Uma reforma liderada por leigos levanta a questão: a Igreja Católica pode ser comprada?

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10 Outubro 2018

Duas notícias na semana passada deram ampla justificativa para minhas repetidas advertências para que sejamos mais cuidadosos ao defendermosr um maior papel para os leigos. Temos que tomar cuidado para não tomar esse papel como uma espécie de panaceia para aquilo aflige a Igreja. Ambas as notícias indicam que existe um tipo de clericalismo por parte dos leigos, que emerge como mau agouro e heresia. O mais preocupante é que ambas notícias demonstraram o repugnante poder do dinheiro que implica em uma liderança leiga, levantando a questão especificamente para a Igreja do Estados Unidos: a Igreja Católica pode ser comprada?

A reportagem é de Michael Sean Winters, publicada por National Catholic Reporter, 08-10-2018.

A primeira notícia contém o relato de Tom Roberts sobre um evento na Catholic University of America (CUA) para lançar o “Better Church Governance Group” (“Grupo para uma Melhor Governança da Igreja”, em tradução livre). O meio para realizar uma governança eclesial ‘melhorada’ é formar um grupo de ex-agentes do FBI, acadêmicos e ativistas conservadores para investigar as vidas de todos os cardeais eleitores do conclave, compilando dossiês “na forma de pesquisa de oposição política”. Essa caracterização já é bastante assustadora, e assim que você lê o que o Grupo já produziu, se percebe que eles consideram essa reforma com uma agenda ideológica. De que outra forma explicar a calorosa citação ao “testemunho” do arcebispo Carlo Maria Viganò, o qual foi demonstrado que estava cheio de erros e rumores sem fundamento, ou as referências depreciativas ao Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, que não esteve envolvido em nenhum escândalo.

A maioria dos organizadores do Grupo era desconhecida para mim, mas Jay Richards foi listado como “editor de pesquisa”. Richards é professor da Tim & Steph Busch School of Business da CUA e também apresenta um programa de TV semanal na EWTN, no qual descarrega sua propaganda capitalista. Debati com Richards no Cato Institute antes da visita do Papa Francisco aos Estados Unidos. Ele finge ser um aficionado ao ensino social católico, mas, na verdade, ele e sua escola estão comprometidos em minar tal ensinamento. A Catholic University of America se orgulha muito de sua missão e do fato de que ser a única universidade americana chancelada pela Santa Sé. Por essa razão Richards deveria ser demitido. Mas, aparentemente, o fato de alguém falar despreocupadamente sobre influenciar um conclave não é grande coisa para a Universidade.

De acordo com uma reportagem no Crux, um porta-voz da CUA disse: “Um espaço no campus foi reservado por um estudante de acordo com nossos protocolos. O evento não foi patrocinado pela Catholic University of America nem por uma organização patrocinada pela Universidade”. Karna Lozoya, diretora executiva da University Communications, confirmou isso para mim por telefone, mas não é esse o caso. Se o evento foi ou não patrocinado por uma organização ligada a Universidade é irrelevante. O documento sobre a política para reserva de um espaço começa com estas palavras: “Funcionários da universidade, professores e estudantes representando escritórios da universidade, departamentos e organizações estudantis registradas para atividades relacionadas à Universidade de acordo com a missão da Universidade e os requisitos estabelecidos neste documento”. Uma vez que os funcionários da CUA deram aval para esse evento, eles o classificaram como “de acordo com a missão da Universidade”. Eu sei que o reitor Andrew Abela é pretensioso um pouco além da conta, pensando que poderia refazer a doutrina social católica, mas querer influenciar o próximo conclave? Uau.

Veremos qual serão os resultados desse movimento. Os organizadores do Grupo disseram que já haviam recrutado cerca de 40 pesquisadores, e eu conheço um ex-funcionário do FBI que foi contatado sobre trabalhar no projeto. Por outro lado, certamente alguém sabe, ou deveria saber, sobre a triste história do jus exclusivae, o direito dos monarcas católicos na França, Espanha e Áustria de vetar candidatos papais. Foi exercido pela última vez em 1903 contra a candidatura do cardeal Mariano Rampolla. Depois disso, tentativas externas de influenciar um conclave foram proibidas pela lei canônica.

