar o bispo de Roma por todo tropeço e todo rastro de doença no conjunto eclesial, excitados como bandos de cães à caça de raposas.

Os ícones contrapostos do papa “super-herói” e do papa “que perde força” se sustentam um ao outro como dois lados da mesma moeda falsa. Ambos servem para ocultar os fatos, para difundir ideias adulteradas sobre o papel do papa na Igreja e sobre a própria natureza da Igreja. Se nos ativermos aos fatos, podemos facilmente reconhecer que o Papa Francisco nunca escondeu seus limites, suas insuficiências humanas de idoso “pecador a quem Cristo dirigiu os seus olhos”.

Mesmo desde quando está sob ataque, não se retirou para gerir dificuldades e inadequações atrás dos muros e das grossas cortinas do Palácio Apostólico. Não teve escrúpulos para pedir desculpas em público, quando se deu conta de escolhas e palavras equivocadas sobre questões controversas.

Se nos ativermos aos fatos e à própria natureza das coisas, podemos facilmente reconhecer que as fragilidades e os limites humanos dos papas não desfiguram o mistério da Igreja, mas, ao contrário, o evocam, se referem a ele. A salvação de Cristo abraça os homens e as mulheres assim como são, feridos pelo pecado original, e isso vale para todos, começando pelos sucessores de Pedro. Neles, atua a graça de estado que acompanha o exercício dos ministérios no seio da Igreja (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2.004). Também por isso, o reconhecimento sereno dos próprios limites pessoais caracterizou o magistério de muitos bispos de Roma, até mesmo em tempos recentes.

“A minha pessoa não importa nada. É um irmão que fala com vocês, que se tornou padre pela vontade de Nosso Senhor”, diz o Papa João XXIII no seu famoso Discurso à Lua.

João Paulo I, no discurso dirigido ao Colégio Cardinalício após a sua eleição, expressa o desejo de que os “coirmãos cardeais” ajudem “este pobre coitado [povero cristo], o Vigário de Cristo”.

Bento XVI, nas suas primeiras palavras como papa, se define como um simples “trabalhador na vinha do Senhor”.

E Paulo VI, no dia 7 de dezembro de 1968, encontrando-se com os alunos do seminário lombardo, refere-se aos muitos que “esperam do papa gestos clamorosos, discursos enérgicos e decisivos”, e acrescenta que “o papa não considera que deve seguir outra linha que não a da confiança em Jesus Cristo, à qual ele insta a sua Igreja mais do que a qualquer outro. Será ele que acalmará a tempestade”.

De São Pedro – que renegou Jesus – até hoje, o que põe a Igreja em perigo não são os limites humanos dos papas, mas sim as corjas clericais que tratam o organismo eclesial como uma sociedade por ações e arquitetam operações midiático-lobbísticas para pressionar o bispo de Roma a renunciar, tratando-o como qualquer outro “diretor-executivo” de empresa.

A audácia que vem da graça

Se realmente nos ativermos aos fatos, também é fácil reconhecer que o Papa Francisco, em relação àquilo que lhe compete, está fazendo bem a tarefa à qual foi chamado. Ele confirma os irmãos na fé dos apóstolos. Dá a todos o exemplo de pobre pecador que se aproxima do confessionário para mendigar a libertação dos próprios pecados. Sugere a cada dia, opportune et importune, que os pobres de todas as pobrezas são os prediletos do Senhor.

A cortina de fumaça das pequenas polêmicas pseudo-doutrinais e a obstinada insistência em apontar os holofotes midiáticos para minúcias e detalhes secundários do pontificado também serve para ocultar escolhas e gestos de grande momento, que estão marcando de forma sugestiva o caminho da Igreja no tempo do Papa Francisco

Se considerarmos apenas as últimas semanas, pelo menos dois acontecimentos eclesiais de primeiro plano testemunham a fibra apostólica com a qual o atual pontificado está tecido: o acordo com o governo da China popular sobre as nomeações dos bispos chineses (22 de setembro) e a canonização do bispo salvadorenho Oscar Arnulfo Romero, celebrada junto com o de Paulo VI (14 de outubro).

Sem querer “desafiar” ninguém, pelo bem dos católicos chineses, o papa e a Santa Sé conduziram pacientemente um diálogo com as autoridades de Pequim, levando em consideração que isso poderia não agradar a aparatos militares e a serviços secretos de meio mundo, e que alguns poderiam querer pôr em prática contramedidas de sabotagem e de retaliação, talvez se servindo de alguns aparatos eclesiásticos “filiados”.

No caso de Romero, o bispo mártir trucidado no altar no dia 24 de março de 1980, os vetos e as resistências ao seu processo de canonização em El Salvador e nos Palácios Vaticanos tinham predominado até a chegada do Papa Francisco. Durante décadas, havia sido eficaz a cortina de fumaça de insinuações montadas artisticamente para credenciar a fábula do Romero pró-guerrilha, agitador político, influenciado e subjugado pelo marxismo. E essa linha havia sido imposta pelos cardeais e monsenhores, segundo os quais elevar Romero à honra dos altares era equivalente a beatificar a Teologia da Libertação ou até os movimentos populares de inspiração marxista e as guerrilhas revolucionárias dos anos 1970.

Em maio de 2007, no voo que o levava de Roma ao Brasil, o próprio Bento XVI havia definido a pessoa de Romero como “digna de beatificação”. Mas aquelas palavras proferidas pelo papa diante das câmeras e de dezenas de gravadores ligados haviam sido incrivelmente apagadas das transcrições publicadas nas mídias vaticanas.

Enquanto os seus detratores se esforçam para ampliar as suas reais ou supostas “fragilidades”, o Papa Francisco faz escolhas desta magnitude: celebra a canonização de Romero e faz com que se assine o acordo com o governo chinês sobre as nomeações dos bispos.

Nesses acontecimentos eclesiais ligados às decisões tomadas pelo Papa Francisco, percebe-se um traço de coragem que não é apenas questão de índole ou de temperamento humano, muito menos tem a ver com imprudência. Ao contrário, uma liberdade de movimento que leva a pensar na – e dá testemunho da – na verdade captada por São Tomás de Aquino e inserida por ele no seu comentário sobre a Segunda Carta de Paulo aos Coríntios: “Da natureza brota o terror da morte. Da graça brota a audácia”.

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