Sínodo Pan-Amazônico: documentos são insuficientes, o desafio é dar respostas práticas às ameaças à Casa Comum. Entrevista especial com dom Neri Tondello

População ribeirinha no Pará. Foto: Antonio Cruz | Agência Brasil

Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 25 Julho 2019

A construção do Sínodo Pan-Amazônico vem se desenvolvendo desde 2017 em um longo processo junto às comunidades amazônicas. Nesse período, foram mais de 87 mil pessoas que participaram de 260 eventos de escuta, debate e formação e que embasam o Instrumentum laboris que aponta as diretrizes da reunião dos bispos no próximo mês de outubro, em Roma.

Apesar das controvérsias que o Instrumento de Trabalho despertou, para dom Neri José Tondello “o relatório será sempre insuficiente”, pois por si só não suscita as respostas e transformações necessárias que se dão por meio de um “processo de conversão pastoral, conversão ecológica e conversão à sinodalidade eclesial”.

Na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, dom Neri avalia que o Instrumentum laboris “levanta uma série de denúncias que causam graves consequências à Amazônia e à ‘Casa Comum’ e seus habitantes”, mas que as respostas dependem de “uma Igreja mais presente, isto é, permanente na vida das comunidades, mais além de uma Igreja que apenas visita”.

Entre os desafios de construir uma Igreja que se faça mais presente, o bispo de Juína destaca a falta de ministérios na região: “muitos homens que não têm vocação para o celibato, provavelmente podem ter vocação para o sacerdócio, poderiam ser integrados com modalidade diferente de ministério”, problematiza. Para ele, é preciso “aprofundar a modalidade de ministério que o sacerdócio pode desempenhar na comunidade como presença permanente”.

Uma igreja mais presente também é responsável por escutar “os gritos e clamores dos povos da Amazônia, em vista de uma ‘Ecologia Integral’”. Segundo dom Neri, o Instrumentum laboris elenca um grande número de ameaças contra a Pan-Amazônia e suas diferentes populações. Entre elas estão o assassinato de lideranças sociais, a privatização da terra, a construção de hidrelétricas, o extrativismo, a contaminação de rio e matas, o alcoolismo, a violência contra a mulher, o trabalho sexual, o tráfico de pessoas, a perda de sua cultura originária e de sua identidade.

O bispo, no entanto, faz uma ressalva: a questão quilombola não aparece no Instrumentum laboris. Para ele, “a questão quilombola é muito profunda, complexa e delicada, mas que deveria ser levada em conta, em vista de uma interculturalidade mais completa no convívio da Amazônia”, e destaca que há uma dívida histórica com essas populações, que é necessária e deveria ser levantada até a conclusão do Sínodo.


Dom Neri José Tondello. Foto: REPAM

Neri José Tondello é bispo da Diocese de Juína, em Mato Grosso. Dom Neri possui Mestrado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul — PUCRS. Foi vice-reitor do Seminário Maior São Lucas em Viamão-RS (2002), reitor do Seminário Maior São José e Maria Mãe da Igreja, Caxias do Sul-RS (2003) e reitor do Seminário Maior Sagrado Coração de Jesus da Diocese de Juína, Várzea Grande-MT (2004-2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line — Como foi feito o processo das escutas sinodais e qual sua avaliação sobre o processo?

Dom Neri José Tondello — O processo de escuta foi intenso. Considera-se que houve uma grande participação e muito interesse em apresentar sugestões, clamores, sofrimentos, angústias, alegrias, sabedorias e esperanças dos habitantes da Amazônia.

Desde o dia em que o papa Francisco convocou o Sínodo Especial para a Amazônia, em 15-10-2017, o caminho sinodal transcorreu em busca do envolvimento do maior número de pessoas possíveis: de comunidades e grupos, em rodas de conversa e outras ocasiões. Em Puerto Maldonado, no Peru, o papa Francisco, no dia 19-01-2018, disse: “o Sínodo da Amazônia começa hoje aqui em Puerto Maldonado”.

Em Roma, nos dias 12 e 13 de abril de 2018 ocorreu a reunião do Conselho Pré-Sinodal. Nesta reunião foi aprovado o documento acompanhado de um questionário que orientou a participação das comunidades, dos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, assentados e demais. Ao longo deste processo de escuta sinodal, foram 260 eventos relacionados com a Assembleia Especial. Entre os quais 70 territoriais, 25 fóruns temáticos e mais de 170 encontros, seminários e reuniões de todo tipo. Estima-se que participaram mais de 87 mil pessoas em todos os eventos. De todos os envolvidos, foram 22 mil pessoas pela organização das dioceses e outros organismos eclesiais e 65 mil nos processos preparatórios de consultas.

