“O maior desafio do Sínodo para todos os que estão fora da Amazônia é, de fato, assumi-lo como atividade da Igreja”. Entrevista especial com Maria Irene Lopes

Povos da Amazônia | Foto: Repam

10 Agosto 2019

A forte expressão das mulheres na Igreja da Amazônia se manifesta não só no espaço eclesial, onde elas são a maioria, mas também no processo de escuta do Sínodo Especial para a Amazônia, no qual elas representaram 56% dos participantes em assembleias, informa Maria Irene Lopes, assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM-Brasil à IHU On-Line.

A única mulher nomeada pelo Papa Francisco para integrar o Conselho Pré-Sinodal do Sínodo Especial para a Amazônia como representante da Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas, irmã Maria Irene Lopes explica o processo das escutas sinodais que deu origem ao Instrumentum Laboris – IL do Sínodo e menciona as principais demandas dos povos e do clero da Amazônia. “Só pela REPAM, mais de 80 mil pessoas foram escutadas nas mais diferentes realidades e atividades. Daí, pode-se intuir que muitas foram as demandas levantadas pelos diversos grupos e segmentos. Questões relacionadas ao território, como o avanço dos grandes projetos, os conflitos de terra, a contaminação dos rios e do ar; questões relacionadas à defesa da vida, à ausência e conivência do Estado na região, à violação aos direitos humanos, à criminalização e morte de lideranças foram levantadas por muitos grupos”, relata. Já no âmbito eclesial, pontua, “me recordo das vozes que pediam por uma Igreja com atuação profética, comprometida com o território e os saberes dos povos, que promova a proteção aos povos indígenas e demais povos ameaçados nos territórios, que seja presente nas lutas populares e não seja somente sacramental e sim missionária e em saída”.

Na avaliação dela, documento de trabalho do Sínodo “conseguiu congregar as diferentes e diversas vozes que foram escutadas em todo o processo do Sínodo. Claro que muitas ainda ficaram de fora, mas ele deu conta de reunir os grandes temas que merecem ser debatidos pelos padres sinodais. Ainda que ele venha sendo atacado por diferentes frentes, é preciso ter em mente que é um material que não é um documento oficial, mas um instrumento que possibilita diálogos e debates”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, a religiosa também comenta as iniciativas realizadas por organizações católicas feministas que reivindicam o voto das mulheres no Sínodo. “A grande questão não está no voto, mas no reconhecimento e valorização das mulheres nos espaços de decisão dentro da Igreja. E isso foi também trazido nas escutas ao longo do processo sinodal”, menciona. E adverte: “É preciso apenas que os padres sinodais nos escutem e reconheçam nossa presença e contribuição. O voto é um passo secundário, não menos importante, mas que vem acompanhado de uma nova postura que está sendo germinada na Igreja”.

Segundo ela, “o maior desafio do Sínodo para todos os que estão fora da Amazônia é, de fato, assumi-lo como atividade da Igreja. O Sínodo para a Amazônia é da Igreja e para a Igreja”. E explica: “O olhar é pan-amazônico, mas as consequências são para toda a Igreja. O lugar geográfico escolhido pelo papa Francisco não limita o resultado do Sínodo. Pelo contrário, potencializa as ações porque parte de um chão específico, de uma realidade concreta, de uma escuta consistente que subsidia a tomada de decisões de um colegiado da Igreja em vista da potencialização de suas ações”.

Maria Irene Lopes (Foto: CNBB)

Maria Irene Lopes é religiosa da Congregação das irmãs Carmelitas Missionárias de Santa Teresa do Menino Jesus. Formada em filosofia, é Assessora da Comissão Episcopal para a Amazônia e é diretora executiva na Repam.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual tem sido a sua participação na preparação para o Sínodo Especial para a Amazônia?

