Sínodo Pan-Amazônico. Tempo de conversão, de fazer a periferia iluminar, purificar e confrontar o centro. Entrevista especial com Maurício López

Amazônia | Foto: PxHere

Por: Entrevista, tradução e edição: Ricardo Machado e Wagner F. de Azevedo | 18 Julho 2019

A humanidade há muito tempo aprendeu que poderia exercer certo controle sobre o espaço. O domínio sobre as terras e águas, embora seja muito recente na escala universal, já deixa impactos imprescindíveis no planeta. A outra dimensão importante do universo é o tempo. O sonho de viajar por ele, estendê-lo ou retraí-lo, por ora ocorre apenas em ficções. A falta de domínio do tempo obriga a humanidade ser precisa nessa relação.

O Sínodo para a Pan-Amazônia é o marco dessa precisão temporal desde a percepção do papa Francisco sobre os desafios da região para a sobrevivência do ecossistema e a missão da Igreja diante a exploração sofrida pelas comunidades e seus territórios. Maurício López, em entrevista por telefone à IHU On-Line, destaca a compreensão de que “nosso planeta está chegando a um ponto limite de não retorno e não podemos afiançar nossa resposta aos sinais do tempo em kairós, que tem outro ritmo [da espera, da confiança], a não ser na urgência de chronos”.

Para Maurício, esse processo ocorre em vista da região Pan-Amazônica, mas ele é bidimensional, isto é, abrange desde a territorialidade amazônica, mas tendo em vista as responsabilidades da Igreja universal, uma vez que “é o próprio Papa quem convoca”. “Estamos perfeitamente conscientes que, das possíveis mudanças concretas que possam ajudar a servir esta realidade [da Pan-Amazônia], tão cheia de vida, mas também de ameaças, logo haverá implicações globais que poderão ser produzidas a partir dessas mudanças”, ressalta Maurício López, que é membro do Conselho Pré-Sinodal.

O Sínodo Pan-Amazônico traça então um movimento dialético de contradições entre o local e o universal, que são visualizadas nas críticas e ataques que o processo vem sofrendo, tanto pelo governo Bolsonaro, quanto por setores conservadores da Igreja. No entanto, López é enfático ao apontar a necessidade de a “Igreja ser periferia”. “A periferia vem ao centro para iluminar, para purificar, para confrontar fraternalmente e servir como algo que permite abrir novas possibilidades que respondam à realidade urgente, crítica, que nos grita hoje em dia na Amazônia”. Pelo processo das escutas sinodais, é desta periferia que surgem os anseios tanto na relação com a Casa Comum, quanto com a participação da comunidade de fé. O secretário executivo da Rede Eclesial Pan-Amazônica - Repam destaca sua esperança de que o “Sínodo ajude nas limitações e fracassos das nossas sociedades ocidentais, de acumulação, dominação, extração, por assim dizer... o futuro do planeta depende de mudarmos nossos modos, de grandes ensinamentos para nós”.

Para ele, sua maior expectativa é que ao fim do processo sinodal possa voltar às comunidades anunciando que os clamores foram ouvidos. Para isso o Sínodo precisa consolidar as três conversões que o papa Francisco tem provocado: “a conversão pastoral presente na Evangelii Gaudium, de Igreja em saída, que evangeliza desde o social e que também é missionária; a conversão socioambiental, da encíclica Laudato Si’; e a conversão para uma igreja mais sinodal, da Episcopalis Communio, que convida a uma escuta mais ampla do povo de Deus como partícipes, ajudando o próprio Papa no modo de conduzir e liderar a igreja universal”.

Maurício López (Foto: Vatican Media)

Maurício López é mexicano, foi presidente das Comunidades de Vida Cristã - CVX, e atualmente é secretário executivo da Rede Eclesial Pan-Amazônica - Repam e membro do Conselho Pré-Sinodal para o Sínodo Pan-Amazônico.

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line — Como o Sínodo expande a sua territorialidade: do local, a região Pan-Amazônica, à Igreja Universal?

Mauricio López – É muito importante saber que o Sínodo é um instrumento do Papa para levar adiante o projeto da Igreja de construir o Reino de Deus. Portanto, ainda que o Sínodo Pan-Amazônico seja um sínodo especial implicado na territorialidade da Pan-Amazônia, tem, naturalmente, implicações no âmbito universal. Trata-se de uma territorialidade amazônica que implica nove países, mas que na verdade são apenas porções dessas nações e as sete conferências episcopais, o que expressa uma mudança profunda em assumir um desafio em uma territorialidade a partir de sua identidade como bioma, ecossistema. É uma forma metodológica de integralidade como a encíclica Laudato Si’ assinala, no sentido de que tudo está conectado.

