Tempo de responsabilidade global. Entrevista com Mauricio López, secretário executivo da Repam

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18 Setembro 2017

A Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) nasceu em 2014, em Brasília, durante um encontro entre bispos, sacerdotes, missionários, leigos, representantes das Cáritas e das organizações católicas locais. Nos nove países latino-americanos que incluem o território amazônico, a Rede atua em sintonia com a Santa Sé e quer unir os esforços da Igreja para promover a conservação responsável e sustentável em toda a região. Seu Secretário Executivo, Mauricio López, em entrevista ao L'Osservatore Romano destaca os desafios enfrentados nos últimos anos. Ele garante que na Igreja está emergindo uma perspectiva que estimula e direciona para uma nova maneira de responder aos sinais dos tempos. Com um aviso: "Se nós, cristãos comuns, não apropriarmo-nos dessas transformações, tudo isso permanecerá apenas um belo recordo, um desejo não satisfeito e uma verdadeira condição de pecado por omissão".

A entrevista é de Rocío Lancho García, publicada por L'Osservatore Romano, 17-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Qual é a sua avaliação sobre estes primeiros anos de atuação da REPAM?

A REPAM constitui uma resposta criativa do ponto de vista pastoral, e também uma vocação na Igreja para articular o trabalho em uma região que representa um desafio particularmente urgente. Não seria possível responder de forma desarticulada ou fragmentada. É importante dizer que a REPAM, embora tenha sido fundada cerca de três anos atrás, é o resultado de um longo processo que é inspirado nas ideias do Concílio Vaticano II e na reflexão da Igreja na América Latina. Se fizermos uma avaliação destes primeiros anos, vemos que o REPAM conseguiu superar as diferenças e divisões e focalizou-se no que realmente importa.

Uma verdadeira teologia da criação, uma teologia da encarnação, o que significa reconhecer a presença viva de Cristo encarnado no meio das realidades mais vulneráveis dos povos e das comunidades da Amazônia, e que nos leva a entender até mesmo a nossa vocação pastoral na perspectiva territorial. Estamos falando de uma situação complexa, um território imenso, de mais de sete milhões de quilômetros quadrados. São cerca de quatrocentos povos e nacionalidades indígenas diferentes que falam cerca de duzentos idiomas diferentes. Portanto, a avaliação da REPAM é muito positiva, embora tenha tido que enfrentar muitas dificuldades e desafios, por ser uma realidade nova.

Qual é o seu método de trabalho?

Com a reestruturação da REPAM em nível nacional, produziu-se uma mudança de estruturas dentro de muitas Igrejas locais. Isso comportou necessariamente uma articulação entre as congregações religiosas e missionárias no território, as instituições especializadas, as estruturas episcopais e Cáritas nacionais. Por exemplo, em matéria de direitos humanos estruturou-se uma escola a fim de oferecer ferramentas concretas para os operadores da área - líderes indígenas e agentes pastorais – para que sigam a realidade concreta com um acompanhamento e uma ratificação até mesmo institucional. Além disso, encurtaram-se as distâncias, a fim de ter um impacto real no mais alto nível, no âmbito internacional, nos espaços específicos das Nações Unidas e da Organização dos Estados Americanos.

Como a encíclica Laudato si’ deu um impulso para a sua missão?

A REPAM identifica-se com os apelos sócio-políticos e sócio-ambientais que a encíclica faz. Um apelo universal para todo o planeta como uma responsabilidade global diante da qual todos nos sentimos desafiados. Portanto, escolhemos, de maneira formal e clara, a encíclica Laudato si’ como visão única e central. Tudo o que a REPAM vai fazer a partir de agora será para ajudar a implementar, aprofundar e projetar para o futuro o que a encíclica propõe. Tudo isso a partir da perspectiva da ecologia integral, a grande categoria que nos oferece o Papa Francisco. A ecologia da vida cotidiana, a ecologia humana, social, ambiental, mas na perspectiva da justiça para as gerações futuras. E até mesmo uma ecologia cultural, com atenção prioritária para os povos que vivem nesses territórios que nos ensinam a relação harmoniosa com a casa comum.

O cardeal Hummes, presidente da REPAM, participou da recente assembleia dos bispos venezuelanos como parte das atividades de fortalecimento desta rede na Venezuela. Qual a sua opinião?

Muitos se perguntam como foi possível que a REPAM realizasse semelhante visita em tempos tão conturbados na Venezuela. Mas justamente por isso, é que foi feita. No atual contexto, era mais urgente e necessária do que nunca a presença genuína e fraterna de uma REPAM que nasceu e existe para atender às peculiaridades e necessidades mais urgentes da realidade. A presença do Cardeal Hummes, como presidente, eu, como secretário executivo, e principalmente a presença profética e corajosa da Igreja na Venezuela e na Amazônia venezuelana. Tivemos reuniões com vicariatos, organizações missionárias, congregações e estruturas da Cáritas. E tivemos a possibilidade de discutir a possibilidade de construir e tecer uma rede de defesa da Amazônia venezuelana que está enfrentando uma situação difícil. Basta pensar ao projeto do setor de mineração que ameaça uma das áreas de maior biodiversidade do planeta e da Venezuela. E também, por outro lado, uma das áreas onde vivem e sempre viveram povos indígenas.

