Amazônia, reserva de sentido, coração do Sínodo de Francisco

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05 Agosto 2019

Em outubro de 2017 o Papa Francisco havia anunciado convocação de um sínodo episcopal (é um encontro de bispos; neste caso, tanto católicos como reformados) sobre a Amazônia. Este sínodo será realizado em Roma de 6 a 27 de outubro deste ano.

A opinião é do sociólogo e escritor italiano Guido Viale, em artigo publicado por Il Manifesto, 03-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Dois documentos preparatórios, escritos pelos bispos da Amazônia sob a direção do Papa Francisco - Instrumentum laboris (IL) e Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia integral (NC) - publicados recentemente, apresentam vários aprofundamentos de temas já presentes no centro da encíclica Laudato Si' (2015). Naqueles documentos problemáticas de ordem teológica ou eclesial se entrelaçam mais com aquelas de ordem econômica e social, inclusive mais do que na encíclica; o que é natural, já que Laudato é dirigida a todos os povos do mundo, independentemente de sua fé, enquanto a elaboração dos bispos amazônicos aborda sobretudo o seu campo de ação. Contudo, o sínodo é realizado em Roma e não em América Latina, pois os temas que estão no centro do debate dizem respeito ao mundo todo e não apenas à Amazônia.

Em síntese, e lidos por um laico, esses documentos desenvolvem a abordagem baseada na ecologia integral, central já na Laudato Si', elevando o ecossistema socioambiental amazônico (a ligação inextricável entre a natureza, a vida dos povos da floresta e a cultura que brota dessa conexão) como paradigma de um ponto de virada a ser impresso não apenas à religião católica, mas ao pensamento de qualquer um que pretenda lutar pela salvação da Terra em um tempo em que a crise climática e ambiental põe em dúvida a sobrevivência da espécie humana: "A cultura amazônica, que integra o ser humano à natureza, torna-se um ponto de referência para a construção de um novo paradigma de ecologia integral" (NC).

Inculturação é o termo que os dois documentos em questão adotam para ilustrar esse propósito e esse processo, ecoando o tema da encarnação, cerne da fé cristã: o deus que se faz homem num contexto sociocultural definido – a Palestina na época de Herodes - que não renega, mas, aliás, adota para transformá-lo. Assim, a missão dos cristãos na Amazônia não é apagar as culturas dos povos da floresta e do rio para substituí-las por uma religião e cultura importadas, aquelas próprias de todo o domínio colonial e pós-colonial, para as quais a Igreja certamente não foi estranha.

A missão dos cristãos é entender e assumir essas culturas, especialmente em sua dimensão espiritual e religiosa, incluindo suas divindades. Mesmo os ritos religiosos, de fato, são expressões de uma espiritualidade para a qual nem a fé em Cristo nem o pensamento moderno podem continuar a ser estranhos, sob pena de renunciar a estabelecer contiguidade, continuidade e compartilhamento entre o ser humano e a Terra, o ser vivo, a "criação". Uma relação que já o Papa Francisco colocou no centro de sua mensagem com a Laudato Si', subvertendo a abordagem antropocêntrica que dominou séculos de cultura ocidental.

"O primeiro grau de articulação para o autêntico progresso é o vínculo intrínseco entre o elemento social e o elemento ambiental. Dado que como seres humanos fazemos parte dos ecossistemas que favorecem as relações que dão vida ao nosso planeta, cuidar desses ecossistemas - em que tudo está interligado - é fundamental para promover tanto a dignidade de cada indivíduo quanto o bem comum da sociedade, tanto o progresso social como o respeito ao meio ambiente" (NC). Na formulação dos bispos amazônicos, "essa unidade inclui toda a existência: trabalho, descanso, relações humanas, rituais e celebrações. Tudo é compartilhado, os espaços privados - típicos da modernidade - são mínimos. A vida é um caminho comunitário onde as tarefas e as responsabilidades são divididas e compartilhadas em função do bem comum. Não há lugar para a ideia de um indivíduo separado da comunidade ou do seu território" (IL).

No centro dessa elaboração, há obviamente a conversão ecológica: "Somente quando estamos cientes de como nosso estilo de vida e a forma como produzimos, trocamos, consumimos e descartamos influenciam a vida de nosso meio ambiente e nossas sociedades, então podemos iniciar uma mudança completa de curso”. Mas “mudar o rumo ou converter-se integralmente não se esgota através de uma conversão individual. Uma mudança profunda do coração, que se expressa em mudanças de hábitos pessoais, é tão necessária quanto uma mudança estrutural que esteja embutida em hábitos sociais, em leis e em programas econômicos convencionados." (NC).

É um apelo explícito à luta contra um domínio que destrói vidas e meio ambiente: "O clamor amazônico nos fala de lutas contra aqueles que querem destruir a vida concebida integralmente. Estes últimos são guiados por um modelo econômico vinculado à produção, à comercialização e ao consumo, onde se prioriza a maximização do lucro sobre as necessidades humanas e ambientais. Ou seja, são lutas contra aqueles que não respeitam os direitos humanos e ambientais na Amazônia"(IL). Esta abordagem está declaradamente em conflito com os poderes que dominam não apenas a Amazônia, mas o mundo inteiro: é necessário "ouvir o clamor da ‘Mãe Terra’, agredida e gravemente ferida pelo modelo econômico de desenvolvimento predador e ecocida, que mata e saqueia, destrói e dissipa, expulsa e descarta, pensado e imposto a partir de fora e ao serviço de poderosos interesses externos."(IL).

Assim, a Amazônia, a maior reserva de biodiversidade do mundo e "pulmão da Terra" junto com seus habitantes, sua cultura, sua espiritualidade ligada aos ciclos naturais, mas também e acima de tudo com suas lutas para salvaguardar tanto a floresta quanto as suas comunidade, constitui uma reserva de sentido a partir da qual se pode buscar recurso para orientar uma sustentabilidade rica em descobertas e promessas, atitudes e comportamentos de toda a humanidade.

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