Naturalmente, esse sínodo terá implicações claras e diretas no nível universal da Igreja. O papa Francisco, durante audiência privada que tivemos com o cardeal Cláudio Hummes e o cardeal Pedro Barreto, insistiu em não perdermos o foco do sínodo, de tal modo que estamos perfeitamente conscientes que, das possíveis mudanças concretas que possam ajudar a servir esta realidade, tão cheia de vida, mas também de ameaças, logo haverá também implicações globais que poderão ser produzidas a partir dessas mudanças. Temos que ter em mente que se trata de um sínodo bidimensional e sempre manterá sua bidimensionalidade. Em primeira instância na própria territorialidade ecossistêmica, como novidade na missão da Igreja, onde a Repam também atua e trabalha nesta perspectiva; e logo na dimensão universal que, evidentemente, é o foco deste instrumento para a Igreja – e é o Papa quem pede essa consulta sobre um tema particular – encontrar melhores formas de responder e dirigir os seus serviços neste território.

O itinerário claro de por onde deve seguir a Igreja nesse território foi dado pelo próprio papa Francisco em sua visita a Puerto Maldonado, no Peru, no encontro com os povos originários, estabelecendo primeiro a celebração da Ascensão de Jesus, em reconhecimento da identidade e da riqueza da cultura e das línguas dos povos da região, denunciando os atropelos e as ameaças que essas comunidades vivem e pedindo uma igreja que se tencione ao trabalho de inculturar, que na verdade é muito mais intercultural no meio dessas realidades, para moldarmos juntos uma Igreja com rosto amazônico e indígena.

IHU On-Line — Qual é o significado da temporalidade – do kairós e do chronos – do Sínodo?

Mauricio López – Outra tensão neste Sínodo tem a ver com a temporalidade, de um lado o kairós, o tempo preciso, o tempo propício, o tempo de Deus que não podemos controlar, senão navegar, viver e respirar para além dos limites humanos e materiais, vendo como o Espírito, a espiritualidade de Deus se revela por meio dos sinais do tempo como revelação progressiva. Nesse sentido, os novos caminhos da Igreja vão respondendo a esta dinâmica de Deus, das mudanças necessárias, das reformas, as novidades na perspectiva ministerial, incluindo os tipos de presença da Igreja nos territórios e as transformações essenciais que se vão dando pouco a pouco à luz do Concílio Vaticano II. Já se passaram 55 anos e ainda estamos decifrando o que foi dito e conquistando mudanças desde a lógica de kairós, da confiança, da espera e da esperança.

Por outro lado, temos a lógica do chronos, o tempo presente, concreto, linear, o tempo que marca os ritmos de nossa vida e é nesse tempo que a Casa Comum, a Mãe Terra, a Pan-Amazônia, como ecossistema e como populações, chega ao seu limite. Este sistema, tal como nós o estruturamos e organizamos, mata, como disse o papa Francisco, é um sistema de acumulação, de descarte, de exclusão e exploração. Nosso planeta está chegando a um ponto limite de não retorno e não podemos afiançar nossa resposta aos sinais do tempo em kairós, que tem outro ritmo, a não ser na urgência de chronos. Ou respondemos agora ou será tarde demais. Os dados das Nações Unidas e dos estudos científicos que têm sido feitos na Pan-Amazônia evidenciam nossa chegada ao ponto de não retorno.

Este sínodo deve encarar a urgência de tais mudanças e como Igreja, em sua missão intrínseca, responder ao urgente chronos da crise ambiental, colocando em prática a ecologia integral levantada pela encíclica Laudato Si’. Estando no ponto limite, não há tempo para nos distrairmos com qualquer outra coisa, e toda a Igreja e a humanidade precisam encontrar caminhos eficientes e eficazes para transformar nosso modo de estarmos e nos relacionarmos com nossa terra, com nossa mãe, com nossa irmã, que é também nossa casa comum.

IHU On-Line — Quais são as principais transformações que o Sínodo pode impulsionar na Igreja amazônica? E na Igreja universal?