IHU On-Line — Como esse processo das escutas sinodais aparece no Instrumentum laboris?

Dom Neri José Tondello — Em todo seu relatório, o documento apresenta o resultado das contribuições que foram colhidas e enviadas. É claro que o material é muito vasto, e é difícil ter o contato com todas as propostas e contribuições, mas a meu ver está bem descrito quanto à realidade dura pela qual passa a Amazônia e seus habitantes. Apresentam-se os desafios, precariedades, problemáticas e impactos, que perpassam pelo tráfico de drogas e de pessoas, pela exploração sexual, pelo desmatamento ilegal, o agronegócio sem escrúpulo de uso de agrotóxicos – que mata os rios e os peixes –, os megaprojetos de construção de hidrelétricas, os garimpos e as mineradoras, até a falta de agentes preparados, ordenados ou leigos.

De outra parte, é verdade que o relatório será sempre insuficiente. Faz-se necessário, por sua vez, um processo de conversão pastoral, conversão ecológica e conversão à sinodalidade eclesial.

Dividido em três partes, o documento provoca a escutar a voz da Amazônia, primeiramente, como lugar da vida (p.09). A segunda parte do Instrumentum Laboris desenvolve a temática da Ecologia Integral: o clamor da terra e dos pobres, problemática ecológica e pastoral; e a terceira parte apresenta a Igreja profética na Amazônia: desafios e esperanças, a eclesiologia e a pastoral. Muitas contribuições foram enviadas, e o Documento expressa a realidade desta escuta.

IHU On-Line — Quais os pontos que devem ser destacados como principais no Instrumentum laboris?

Dom Neri José Tondello — O Instrumentum Laboris levanta uma série de denúncias que causam graves consequências à Amazônia e à “Casa Comum e seus habitantes. Contudo, são os temas que julgamos imprescindíveis para serem enfrentados com amplo debate nos dias do Sínodo, de 06 a 27 de outubro de 2019, com a presença de todos os bispos da Amazônia. A denúncia dos pecados: “colonialismo (domínio), mentalidade economicista-mercantilista, consumismo, utilitarismo, individualismo, tecnocracia, cultura do descarte” (IL, n. 103) acenam para a necessidade urgente de conversão.

A biodiversidade, o ecumenismo e diálogo inter-religioso, a ministerialidade da Igreja, o reconhecimento e a presença da mulher na comunidade e na Igreja, a interculturalidade, a inculturação, a justiça, a demarcação das terras indígenas, os megaprojetos das hidrelétricas, o tráfico de pessoas, “narcotráfico e narconegócio”, a grilagem das terras, mineradoras e garimpos, a missão da Igreja na Amazônia, a Igreja presença, para além da visita, a importância da Amazônia para o mundo e a responsabilidade do mundo para salvar a Amazônia, caracterizam o apelo que vem da terra e dos pobres em direção ao ouvido do Sínodo.

A reconciliação com a Amazônia e pensar em como melhorar a presença da Igreja é questão a ser ampliada, mesmo que muito já tenha sido feito. Contudo, o grito exige pensar mais e melhorar a presença pastoral e a evangelização a partir da presença da Igreja de forma mais permanente. O rosto Amazônico da Igreja, a casa comum, a fraternidade da biodiversidade, a sinodalidade, entre outros, são temas que ajudam o Sínodo a cumprir sua missão.

IHU On-Line — O documento cita algumas questões polêmicas (que acabam recebendo um destaque na mídia e criam expectativa), como novos ministérios, o papel da mulher e a relação da Igreja católica com outras igrejas... Nesta perspectiva, quais são os caminhos e ações mais urgentes que o Sínodo precisa estabelecer para a Igreja Pan-Amazônica, e como pode apontar caminhos para a Igreja Universal?

Dom Neri José Tondello — A mídia em muitos casos acentua o periférico, não que não seja importante sua divulgação, mas destaca aquilo que nem sempre é o centro da questão. A Ecologia Integral é a questão central. Neste assunto inclui-se toda reflexão da Amazônia, debate, sugestões, propostas e sinodalidade.

Sabemos que “a Igreja vive da Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja”, essência e alma da Igreja, e isto se apresenta como um tema que tem muito a desejar por parte da Igreja. Nossa dívida de Igreja para com os povos da Amazônia, povos de regiões mais distantes é muito grande. Mais de 70% das comunidades não têm Eucaristia nos domingos. Portanto, sugere o texto (n. 129), como na “Igreja primitiva, quando ela respondia a suas necessidades criando os ministérios oportunos” (At 6, 1-7; 1Tm 3, 1-13).