Tudo isso gera uma grande preocupação. Há povos indígenas que tiveram que abandonar e fugir de seus territórios em direção ao Brasil, onde existem assentamentos maiores. Como REPAM tivemos a oportunidade de constatar a situação tão premente dessa realidade. Mas também pudemos afirmar a necessidade de trabalhar em conjunto com congregações religiosas, conferência episcopal, conferência dos religiosos, Cáritas, instituições seculares, e assim por diante, para responder em conjunto a esse desafio. Foi um momento muito iluminado em uma situação de incerteza.

O povo venezuelano é um povo que espera, que luta e que quer um projeto próprio de longo prazo, defendendo seu território, o futuro da Amazônia e a identidade cultural dos povos indígenas. O diálogo com os bispos foi esclarecedor. Eu acredito que a presença do Cardeal Hummes e da REPAM tenha colocado no centro das urgências da Igreja o apelo para cuidar da casa comum.

No mês de junho foi realizada a terceira reunião da REPAM na Colômbia. Quais foram os pontos mais importantes discutidos durante o congresso?

O processo da REPAM Colômbia, como para as outras REPAM nacionais, responde a uma identidade e realidades próprias: uma sociedade claramente atingida e afetada por situações de conflito, violência e, nesta última fase, de pós-conflito. O tecido da REPAM Colômbia foi constituído por seu próprio contexto. A REPAM não é uma franquia que impõe estruturas, mas uma plataforma que articula e permite trabalhar em conjunto. Este terceiro encontro levou formalmente ao nascimento da REPAM Colômbia, tecendo uma rede que abrange todos os atores do território. Podemos dizer que foi uma reunião muito positiva.

Na Alemanha, o arcebispo peruano Pedro Barreto deixou claro que a vida dos povos indígenas da Amazônia está em perigo. Como é possível resolver esse drama?

Cerca de seis meses atrás, houve uma grande campanha sobre a Amazônia na Alemanha.

É muito importante trazer a voz da Amazônia a outros povos e territórios, "amazonizar o mundo", porque só assim é possível torná-la conhecida e ultrapassar a identidade exótica ou folclórica dos povos indígenas para entendê-los como verdadeiros protetores do futuro da humanidade. Todas as ações que realizamos no âmbito global têm um impacto sobre a vida desses povos indígenas.

Estamos profundamente interligados. Os 20 por cento de água potável não congelada, apta para o consumo humano, é produzida nessa frágil zona, e 20 por cento do oxigênio de todo o planeta é gerado aí. Mitigar o drama que vivem os povos indígenas começa com a mudança dos hábitos de consumo das sociedades mais ocidentalizadas e também de outras que estão adotando o mesmo modelo de consumo de massa. A única maneira de remediar a essa situação é enfrentando e respondendo à profunda desigualdade planetária atual. Se pensarmos que 1 por cento da população planetária concentra nas mãos 99 por cento da riqueza existente, percebemos o verdadeiro problema. O problema é a distribuição e a excessiva exploração, não a falta de recursos.

O Papa Francisco manifestou aos bispos do Peru na visita "ad limina" o seu desejo de criar um sínodo sobre os povos amazônicos. O que poderia significar semelhante evento na Igreja Católica?

Seria um verdadeiro sinal dos nossos tempos para entender as necessidades dessas duas conversões, pastoral e ecológica. A grande novidade de tal Sínodo seria de territorializar a partir de um bioma e nos convidaria a sair de nós mesmos para responder a uma urgência terrível, porque a situação já é praticamente insustentável. Como sinal, abriria o caminho à possibilidade de uma reforma serena da Igreja sem infringir nem alterar as estruturas existentes, mas convidando-as a se renovar a partir das urgências e necessidades da realidade.

O grande sinal desse sínodo seria mostrar que já estão sendo pensados outros territórios a partir de sua identidade como biomas, como sistemas vivos. Delineia-se assim uma nova perspectiva da Igreja, que respeita, abraça e acolhe o melhor da nossa tradição, mas ao mesmo tempo aumenta e incentiva uma nova maneira de responder aos sinais urgentes dos tempos. Mas, se nós, cristãos comuns, não apropriarmo-nos dessas transformações, tudo isso permanecerá apenas um belo recordo, um desejo não satisfeito e uma verdadeira condição de pecado por omissão.

O Papa Francisco vai visitar o Peru em janeiro de 2018, incluindo a região amazônica de Madre de Dios. Como acredita que o encontro com o Papa possa ajudar a sua população?

O Papa Francisco é a ponte, o Pontífice, e toda sua ação simbólica e concreta determina uma orientação pastoral, teológica, até mesmo de dimensão social. E pisar pela primeira vez no solo da Amazônia é um sinal em favor de toda a Igreja ali encarnada. A sua presença é um sinal para toda a Amazônia, é um sinal para pensar na urgência. Mas é também uma presença de denúncia de um modelo capitalista centrado em si mesmo, em uma cultura do descarte. Uma dupla presença, de denúncia e de anunciação da esperança da Igreja na Amazônia.

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