Mauricio López – Já estamos vivendo transformações substanciais no marco do Sínodo Pan-Amazônico para a Igreja da Amazônia e para a Igreja universal. O fato de que se tenha assumido um sínodo a partir de uma territorialidade que não responde às estruturas tradicionais, nem do modelo administrativo dos países ou da própria Igreja, já é uma novidade. Estrutura-se uma resposta a partir de um bioma, de um ecossistema, de um território megadiverso em função de sua própria identidade e particularidade.

Sinodalidade

Além disso, o modo de escuta formal do processo sinodal, no período do papa Francisco, permitiu que nesse caminho se escutasse uma ampla quantidade de pessoas: mulheres e homens, povos originários, populações locais, catequistas, missionários e até mesmo bispos que participaram juntos nas assembleias foram ouvidos. Isso tudo foi levado adiante pela Repam a pedido da Secretaria do Sínodo, chegando a 87 mil pessoas aproximadamente, das quais 22 mil foram registradas nos espaços próprios da Repam e outras 65 mil nos processos preparatórios. Isso é uma grande novidade que expressa o desejo do papa Francisco em sua constituição apostólica Episcopalis Communio, sobre a sinodalidade, em que pede que o povo de Deus participe mais desses processos e acompanhe as reflexões. E a Repam serviu como ponte para levantar essas vozes, esperanças e gritos a fim de apresentar uma síntese que foi amplamente utilizada na construção do Documento de TrabalhoInstrumentum Laboris –, que será essencial na fase presencial do sínodo em outubro de 2019. Há aí uma grande novidade que é a ampliação da escuta, sem substituir o que já existia e se manteve, como a escuta direta aos bispos.

Um terceiro elemento que é essencial entre as mudanças que já estamos vivendo é a incorporação, no conselho pré-sinodal nomeado pelo Papa, de bispos dos territórios de missão. A periferia é o centro, já disse o papa Francisco, e se expressa por esses bispos que têm feito parte da reflexão a partir de sua vivência direta, de uma realidade concreta e não somente por meio de cargos específicos dentro da estrutura eclesial. Nesse grupo também está, como novidade, a Repam, que não é uma instituição, mas uma rede a serviço da Igreja e que tem sido fortemente afirmada pelo próprio Papa a se envolver neste conselho, inclusive com a presença de uma religiosa e um laico.

Estruturas e ministérios da Igreja

Quanto ao próprio sínodo e às mudanças esperadas, definitivamente acreditamos em transformações concretas na Igreja local e, como disse antes, que poderão ter implicações na perspectiva universal. A primeira mudança deve ser a criação de estruturas mais apropriadas, levando em conta a territorialidade amazônica, para que a Igreja possa se organizar melhor. Isso em nossas Conferências Episcopais, no Conselho Episcopal Latino-Americano - Celam, mas também fortalecendo e potencializando um olhar local, como já tem feito a Repam, para servir mais proximamente as urgências, particularidades, gritos e esperanças dessa realidade. Acreditamos que é possível um enriquecimento das estruturas.

Um segundo aspecto tem a ver com a ministerialidade da Igreja. Atualmente há uma grande dificuldade da Igreja em se fazer presente ministerialmente para todas essas mulheres e homens que são parte da Igreja e vivem em regiões muito distantes. Esperamos que o foco não esteja nesta discussão, que é uma tentação e uma distorção, sobre o assunto presbiteral, mas sim sobre a comunidade e sua possibilidade de se manter partícipe de toda identidade eclesial e sua sacralidade e, portanto, de ajudar e animar possíveis expressões ministeriais que favoreçam o crescimento da Igreja como comunidade.

O papel das mulheres

Atualmente são mulheres religiosas e leigas missionárias que acompanham muitos territórios que sustentam a missão da Igreja, ou mesmo homens laicos que fazem parte deste trabalho junto com religiosos, religiosas e sacerdotes. Trata-se de um fato que, para responder às grandes urgências, limitações e distâncias, necessita de uma discussão sobre ministerialidade, desde a perspectiva comunitária à luz do que já existe dentro da Igreja e também perfilando novos caminhos, como aquele levantado dentro do próprio sínodo, defendendo que estes homens e mulheres sigam fazendo parte da Igreja de maneira integral e plena. No coração de ser Igreja está a possibilidade de participar da vida dela, incluindo sacramentos e outras questões que, como comunidade, estão, nos dias de hoje, de alguma forma carecendo.