Maria Irene Lopes - Me senti honrada com o convite em poder contribuir e consciente de tamanha missão. Ser mulher e participar de um processo como este não é nada fácil, mas, ao mesmo tempo, sinaliza um novo tempo da Igreja e do pontificado do Papa Francisco. Como mulher, religiosa, missionária que há algum tempo já atua na Amazônia, acredito que pude, nos espaços e debates, contribuir com a reflexão que vem da base, do olhar, dos sentimentos, dos anseios e das esperanças dos povos da Amazônia. Não é uma tarefa simples, é de muita responsabilidade e compromisso com todos aqueles e aquelas que acreditam no nosso trabalho. Como Conselho Pré-Sinodal, tivemos dois encontros em Roma, mas, no Brasil, pela Comissão Episcopal Especial para a Amazônia e pela Rede Eclesial Pan-Amazônica/REPAM-Brasil, participei e contribui com uma série de atividades, desde o planejamento e construção metodológica de escutas a assessoria aos mais diferentes grupos sobre o Sínodo.

IHU On-Line - Como foi feito o processo das escutas sinodais e qual sua avaliação sobre o processo?

Maria Irene Lopes - Muitas foram as atividades realizadas pela REPAM em toda a Pan-Amazônia, mas as Igrejas particulares puderam e também realizaram outras atividades de escuta dos seus povos. Acompanhei, principalmente, os encontros que foram realizados no Brasil pela REPAM-Brasil. Assembleias territoriais, fóruns temáticos, rodas de conversas, atividades por segmentos (juventudes, quilombolas, mulheres, pescadores...) foram realizadas nos mais diferentes locais, desde as cidades até as comunidades mais distantes. Foi um movimento muito bonito de dar voz e ouvir cada uma das pessoas, dos povos que compõem a nossa Amazônia. Muitos diziam com alegria: “estamos felizes em participar, o papa quer nos ouvir”. Essa aproximação com as bases numa atitude bonita de apenas ouvir, sem querer dizer nada, fala muito da proposta do papa Francisco para o Sínodo. É, sim, das vozes das pessoas, da base, que é tecida a Igreja com rosto amazônico, e é dessa que realidade que podemos pensar os novos caminhos para Igreja e para a Ecologia Integral. Francisco foi muito assertivo em sua proposta e acredito que muitas novidades estão vindo desse movimento todo, que não se encerra no Sínodo, em outubro, mas que recebe um novo impulso dele. Assim, avalio que foi muito positivo tudo o que vivemos, o trabalho que realizamos e todos os esforços de lideranças das comunidades, padres, religiosos e religiosas, bispos e de toda a Igreja, com suas pastorais e movimentos, em vista do Sínodo para a Amazônia.

IHU On-Line - Pode nos dar exemplos de quais foram as demandas apresentadas pelas comunidades amazônicas, dos povos originários, leigos e religiosos no processo sinodal? Em que aspectos as demandas desses diferentes grupos convergem e se distanciam?

Maria Irene Lopes - Só pela REPAM, mais de 80 mil pessoas foram escutadas nas mais diferentes realidades e atividades. Daí, pode-se intuir que muitas foram as demandas levantadas pelos diversos grupos e segmentos. Questões relacionadas ao território, como o avanço dos grandes projetos, os conflitos de terra, a contaminação dos rios e do ar; questões relacionadas à defesa da vida, à ausência e conivência do Estado na região, à violação aos direitos humanos, à criminalização e morte de lideranças foram levantadas por muitos grupos. Desmatamento em geral, aplicação de veneno, biopirataria, contaminação de rios, igarapés e nascentes... A falta de compromisso com a natureza não ocorre apenas no campo, mas também nas cidades, onde o poder público e a população não se preocupam com resíduos sólidos, como, por exemplo, o lixo, os esgotos, até o óleo de cozinha da dona de casa é descartado de forma que poluem gravemente o meio ambiente; esse foi um dos clamores da Comunidade São Félix do Xingu, no Pará.

No âmbito eclesial, me recordo das vozes que pediam por uma Igreja com atuação profética, comprometida com o território e os saberes dos povos, que promova a proteção aos povos indígenas e demais povos ameaçados nos territórios, que seja presente nas lutas populares e não seja somente sacramental e sim missionária e em saída. Ainda, que desenvolva a formação processual de lideranças, esteja encarnada nas culturas existentes dos povos amazônicos, promovendo o respeito às culturas e tradições e seja participativa, inclusiva e engajada.

