Críticos usam relatório da Suprema Corte para promover ideias contra os gays e contra Francisco

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23 Agosto 2018

No domingo passado, no icônico programa "Meet the Press" da NBC, o comentarista conservador Hugh Hewitt participou de um painel de discussão sobre o escândalo de abuso sexual do clero que dolorosamente continua afetando a Igreja Católica. Hewitt disse o seguinte:

"Acho que o procurador-geral Shapiro, democrata da Pensilvânia, criou um padrão para 49 outros procuradores porque não podemos confiar na Igreja Católica — podemos confiar em algumas pessoas: Chaput na Filadélfia, Gomez em Los Angeles. Mas não se pode confiar na Igreja para fazer isso."

E depois disse:

"É o seguinte... Wuerl tem que sair... Gomez vem para cá [Washington, D.C.]."

E por fim:

"Se eu tivesse mais tempo eu poderia fazer uma lista de bons, ótimos líderes da Igreja, como Chaput, Gomez, mas também digo que este Papa errou. E se enviar uma pessoa como McElroy para fora de San Diego ou um desses outros velhos brancos que foram cúmplices da conspiração e do acobertamento por 40 anos, ele terá errado em seu desafio mais importante, porque essas instituições são necessárias."

A reportagem é de Michael Sean Winters, publicada por National Catholic Reporter, 22-08-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

É curioso: quem fez os tópicos de Hewitt? Ele pôde escolher o arcebispo Chaput ou Gomez de uma lista? Por que eles são confiáveis e os outros não? Ele sabe o primeiro nome do bispo McElroy ou conhece sua aparência, ou sabe que ele não é um desses "velhos brancos", mas sim dez anos mais novo que Chaput e dois anos mais novo que Gomez, que ele só foi bispo por oito anos, e não 40, ao contrário de Chaput e Gomez, que foram por 30 e 17 anos? Por que Hewitt está diminuindo o bispo McElroy?

Outras perguntas, relacionadas, mas mais importantes do que essas, são: As pessoas estão percebendo que está acontecendo um golpe? Os conservadores que se opõem ao Papa Francisco, que nunca se sobressaíram pela preocupação com as vítimas de abuso sexual, estão fazendo o máximo para usar o relatório da Suprema Corte da Pensilvânia para avançar com ideias contrárias a Francisco, atacando os bispos que apoiam o Papa e elogiando os que se opõem a ele - e nada disso, nada mesmo, tem que ver com a proteção das crianças. Será que Chuck Todd, os editores do The Washington Post, todos estes comentaristas reconhecem o quanto estão sendo usados para avançar uma ideia com o objetivo final de provocar uma caça às bruxas contra os gays no clero católico e enfraquecer os esforços de reforma do Papa Francisco?

Vamos olhar para uma peça-chave no universo católico de direita, Michael Brendan Dougherty, que escreve no National Review. Ele foi um dos maiores críticos do cardeal Donald Wuerl. Ainda em 2015, num artigo com o título incisivo “O Papa Francisco teme a Deus? Sobre o Sínodo da Família e a quebra da Igreja Católica” (em inglês, "Does Pope Francis Fear God? On the Synod on the Family and the fracturing of the Catholic Church"), ele disse que Wuerl era "conhecido por sua acuidade política mais do que por sua mente doutrinária". Não importa que Wuerl tinha liderado o Comitê de Doutrina da Comissão dos Bispos dos Estados Unidos. Não importa que Wuerl tenha escrito um dos catecismos mais amplamente utilizados em inglês. Não importa que Wuerl tenha participado de mais sínodos do que qualquer outro prelado nos EUA. Não importa que Wuerl seja membro da Congregação para a Doutrina da Fé. Nem preciso mencionar que a explicação de Dougherty das questões doutrinárias envolvidas no sínodo foi bem amadora.

Agora, alguns dos meus amigos mais queridos no mundo acham que o cardeal Wuerl deve se demitir pelo que ficaram sabendo no relatório da Suprema Corte da Pensilvânia. Outros acham que o relatório é tenebroso, deixa muitas questões em aberto, acham que Wuerl cometeu alguns erros mas que acusá-lo de "fazer estupradores voltarem ao Ministério" confunde revelações posteriores sobre comportamento grotesco com o conhecimento que Wuerl tinha na época. Podemos discordar o dia todo. Mas é o seguinte: Dougherty e outros têm jogado não apenas argumentos mas lama em Wuerl, no cardeal Sean O'Malley, cardeal Joseph Tobin, cardeal Blase Cupich e cardeal Kevin Farrell, ou seja, a equipe de Francisco. Por meses, com base em fofocas de fonte duvidosa sobre a influência do ex-cardeal Theodore McCarrick, artigos que apenas mostram uma falta de conhecimento sobre as pessoas e os processos da Igreja têm surgido na mídia, diminuindo a equipe de Francisco. Ou seja, antes da publicação do relatório.