O outro artigo relacionado ao caso foi o relato de Heidi Schlumpf sobre a conferência da “Reforma Autêntica” patrocinada pelo Napa Institute, de Tim Busch, e, segundo ela, com um grande papel do Augustine Institute [Instituto Agostinho], sediado em Denver e muito mal nomeado. Assim como é mal nomeada a Cardinal Newman Society [Sociedade Cardeal Newman], que não exibe nada do alcance intelectual de seu homônimo. Não se pode comparar aqueles que dão nome a ambas organizações a Busch.

A baixeza de Busch se revela em seus comentários de abertura do evento na CUA:

“Não vamos esquecer disso, [da má conduta sexual do clero]”, disse ele. “Vamos levá-los à justiça, removê-los e restaurar nossa Igreja à santidade”.

“Isso precisa parar. E nós, os leigos, vamos fazer parar. E vamos fazer isso independentemente do que a lei civil e canônica disser”, disse Busch.

“Se não toleramos isso em nossos próprios negócios, não podemos tolerar isso em nossa Igreja”, disse Busch, acrescentando que ele respeitará os padres e bispos “na medida em que eles estiverem em conformidade com o comportamento normal como num ambiente de negócios”.

Busch é cheio de si. É um empresário de sucesso dando lições aos padres de que eles precisam ser mais parecidos com ele e que, de alguma forma, a Igreja deveria ser administrada como um negócio. Obviamente, não se trata de um negócio. Ele soa como uma versão masculina de 60 e poucos anos de Veruca Salt, a garota mal-humorada de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, que exige tudo “agora” e perturba seu pobre pai sem parar até que consiga o que quer. Talvez Busch tenha um final semelhante a Veruca.

O resto do evento parece ter sido, em grande parte, bullying homofóbico. Assim como os jansenistas antes deles, os puritanos de hoje nos EUA não são apenas obcecados por sexo, mas parecem ver a diversidade sexual como um tipo de doença, algo que eles poderiam pegar em uma epidemia. E, como os jansenistas, eles exigem pureza a todo custo, o que os leva a um perverso clericalismo. Se um padre falha em seus votos, isso é uma coisa grave, assim como quando um marido ou esposa violam seus votos. Mas essa multidão está insistindo que um padre que peca contra seus votos deve deixar o sacerdócio. Esse é o clericalismo dos leigos, a expectativa de que o clero seja ultra sagrado em nome do povo. Essa é uma visão antiga do sacerdócio, mas não é exatamente a visão católica. Está mais perto dos donatistas, os cismáticos do século IV contra os quais a doutrina da ex opera operato foi concebida: é Deus quem é ativo na vida sacramental da Igreja.

Isso é preocupante, porque o jansenismo e o donatismo foram, e são, heresia. Eles tentam prender Deus em suas construções teológicas estreitas, mas Deus é onipotente e livre.

Igualmente preocupante é o fato de que os grupos conservadores de hoje podem investir dinheiro quando e onde quiserem. Católicos mais progressistas não são páreos para eles nesse sentido. E, mesmo que houvesse ricos católicos progressistas que adotassem o tom imperioso de Busch, eu resistiria a isso. O dinheiro exerce influência demais sobre a nossa política e já influencia a nossa vida eclesial mais do que deveria. Mas, enquanto ninguém contesta a necessidade de uma perícia por parte dos leigos para conduzir tal supervisão, acho que não há dúvida que se a Igreja nos Estados Unidos sucumbir a esses apelos ingênuos por reformas lideradas por leigos, as “Verucas Salt” da direita católica - Busch, Carl Anderson, Sean Fieler e outros plutocratas - estarão no comando. Eles nos levarão ao cisma e à heresia.

Muito obrigado, mas prefiro ficar do lado do Papa Francisco e dos bispos.

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