Acredito que as aproximações dos gritos, dos anseios, dos sonhos, das vozes que vieram da Amazônia estejam na perspectiva, de fato, de uma Igreja com rosto amazônico. Daí muitos falam que não será forjada, mas que esse rosto já existe que precisa ser reconhecido, valorizado e cuidado. Por isso os pedidos sempre na perspectiva de uma Igreja próxima, acolhedora e samaritana.

IHU On-Line - No ano passado, algumas organizações, a exemplo da Catholic Women Speak, o New Ways Ministry, a Voices of Faith, a Women’s Ordination Conference e a FutureChurch, organizaram uma petição solicitando o voto das mulheres no sínodo. Como avalia esse tipo de iniciativa? Na sua avaliação, as mulheres deveriam ter direito ao voto? Sim, não e por quê?

Maria Irene Lopes - Acredito que a grande questão não está no voto, mas no reconhecimento e valorização das mulheres nos espaços de decisão dentro da Igreja. E isso foi também trazido nas escutas ao longo do processo sinodal. O papa Francisco tem sido bem cuidadoso com isso e trazido muitas mulheres para os espaços de participação e decisão desse Sínodo. No Conselho Pré-Sinodal, eu era a única mulher e depois foi convidada a Irmã Gloria Liliana Franco Echeverri, um ganho para a presença feminina. A professora Márcia Oliveira, de Roraima, junto aos especialistas, e mesmo a comunicadora brasileira, agora vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé, Cristiane Murray, que também auxilia nos trabalhos da Secretaria do Sínodo no Vaticano, apontam para uma presença bem significativa das mulheres, sem contar as muitas que já foram convidadas por Francisco para estarem presentes no Sínodo. É preciso apenas que os padres sinodais nos escutem e reconheçam nossa presença e contribuição. O voto é um passo secundário, não menos importante, mas que vem acompanhado de uma nova postura que está sendo germinada na Igreja.

IHU On-Line - O que as mulheres da Amazônia esperam do Sínodo Especial para a Amazônia? É possível identificar quais são as pautas femininas em discussão neste Sínodo?

Maria Irene Lopes - As mulheres na Igreja da Amazônia têm uma forte expressão, elas são a maioria no espaço eclesial. No processo de escuta para o Sínodo não foi diferente, 56% das pessoas que participaram das assembleias foram mulheres. Em todas as atividades realizadas nesse itinerário de quase um ano, elas estiveram presentes com seu sorriso, sua força, sua garra... todas as experiências vividas por elas nas comunidades foram trazidas para as escutas. Não é possível dizer dos sonhos apenas das mulheres, mas de toda a Pan-Amazônia para e com as mulheres na Igreja. E daí podemos destacar, nas escutas, o pedido pelo reconhecimento e reafirmação do protagonismo das mulheres no espaço eclesial e sua força evangelizadora, bem como o respeito e a valorização da presença feminina na comunidade no que diz respeito à liturgia e ao papel de liderança, por exemplo. Pede-se ainda, de acordo com as escutas, um posicionamento maior da Igreja no combate à cultura machista e a toda forma de violência contra a mulher. Outro destaque para as escutas está no pedido por se oportunizar espaços e processos formativos para as mulheres. Há também algumas falas sobre a ordenação diaconal e sacerdotal, que se repense a presença das mulheres por meio de novos ministérios.

IHU On-Line - Missionários da região amazônica afirmam que a Amazônia tem rosto feminino. Como compreender essa afirmação?

Maria Irene Lopes - Precisamos entender como os povos originários se relacionam com a terra. Indígenas, quilombolas e extrativistas, por exemplo, têm a terra como mãe. Daí a possibilidade de se compreender a Amazônia como feminino, como maternal. Para nós que somos mais urbanos e temos uma relação diferente com a natureza, às vezes pode soar estranho. Mas no contato com os povos e suas tradições e sabedoria aprendemos muito e por isso podemos ver a Amazônia como feminino, como mãe, como espaço de acolhida e de fertilidade.