Ecologia integral

O âmbito da ecologia integral é absolutamente urgente. Será necessário discutir, como parte do coração da Igreja em todas suas expressões, a defesa da Casa Comum, a visão da ecologia integral e responder, talvez com uma pastoral apropriada por toda a Amazônia, sobre o cuidado da Casa Comum. Neste sentido, dialogando com outros povos originários que tanto têm a nos ensinar outras formas de organização, devemos ouvir os gritos e as necessidades de nossa irmã, Mãe Terra.

É necessário recolocar o debate sobre o modo intercultural da Igreja, seu modo de enriquecer e se enriquecer das culturas diversas em um diálogo respeitoso e uma construção compartilhada de responsabilidades para que possamos caminhar juntos nesta expressão de interculturalidade para além da noção de inculturação, que é uma chamada mais direcionada àqueles que são parte da Igreja, de modo que possamos respeitar e partilhar nosso ser dentro das diferentes realidades culturais.

Por outro lado, parece-me que é essencial esse exercício de criar redes que possam ajudar a dinamizar uma série de coisas, mas estando muito atentos às reformas e transformações que devem ser capazes de identificar a lógica de kairós, de novos caminhos para a Igreja, localizando o urgente, o possível e o progressivamente estabelecido para que no tempo se possa realizar mudanças serenas, não destrutivas e possíveis; e, por outro lado, na matéria da ecologia integral, é urgente uma resposta eficaz e crível por parte da Igreja à luz da encíclica Laudato Si’.

IHU On-Line — Que síntese você faz da Laudato Si’ com o processo sinodal no que diz respeito à ecologia integral?

Mauricio López – O processo sinodal na região Pan-Amazônica tem chaves explícitas da encíclica Laudato Si’, sobretudo sua categoria essencial e mais importante que é a ecologia integral. Depois de fazer um percurso sobre a situação planetária, as causas humanitárias dessa situação, da nossa história e identidade como crentes, na matéria do cuidado da casa comum, o Papa estabelece a categoria mais importante de todas, que é a ecologia integral. Uma categoria que é multidisciplinar e multidimensional e que precisa ser profundamente interdisciplinar e interdimensional.

A resposta da Repam na preparação ao Sínodo e do Sínodo em si é de incorporar todos os elementos no processo de reflexão. Por um lado, os âmbitos econômico, político e social, devidamente presentes na escuta do sínodo, do documento preparatório e que está fortemente estabelecido como categoria central no Instrumentum laboris, mas também nas perspectivas da ecologia humana, cultural, dos povos originários, que está fortemente presente em todo o processo preparatório, e que se fará também, na última instância, da justiça entre gerações, princípio do bem comum e a espiritualidade como eixo reitor da missão do bem viver dos próprios povos e comunidades da Pan-Amazônia, que fizeram parte de toda reflexão pré-sinodal e que esperamos que iluminem e marquem fortemente os corações daqueles que participarão na fase final do sínodo, em outubro.

Ao fim, cremos que se confirmará a centralidade da intenção da encíclica Laudato Si’ no marco das decisões, do modo de reflexão e do tipo de dinâmica espiritual que se dê dentro do sínodo mesmo em sua fase conclusiva.

IHU On-Line — Quais são os pontos em que o Sínodo pode atualizar a Laudato Si’?

Maurício López — Mais que o Sínodo atualizar a Laudato Si’, é concretizar a mesma, pela maneira de interpretação do território de uma situação particular de crise socioambiental, pelas respostas integrais, desde a categoria de ecologia integral que acabo de descrever, e pelo modo em que instâncias, como a Repam e outras, participaram à luz de sua visão claramente sustentada na encíclica Laudato Si’. Porém não esqueçamos que está igualmente sustentada na Evangelii Gaudium, quando nos fala de uma conversão pastoral.

Conversão pastoral, socioambiental e sinodal

No Sínodo há três grandes conversões em jogo:

- a conversão pastoral presente na Evangelii Gaudium, de Igreja em saída, que evangeliza desde o social e que é missionária também;

- a conversão socioambiental, da encíclica Laudato Si’; e

- a conversão para uma igreja mais sinodal, da Episcopalis Communio, que convida a uma escuta mais ampla do povo de Deus como partícipes nesse processo do Sínodo e ajudando o próprio Papa no modo de conduzir e liderar a igreja universal, em diálogo e em comunhão com as estruturas vaticanas e as estruturas eclesiais existentes. Nunca as substituindo, mas iluminando-as. A periferia vem ao centro para iluminar, para purificar, para confrontar fraternalmente e servir como algo que permite abrir novas possibilidades que respondam à realidade urgente, crítica, que nos grita hoje na Amazônia.