Precisamos na Amazônia passar de uma “Igreja da visita” para “uma Igreja que permanece” (IL, n. 129). “O celibato é uma dádiva para a Igreja... pede-se que, para as áreas mais remotas da região, se estude a possibilidade da ordenação sacerdotal de pessoas ‘idosas’, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas por sua comunidade...”. Acrescento: mesmo que o celibato seja esta dádiva e este dom tão precioso para a Igreja, muitos homens que não têm vocação para o celibato, provavelmente podem ter vocação para o sacerdócio, poderiam ser integrados com modalidade diferente de ministério. Nesta situação é preciso aprofundar a modalidade de ministério que o sacerdócio pode desempenhar na comunidade como presença permanente. Lembro aqui de outro ponto de vista: aceitar apenas os celibatários para o exercício sacerdotal não seria reduzir o próprio ministério presbiteral? Não seria restringir a criatividade do Espírito Santo de Deus?

Outra questão importante que o Instrumentum Laboris apresenta no texto é “identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher, tendo em consideração o papel central que hoje ela desempenha na Igreja amazônica” (IL, n. 129). Em nossas comunidades, quem as anima, a grande maioria absoluta não são as mulheres? Na catequese, a grande maioria não são mulheres? Nos grupos de reflexão e grupos de família, da mesma forma? Elas representam o rosto materno da Igreja. “Também se pede que a voz das mulheres seja ouvida, que elas sejam consultadas e participem nas tomadas de decisões e, deste modo, possam contribuir com sua sensibilidade para a sinodalidade eclesial” (IL, p. 51).

Todos estes assuntos, antes de serem considerados temáticas polêmicas, são salutares, benéficos e necessários para que a Igreja se torne mais servidora e mais samaritana. São assuntos pertinentes a um Sínodo, pela própria dinâmica do debate, do diálogo que o Sínodo dispõe. O Sínodo é o espaço ideal para se tratar com liberdade todos os temas. De outro lado, são temas que apaixonam a dinâmica do Reino de Jesus.

O Sínodo assume profética e corajosamente tais assuntos, porque fazem parte da própria realidade, no intuito de buscar “caminhos novos para a Igreja” como resposta aos gritos e clamores dos povos da Amazônia, em vista de “uma Ecologia Integral”.

Esta dinâmica do debate responde não somente à Igreja na Amazônia, como nos pede o papa Francisco: “A evangelização na Amazônia é um banco de ensaio para a Igreja e para a sociedade” (IL, n. 106). Para tanto, a Igreja universal pode se beneficiar destes caminhos novos.

IHU On-Line — Dada a atual conjuntura da Igreja, quais serão os desafios de atender os clamores das comunidades amazônicas?

Dom Neri José Tondello — Será preciso uma Igreja mais presente, isto é, permanente na vida das comunidades, mais além de uma Igreja que apenas visita – Igreja em saída, é um apelo urgente.

p>Um assunto que se insiste é na demarcação das terras indígenas, porque a Amazônia é o que sobrou para os povos originários. Perderam quase todo o resto. O território é questão vital para os povos indígenas. “A vida na Amazônia está ameaçada pela destruição e exploração ambiental, pela violação sistemática dos direitos humanos... dos povos originários, como direito ao território, à autodeterminação, à demarcação dos territórios e à consulta e ao consentimento prévios” (IL, n. 14).

Ameaças

O Instrumentum laboris reforça que a Amazônia está ameaçada, sobretudo: “a) pela criminalização e assassinato de líderes e defensores do território; b) pela apropriação e privatização de bens da natureza, como a própria água; c) por concessões madeireiras legais e pela entrada de madeireiras ilegais; d) pela caça e pesca predatórias, principalmente nos rios; e) por megaprojetos: hidrelétricas, concessões florestais, desmatamento para produzir monoculturas, estradas e ferrovias, projetos mineiros e petroleiros; f) pela contaminação ocasionada por todas as indústrias extrativistas que causam problemas e enfermidades, principalmente para as crianças e os jovens” (IL, n. 15). Adiciona ainda "o alcoolismo, a violência contra a mulher, o trabalho sexual, o tráfico de pessoas, a perda de sua cultura originária e de sua identidade e demais condições de pobreza, às quais estão condenados os povos da Amazônia".