IHU On-Line - Qual sua avaliação do Instrumentum Laboris – IL? Quais pontos do Instrumentum Laboris – IL merecem destaque?

Maria Irene Lopes - Avalio positivamente o IL. O material, de fato, conseguiu congregar as diferentes e diversas vozes que foram escutadas em todo o processo do Sínodo. Claro que muitas ainda ficaram de fora, mas ele deu conta de reunir os grandes temas que merecem ser debatidos pelos padres sinodais. Ainda que ele venha sendo atacado por diferentes frentes, é preciso ter em mente que é um material que não é um documento oficial, mas um instrumento que possibilita diálogos e debates. Como bem lembra a nossa assessora da REPAM-Brasil, a professora Márcia Oliveira, “é um documento mártir que, como semente, deve morrer para gerar frutos no chão da Amazônia”. É bonito ver as comunidades por onde tenho passado dizendo que se reconhecem nele, que conseguem ver suas falas e sonhos traduzidos ali. Não foi uma tarefa simples para os peritos e para os membros do Conselho Pré-Sinodal que, com muito esforço, sistematizaram o documento. Destacar algo dele é muito complicado, são poucas páginas que carregadas de sentido e significado com uma grandiosidade de temáticas, sugestões e sonhos dos povos da Amazônia. Talvez convidasse a ter atenção para a segunda e a terceira parte, em que os temas levantados são muito significativos e propositivos para os novos caminhos que queremos para a Igreja.

IHU On-Line - O povo da Amazônia clama por olhares mais intenso das autoridades governamentais?

Maria Irene Lopes - Com toda a certeza que sim. Para se ter uma ideia, de acordo com o relatório do Conselho Indigenista Missionário, hoje são contabilizadas 1285 Terras Indígenas - TIs, porém, somente 401 terras estão demarcadas e 304 em processo de regularização. É um verdadeiro descaso e descompromisso com nossas populações indígenas, um desrespeito à nossa constituição e, principalmente, uma violação contra os direitos humanos. Os grandes projetos, ou megaprojetos, como estão chamando também, chegam com grande impacto na região da Amazônia. Com um discurso desenvolvimentista, sustentado por uma política capitalista devastadora, toma territórios, destrói o meio ambiente, gera desmatamento e provoca uma verdadeira devastação ambiental. Em quatro décadas, o desmatamento passou de 0,5% do território da floresta original para cerca de 18% da floresta original, área equivalente aos territórios dos estados brasileiros do RS, SC, PR, RJ e ES. Outro exemplo, além de 50% da madeira oriunda da Amazônia ser explorada ilegalmente, pelo menos outros 40% contêm algum tipo de irregularidade, como fraudes em documentação ou uso de trabalho escravo. Por causa desses grandes projetos, hoje a Amazônia desmatada concentra nove em cada dez mortes de ativistas em conflitos no campo. De cada cinco hectares de terra na Amazônia, um é ocupado sem documentação ou com falsos documentos. É preciso que se pense e se articule, com rapidez, transparência e justiça, políticas públicas que, de fato, transformem positivamente a vida das pessoas da Amazônia e todo o meio ambiente.

IHU On-Line - Quais os desafios da Igreja no Brasil diante do Sínodo da Amazônia?

Maria Irene Lopes - Penso que o maior desafio do Sínodo para todos os que estão fora da Amazônia é, de fato, assumi-lo como atividade da Igreja. O Sínodo para a Amazônia é da Igreja e para a Igreja. O olhar é pan-amazônico, mas as consequências são para toda a Igreja. O lugar geográfico escolhido pelo papa Francisco não limita o resultado do Sínodo. Pelo contrário, potencializa as ações porque parte de um chão específico, de uma realidade concreta, de uma escuta consistente que subsidia a tomada de decisões de um colegiado da Igreja em vista da potencialização de suas ações. Assim, com o olhar amazônico temos a possibilidade de contribuir para uma Igreja que de fato se compromete e entende o significado da “casa comum”, de que tudo está interligado, de que habitantes desse mesmo território podemos juntos ser uma Igreja diferente e viver a partir de uma ecologia integral.

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