Não se trata de obsessões particulares ou de repulsa às estruturas, senão de como responder à realidade concreta, como o Papa dizia na Evangelii Gaudium: a realidade é mais importante que a ideia (EG, 231).

IHU On-Line — Qual a sua avaliação do processo sinodal? Quais pontos são positivos e quais são negativos?

Maurício López – Minha avaliação particular do processo sinodal até o momento, é que tem sido um símbolo de profunda novidade, que em si mesmo já abre caminhos para a conversão, ou as três conversões que descrevi, para toda a Igreja.

Porém não terá nenhum sentido, nenhum valor ou êxito profundo o que o Espírito está nos dizendo através desse Sínodo, se não tiver uma resposta crível, concreta, sistemática à missão da Igreja que está nesse território, aos gritos dos povos e comunidades que vivem um acompanhamento real, uma opção mais preferencial também pelas periferias. E, mesmo que as expressões urbanas sejam igualmente importantes, há uma necessidade de defender a casa comum, cuidá-la, pelo futuro de todo o planeta, de acompanhar os povos em seus próprios caminhos, de alguma maneira também identificando alguma noção de interculturação adequada naqueles que são povos crentes e de interculturalidade naqueles outros povos que não fazem parte da igreja. Sem proselitismo, mas compartilhando e enriquecendo-nos mutuamente. Creio que há muitos traços positivos de como se processou esse caminho.

A Repam tem uma experiência que vai mais além do momento sinodal, e nesse sentido estamos seguros e com a esperança de que seguiremos acompanhando as grandes intuições do Sínodo. Entretanto, creio que, nesse sentido, o inédito, mais que pontos positivos ou negativos, abre grandes possibilidades. Somente saberemos quais serão os "pontos positivos e negativos" quando, depois de escutar as vozes do território, esse processo de consulta for discernido e traduzido em condições concretas, reais, de defesa da vida e de maior promoção da nossa fé, também dentro das comunidades crentes desse território.

O negativo será, então, não haver cumprido com a tarefa dada, não ter acolhido aquelas vozes que nos foram encomendadas. É impossível responder a cada uma das particularidades, mas é possível no geral, com possibilidades de se reinventar.

IHU On-Line — Quais são as razões dos ataques políticos e eclesiais contra o Sínodo?

Maurício López — Os ataques políticos feitos ao Sínodo e a alguns outros eclesiais, creio eu que tenham uma só explicação: uma profunda incompreensão da realidade amazônica e de seus povos e uma profunda incompreensão da identidade da Igreja à luz do Vaticano II e do mandato desse projeto crente, cristão, libertador, evangelizador, de dar vida e vida em abundância.

Para aquele que está em instâncias governamentais, é mais fácil evadir de seu próprio fracasso e suas próprias limitações, identificando, como se fez em alguns casos, a Igreja e algumas instâncias como inimigos públicos.

A situação de alguns povos e a enorme fragilidade dos ecossistemas não são causadas nem pela Igreja, nem por outras instâncias, mas pela grave limitação de nossos representantes de cumprir com seu mandato.

Penso que foi muito equivocado identificar a Igreja como uma “potencial opositora”, visto que ela estava presente antes, e sempre esteve, com erros, é verdade, mas com uma presença real e efetiva, com uma visão de longo prazo, muito maior que a limitadíssima estrutura de serviços de governos, que tem ciclos tão curtos. Deveriam reconhecer a Igreja como esse prisma que permite ver a enorme diversidade dessas realidades e uma aliada crítica, com voz honesta e transparente, profética e chamada à profecia, mas que responde também a realidades que já estão aí.

No âmbito eclesial consideramos que há temores pelas implicações universais de algumas mudanças que poderiam se dar no marco desse Sínodo Amazônico. Mas novamente, não esqueçamos, aqui trata-se da vida dos povos e comunidades da Amazônia e de seu futuro e de que aqueles que são parte dessa Igreja possam ser realmente, de maneira cotidiana, desde a proximidade, desde a vivência de seus próprios caminhos eclesiais, no sentido de poderem contar com sacramentalidade e ministerialidade em suas respectivas realidades. As implicações globais não são a intenção desse Sínodo – certamente estamos cuidando para não perder o foco como o Papa pediu –, porém se isso tem implicações, também será parte do processo de renovação kairótica, que não podemos reduzir ou limitar, nem tampouco podemos deixar de caminhar em coerência com o que vamos escutando, com os sinais também de Deus e sua presença para buscar uma maneira genuína de dar vida a esse chamado ao Reino.