Ações concretas necessárias

É preciso pensar e rezar a casa comum e o comportamento dos que habitam nela dando-nos conta da migração como outro grave problema. “Várias pessoas emigraram para a Amazônia em busca de teto, terra e trabalho” (IL, n. 63). “Migram por questões sociopolíticas, climáticas, de perseguição étnica e econômicas” (IL, n. 64). Neste sentido, é preciso pensar uma pastoral indígena para a cidade.

Os pobres e a terra são lugares teológicos. O martírio na Amazônia é muito presente – entre eles o da irmã Dorothy Stang. A realidade é escandalosa e grita ao céu tantos mortos; somente entre 2003 e 2017, foram assassinados 1.119 indígenas.

Diante do desmatamento ilegal é preciso sustentar as alianças para combate do desmatamento e estimular a reflorestação (IL, p. 58). Encorajar as iniciativas agroecológicas, bem com fortalecer sua organização através de associações e cooperativas é alternativa para os povos que vivem na Amazônia. Os meios de comunicação comprometidos com a causa da Amazônia e de seus povos também são chamados em questão.

Promover a educação e formação integral valendo-se da educação popular como construção do protagonismo próprio. “A educação promove o ‘bem viver’, o ‘bem conviver’ e o ‘bem fazer’” (IL, n. 97).

Fomentar a pastoral social, a fé e política como dimensões comprometidas com a honestidade superando a corrupção na vida pública. A esperteza e humildade pastoral em perceber as sementes do Verbo na interculturalidade da Amazônia (IL, n. 108). Levar em conta a tradução da Sagrada Escritura para as diversas línguas indígenas, como forma de inculturação do Evangelho.

As comunidades pedem liturgia, pedem canto, pedem catequese, pedem a missa, pedem o Batismo, pedem a Crisma, pedem o Matrimônio, pedem a bênção às casas. É neste sentido que se faz necessário suscitar lideranças para ministérios com rosto amazônico com presença mais constante na região Pan-Amazônica. A presença dos jovens e a valorização dos leigos ressoa como apelo e apoio ao laicato.

Uma Igreja em saída, diferente do estilo histórico de colonialismo, uma Igreja que perscruta novos caminhos no encontro e diálogo com as culturas para superar “uma ferida ainda aberta por abusos cometidos no passado... mas é necessário descolonizar as mentes”.

IHU On-Line — Quais as questões que faltaram ser abordadas no instrumentum laboris?

Dom Neri José Tondello — A questão da cultura quilombola.

IHU On-Line — Por que não foi abordada?

Dom Neri José Tondello — Eu participei da reunião do Conselho Pré-Sinodal em Roma nos dias 14 e 15 de maio e não tinha me dado conta deste tema na reunião. Não apareceu no debate. Agora que recebi o Instrumentum Laboris e percebi que, também em todo o documento, a questão não se encontra. Creio que ainda podemos solicitar que seja recuperado durante a realização do sínodo. Questão importante na oportunidade.

IHU On-Line — Como deveria ser abordada a questão quilombola?

Dom Neri José Tondello — A meu ver a questão quilombola é muito profunda, complexa e delicada, mas que deveria ser levada em conta, em vista de uma interculturalidade mais completa no convívio da Amazônia. Por se tratar de inclusão, penso que poderia ter maior expressão cultural, questão religiosa, espiritualidade, ritos, formas de resistência, organização social, familiar, instância política. E questões sociopolíticas, os salários e as desigualdades, as oportunidades de trabalho, o diferente trato social que recebem, a discriminação racial, as dificuldades de acesso à justiça e garantia de direitos, políticas e modelos de educação...

Seria bom para o Brasil rever esta dívida histórica com este povo que carregou a economia durante séculos.

IHU On-Line — Como avaliar o tratamento dado pelo Estado, Igreja e movimentos sociais às comunidades quilombolas na Amazônia – em comparação a outros povos tradicionais?

Dom Neri José Tondello — Na Diocese de Juína a expressão quilombola não é tão forte, mas participei de reuniões de escuta em Cuiabá, capital do Mato Grosso, na CNBB Regional Oeste 2, e percebi que a presença quilombola é forte em todos os sentidos, seja dada a cultura, a expressão religiosa, a ritualidade. São resistências à discriminação racial e sustentam questões vitais da própria identidade cultural.

Na verdade, o Brasil nunca reconheceu aqueles que sustentaram a economia por séculos de escravidão. Continuamos a tratar esta camada da sociedade com desprezo, marginalização, exclusão. Temos expressões importantes de minorias que ainda resistem e lutam por dignidade e direitos no Estado, na Igreja, na Escola, na Universidade, no trabalho. Parece-me pertinente que fossem incluídos no debate.

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