Indo mais longe, encontra-se a loucura diabólica da Igreja Militante e outros que querem tornar o escândalo de abuso sexual uma oportunidade de tirar os clérigos gays da Igreja. Você pode achar que a Igreja Militante passa dos limites - e eu concordo - mas a EWTN é uma droga que leva a um universo de maldade e insanidade. Na semana passada, Raymond Arroyo destacou os escritores Brad Miner e Liz Yore, ambos os quais começaram fortes, dizendo que era um momento de reconhecer e falar sobre a necessidade de um maior envolvimento dos leigos. Mas rapidamente ficou claro que ambos compartilhavam da opinião da Igreja Militante de que esta crise de abuso sexual tem realmente que ver com homossexualidade. Não foi nem uma única vez: basta olhar o site do jornal Remnant, onde Yore escreve, ou assistir a este vídeo em que Brad Miner mostra toda sua antipatia ao Papa Francisco. Perdoe o linguajar, mas é loucura.

Como observei na semana passada, o pedido de participação dos leigos deve ser cuidadosamente ponderado: sim, precisamos do conhecimento de leigos como Kathleen McChesney, que já trabalhou no FBI e foi uma das principais participantes do primeiro Conselho de Revisão, e Nick Cafardi, notável advogado civil e canônico que também atuou no primeiro conselho. E precisamos dos leigos com experiência de implementação de políticas contra o assédio sexual em outras organizações, pessoas reconhecidas que não vão arriscar sua reputação profissional por perdoar má conduta clerical ou hierárquica. Não precisamos de pessoas como Tim Busch, que até a semana passada nunca tinha visto um problema com acomodação desonrar o arcebispo John Nienstedt como algum capelão pessoal de seu Instituto Napa. Busch só cortou relações com Nienstedt quando não tinha outro jeito. Busch não ligou para o lançamento de um relatório sobre a má conduta de Nienstedt que está nos arquivos de alguém há anos. Busch não sugeriu ter descoberto nada novo sobre o comportamento de Nienstedt. Não, como dizem no mundo corporativo clássico, Nienstedt tornou-se um RP ruim.

Devemos nos preocupar que o pedido de participação dos leigos em alguns círculos seja apenas um pretexto para promover ideias conservadoras contrárias a Francisco. A forma como falam alguns religiosos que são líderes conservadores e alguns dos principais leigos conservadores é muito semelhante, como demonstrou meu colega Brian Roewe em um artigo publicado no NCR. Novamente, quem falou no ouvido de Hugh Hewitt?

É impossível analisar essa confusão de abuso sexual sem concluir o problema central é uma cultura clerical que permite abuso de poder. Mas devemos evitar dualismo: não é que os clérigos são ruins e os leigos são puros. Bill Cosby e Harvey Weinstein não são homens do clero. É que a cultura clerical reforça a falta de transparência e responsabilidade. Em um comentário que até então ia bem, no La Stampa, Andrea Tornielli, com razão, faz um convite à conversão, mas nós, pobres humanos, precisamos da cultura para nos levar a um ou outro caminho. As "melhores práticas" que ele parece minimizar como uma obsessão da cultura anglófona não passam de formas de criar uma cultura mais transparente e, consequentemente, mais responsável.

Sabemos como seria uma tentativa genuína de combater o clericalismo. O Papa Francisco tem demonstrado desde os primeiros momentos do papado, quando pediu que as pessoas na Praça de São Pedro rezassem por ele antes de dar sua primeira bênção. A grande questão é entender de forma genuína que o único sacerdócio heroico da Igreja Cristã é o sacerdócio do serviço, que não aceita julgamento, que acompanha a todos, não importam as circunstâncias. Mas a multidão da Igreja Militante, da EWTN e do Instituto Napa não está muito entusiasmada com o Papa Francisco neste momento, certo?

Não sei como isso vai acabar. Mas não sejamos ingênuos. As mesmas pessoas que nunca tinham demonstrado um pingo de preocupação com as vítimas de abuso sexual clerical, que defendiam pedófilos em série como Maciel e criticavam o NCR por publicar artigos sobre abuso sexual estão agora espumando pela boca, procurando as cabeças dos bispos que vão rolar. Enquanto as cabeças que procuram se limitarem aos que apoiam o Papa Francisco, já podemos entender sua verdadeira e terrível motivação. E também sabemos que estes conservadores são sinceros ao promover responsabilização quando começarem a avaliar a culpabilidade do Papa João Paulo II e seus companheiros por essa confusão. Enquanto isso, e o tempo é cruel, podemos nos preparar para várias tarefas, rezar pelas vítimas e suas famílias e renovar a Igreja humildemente tentando seguir os passos do Mestre.

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