IHU On-Line — Como as lideranças do Sínodo estão respondendo a isso?

Maurício López — As lideranças do Sínodo, no sentido formal, estrutural, estão sendo absolutamente propícias. Temos que reconhecer a atitude, abertura, escuta e coerência por parte da secretaria do Sínodo, atendendo aos pedidos do próprio Papa, e por outro lado por ter acolhido e aceitado múltiplas sugestões e propostas, em um trabalho em profunda comunhão com a Rede Eclesial Pan-Amazônica.

É preciso agradecer e prestar reconhecimento ao cardeal Baldisseri e à equipe de trabalho, por aceitar e acompanhar também o Papa em sua visita a Puerto Maldonado e reunir-se com a Repam, com os diálogos de construção conjunta, pedir essa participação para amplificar a escuta, como parte dos conselhos de preparação dos grupos de experts. Não há senão gratidão e reconhecimento por esses gestos também de serem coerentes com esse chamado da constituição apostólica Episcopalis Communio para uma maior sinodalidade na Igreja. Nosso agradecimento profundo a toda a secretaria, ao cardeal Baldisseri e a todos os que fizeram parte desse caminho, de quem nos sentimos companheiros. Em todo esse processo sinodal, nós da Repam nos sentimos servidores e, também, uma caixa de ressonância da dimensão territorial, tão importante hoje no Sínodo.

IHU On-Line — Que ensinamentos o pensamento, o conhecimento e o modo de vida dos povos originários amazônicos podem transmitir às sociedades cristãs ocidentais através da experiência deste Sínodo?

Maurício López — Como está claramente presente no Instrumentum laboris, é profundamente valioso o ensinamento dos povos originários a toda a Igreja, em sua profundidade espiritual, em sua harmonia com o território entre irmãos e irmãs e com a presença da transcendência, ou seja, com a presença espiritual.

O modo integrado que na ecologia integral está sendo apenas ensaiado, já é parte da noção do bem viver dos povos, a visão de não acumulação em geral, de não destruição, de reciprocidade com a terra, com os outros, com os espíritos. Não tenho dúvidas, é preciso que o Sínodo nos ajude nas limitações e fracassos das nossas sociedades ocidentais, de acumulação, dominação, extração, por assim dizer... o futuro do planeta depende de mudarmos nossos modos, de grandes ensinamentos para nós.

IHU On-Line — Como o Sínodo pode contribuir ao trabalho com os povos amazônicos, tanto na Igreja como no trabalho desenvolvido em organizações como a Repam?

Maurício López — A Repam seguirá contribuindo com os povos originários, dia a dia, buscando caminhos de diálogo respeitoso, de atuação conjunta, presença significativa e delicada, desde a inculturação e a interculturalidade.

A Repam está a serviço do Sínodo, mas sua missão vai muito além no tempo, do mesmo modo que a Igreja local. Para nós o Sínodo é um presente, uma graça, que poderá impulsionar esses caminhos para fortalecer nosso trabalho e o que fazer nele.

Mas, também, o que não estará no Sínodo não mudará o fato de que a Repam seguirá trabalhando para o discernimento de todas as instâncias eclesiais, para acompanhar adequadamente a realidade dos povos de toda a Pan-Amazônia e suas diversas comunidades.

IHU On-Line — O que você sonha para o final do Sínodo?

Maurício López — Meu sonho pessoal para esse Sínodo é que não termine em outubro. Não me preocupam tanto as definições, os acordos, pois as sementes desse kairós de Deus já estão postas. Mas me preocupa sobretudo poder olhar nos olhos da mulheres e homens da Amazônia que participaram do processo de escuta, nos diversos espaços em que a Repam caminha e quer seguir caminhando, e dizer a eles que honramos as suas vozes. Afirmar que conseguimos incorporar o desejo do Papa, de sensus fidei, e o desejo das próprias comunidades, de estarem dentro do coração da igreja.

A periferia vem ao centro, não para substituí-lo, nem para perturbá-lo, mas para iluminá-lo e ajudá-lo a se purificar. Queria voltar às comunidades em nossa missão cotidiana e dizer “honramos suas aspirações e suas vozes” para que haja caminhos concretos, em coisas pontuais, e nas três conversões: pastoral, socioambiental e para uma maior sinodalidade na Igreja.

 

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